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2.
"Por vós estudo": elemento indispensável à missão juvenil
A
Exortação Apostólica Vita Consecrata recomenda a todos os religiosos,
como parte integrante da experiência de vida no Espírito e condição da eficácia
apostólica, um renovado amor pelo empenho cultural e dedicação ao estudo.
Trata-se de aplicar a totalidade do ser e acolher o mistério de Deus e de ler,
com inteligência e objetividade, à luz da fé, os seus sinais na natureza e a
sua presença na história humana.
O
texto foi muito citado, mas convém ouvi-lo de novo: "Para além do serviço
prestado aos outros, também no interior da vida consagrada há necessidade de um
renovado amor pelo empenho cultural , de dedicação ao estudo como
meio para a formação integral e como percurso ascético, extraordinariamente
atual, frente à diversidade das culturas. A diminuição do empenho pelo estudo
pode ter pesadas conseqüências mesmo no apostolado, gerando um sentido de
marginalização e de inferioridade ou favorecendo superficialidade e imprudência
nas iniciativas".
A
recomendação não faz outra coisa que retomar a tradição dos Institutos de vida
consagrada, cujas comunidades sempre se constituíram como proposta de vida
espiritual, humanamente cheia de significado, e também como lugares de educação
e cultura segundo os próprios carismas. A experiência de Deus foi sempre
pensada como sabedoria que ilumina a vida de cada um e da humanidade, não só
com o exemplo moral, mas também com um olhar sobre o mundo, um pensamento e uma
palavra ainda que simples.
Pode
parecer a alguém que o tema não se espose facilmente com a operosidade
incansável e a prontidão de iniciativa que caracterizam o nosso espírito; tema
um tanto novo em relação a uma certa imagem de salesiano e de comunidade sempre
disponíveis, constantemente às voltas com novos projetos. Trata-se, entretanto,
de um traço característico da figura de Dom Bosco, que impulsionado pelo Da
mihi animas oferece a vida no serviço aos jovens, à Igreja, à sociedade,
mas demonstra-se atento à situação juvenil, social e eclesial do seu tempo, aberto
a horizontes sempre mais amplos, capaz de perceber o peso dos fenômenos que
influem na vida individual e coletiva (imprensa, emigração, novas leis, difusão
da cultura, risorgimento e unificação da Itália, etc.).
Há um
artigo, no capítulo constitucional sobre o espírito salesiano, que caracteriza
o tipo da nossa caridade pastoral. " Nossa vocação - diz - é marcada por
um dom especial de Deus, a predição pelos jovens... Pelo bem deles oferecemos
generosamente tempo, dotes pessoais e saúde". A afirmação é logo iluminada
com uma expressão de Dom Bosco: "Por vós estudo, por vós trabalho,
por vós eu vivo, por vós estou disposto até a dar a vida".
O
crescendo dos verbos e das ações acentua a totalidade da vida colocada à
disposição dos jovens. É evidente, porém, que o estudo não caiu por acaso na
sucessão de expressões. Uma série de elementos biográficos de nosso Pai
leva-nos a dar um valor específico ao estudo: o relevo que o amor ao estudo
teve em sua formação coroada com os três anos do Convitto após a ordenação
sacerdotal para um conhecimento mais atualizado da moral e da direção das
almas; o espaço que o estudo tem em seu programa educativo, estando sempre
presente em suas formulações sintéticas ("santidade, estudo,
piedade"); a sua idéia de educador e de sacerdote, que sempre une à
amabilidade, a capacidade de iluminar, ensinar e guiar; os freqüentes acenos à
sabedoria em suas máximas e ainda o papel iluminante atribuído à fé e à razão.
Dita
num contexto de cordialidade e afeto pelos seus jovens, num "intercâmbio
de dons", a expressão refere-se a alguns de seus gostos e atitudes que,
sem serem mortificados, convergem na experiência central de sua vida: ser
totalmente para os jovens. O estudo, que não deve ser reduzido só "aos
estudos", é, para Dom Bosco, parte indispensável da nossa dedicação aos
jovens, da nossa preocupação paterna para entendê-los e comunicar-lhes a fé, os
conhecimentos e as experiências de vida.
Alguns
fatos revelam o conteúdo real que a expressão teve em sua vida.
Pensemos
em sua capacidade de contemplar a realidade, a juvenil em primeiro lugar, mas
também as vicissitudes da Igreja e a situação do País, sem perturbar-se nem
deixar-se condicionar, atento à avaliação de conjunto com chaves de leitura
educativas e pastorais próprias de sua vocação. Pensemos em sua audácia em
buscar respostas adequadas aos problemas; deixar mensagens compreensíveis,
servindo-se de todos os meios à sua disposição; empenhar-se na difusão da
história sacra, da história italiana, da verdade cristã e de uma forma de literatura
popular, impondo-se o trabalho de pesquisar, ordenar e redigir.
"Por
vós estudo": refere-se ao esforço paciente da elaboração de um
"sistema educativo original", com materiais de sempre, intuições
próprias, contribuições de contemporâneos e sínteses originais. Faz
pensar também na ativação de um "projeto de obras" correspondente aos
tempos. Ele acompanha o funcionamento delas e traça com inteligência e solidez
orientações e normas, atento ao estilo que nelas queria inserir e à consecução
dos fins. Demonstra-se capaz de compartilhar, de confrontar-se, de entrar em
diálogo com pessoas das mais diversas experiências e competências, com
protagonistas do pensamento, da política, da vida social.
A
formulação pensada de uma experiência vivida no Espírito, com caminhos
espirituais para jovens e adultos, apresentada à viva voz e colocada por
escrito, também comportou a aplicação da mente expressa no "por vós
estudo". Era um aprender da vida, um refletir sobre a experiência
educativa, um caminhar aberto à revisão, sem contentar-se com aquilo que sempre
fez nem cair na repetição. Era o desejo e a aquisição paciente da
"sabedoria" ("Sapientiam dedit illi..."), indicada
no primeiro sonho como característica de sua vida, que se aprende na escola do
Bom Pastor e de Maria Mestra, na disponibilidade ao Espírito, na sintonia com a
Igreja; e exprime-se no discernimento dos acontecimentos, na avaliação das
experiências espirituais diante de Deus, na compreensão das situações e no
serviço de orientação e guia dos outros.
"Por
vós estudo", faz-nos pensar também num Dom Bosco capaz de buscar
tempos e lugares que favoreçam a solidão ativa, o recolhimento e o projeto. São
os seus tempos de oração, os exercícios espirituais anuais, algumas pausas que
lhe permitem maior concentração, mas também o seu trabalho de escritório de
onde provém a abundante correspondência, as concepções de novos projetos e a
produção de escritos, tudo mais que insignificante.
Caridade
e competência, estudo e trabalho, ação e reflexão fundem-se pela graça de
unidade para "o bem" dos jovens. Trata-se de uma integração não
fácil, ameaçada muitas vezes pela esquizofrenia na práxis ou na mentalidade a
que se expõe quem caminha com um estilo de vida e de trabalho em que "não
há tempo" para a reflexão ou para o confronto; ele corre o risco de
apartar-se da finalidade pastoral, acabando por ter como linha de princípio que
não cabe ao salesiano uma atividade ordenada de estudo e aprofundamento.
Diria,
portanto, que assim como o nosso trabalho sem oração arrisca-se a não ser
missão ("trabalho e oração"), também o nosso agir sem
"estudo", sem sabedoria e competência, dificilmente atingirá as metas
estabelecidas para o serviço educativo pastoral.
"O
estudo e a piedade farão de ti um verdadeiro salesiano", escrevia Dom
Bosco a um irmão. A frase foi colocada no início do Motu Proprio Magisterium
Vitae, com que o Papa Paulo VI em 1973, conferiu o título de Universidade
Pontifícia ao Pontifício Ateneu Salesiano , quase a repetir no mais alto nível:
"Cultura e espiritualidade farão de ti um autêntico e competente educador
pastor dos jovens". Ambas são, de fato, necessárias para traduzir a
caridade pastoral salesiana em experiência de vida e em projetos de missão. Não
é, pois, um aspecto marginal, que toca apenas alguns momentos da nossa vida ou
interessa a quem está empenhado em algumas fronteiras particulares da missão.
Pode assumir formas e expressões diversas, segundo as aptidões e dons pessoais,
mas será sempre uma das condições para encarnar o amor pelos jovens, que dá significado
a toda a nossa existência.
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