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A Igreja do primeiro milénio nasceu do sangue dos mártires: « sanguis
martyrum — semen christianorum », (sangue de mártires, semente de
cristãos).(21) Os acontecimentos históricos relacionados com a
figura de Constantino Magno nunca teriam podido garantir um desenvolvimento da
Igreja como o que se verificou no primeiro milénio, se não
tivesse havido aquela sementeira de mártires e aquele
património de santidade que caracterizaram as primeiras
gerações cristãs. No final do segundo milénio, a
Igreja tornou-se novamente Igreja de mártires. As
perseguições contra os crentes — sacerdotes, religiosos e leigos
— realizaram uma grande sementeira de mártires em várias partes
do mundo. O seu testemunho, dado por Cristo até ao derramamento do
sangue, tornou-se património comum de católicos, ortodoxos,
anglicanos e protestantes, como ressaltava já Paulo VI na homilia da
canonização dos Mártires Ugandeses.(22)
É um
testemunho que não se pode esquecer. A Igreja dos primeiros
séculos, apesar de encontrar notáveis dificuldades organizativas,
esforçou-se por fixar em peculiares martirológios o testemunho
dos mártires. Tais martirológios foram-se actualizando
constantemente ao longo dos séculos, e, no álbum dos santos e
beatos da Igreja, entraram não apenas aqueles que derramaram o sangue
por Cristo, mas também mestres da fé, missionários,
confessores, bispos, presbíteros, virgens, esposos, viúvas, filhos.
No nosso
século, voltaram os mártires, muitas vezes desconhecidos, como que « militi
ignoti » da grande causa de Deus. Tanto quanto seja possível,
não se devem deixar perder na Igreja os seus testemunhos. Como foi
sugerido no Consistório,impõe-se que as Igrejas locais tudo
façam para não deixar perecer a memória daqueles que
sofreram o martírio, recolhendo a necessária
documentação. Isso não poderá deixar de ter uma
dimensão e uma eloquência ecuménica. O ecumenismo dos
santos, dos mártires, é talvez o mais persuasivo. A
communio sanctorum fala com voz mais alta que os factores de
divisão. O martyrologium dos primeiros séculos constituiu
a base do culto dos Santos. Proclamando e venerando a santidade dos seus filhos
e filhas, a Igreja prestava suprema honra ao próprio Deus; nos
mártires, venerava Cristo, que estava na origem do seu martírio e
santidade. Desenvolveu-se sucessivamente a prática da
canonização, que perdura ainda na Igreja Católica e nas
Igrejas Ortodoxas. Nestes anos, foram-se multiplicando as
canonizações e as beatificações. Elas manifestam a vivacidade
das Igrejas locais, muito mais numerosas hoje que nos primeiros
séculos e no primeiro milénio. A maior homenagem que todas as
Igrejas prestarão a Cristo no limiar do terceiro milénio,
será a demonstração da presença omnipotente do
Redentor, mediante os frutos de fé, esperança e caridade em
homens e mulheres de tantas línguas e raças, que seguiram Cristo
nas várias formas da vocação cristã.
Será
tarefa da Sé Apostólica, na perspectiva do ano 2000,
actualizar os martirológios para a Igreja universal, prestando
grande atenção à santidade de quantos, também no
nosso tempo, viveram plenamente na verdade de Cristo. De modo especial,
haverá que diligenciar o reconhecimento da heroicidade das virtudes de
homens e mulheres que realizaram a sua vocação cristã noMatrimónio:
convictos como estamos de que, também em tal estado, não
faltam frutos de santidade, sentimos a necessidade de encontrar os caminhos
mais oportunos para os verificar e propor a toda a Igreja como modelo e
estímulo dos outros esposos cristãos.
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