7. Do estudo dos escritos de Santa
Teresa do Menino Jesus e da ressonância que tiveram na Igreja, podem-se
colher os aspectos salientes da «eminente doutrina», que constitui o elemento
fundamental sobre o qual se baseia a atribuição do título
de Doutora da Igreja.
Deles resulta, antes de tudo, a existência de um particular
carisma de sabedoria. Esta jovem Carmelita, de facto, sem uma especial
preparação teológica, mas iluminada pela luz do Evangelho,
sente-se instruída pelo Mestre divino que, como ela diz, é «o
Doutor dos Doutores» (Manuscrito A, 83 v), do Qual haure os
«ensinamentos divinos» (Manuscrito B, 1 r). Sente que se realizaram nela
as palavras da Escritura: «Se alguém é pequeno venha a Mim...; a
misericórdia é concedida aos pequenos» (Manuscrito B, 1 v;
cf. Pr 9, 4 e Sb 6, 6) e sabe que foi instruída na
ciência do amor, escondida aos sábios e aos entendidos, que o
divino Mestre Se dignou revelar-lhe, como aos pequeninos (Manuscrito A,
49 r; cf. Lc 10, 21-22).
Pio XI, que considerou Teresa de Lisieux como «Estrela do
seu pontificado», não hesitou em afirmar na homilia do dia da sua
Canonização, a 17 de Maio do ano de 1925: «... eidem Spiritus
veritatis illa aperuit ac patefecit, quae solet a sapientibus et prudentibus
abscondere et revelare parvulis; siquidem haec - teste proximo decessore nostro
- tanta valuit supernarum rerum scientia, ut certam salutis viam ceteris
indicaret» (AAS 17 [1925] pág. 213).
O seu ensinamento não é só conforme
à Escritura e à fé católica, mas sobressai
(«eminet») pela profundidade e síntese sapiencial alcançada.
A sua doutrina é ao mesmo tempo uma confissão da fé da
Igreja, uma experiência do mistério cristão e uma via
à santidade.
Teresa oferece uma síntese amadurecida da
espiritualidade cristã: une a teologia e a vida espiritual, exprime-se
com vigor e autoridade, com grande capacidade de persuasão e de
comunicação, como demonstram o acolhimento e a difusão da
sua mensagem no Povo de Deus.
O ensinamento de Teresa exprime com coerência e une
num conjunto harmonioso os dogmas da fé cristã, como doutrina de
verdade e experiência de vida. A respeito disso, não se deve
esquecer que a inteligência do depósito da fé, transmitido
pelos Apóstolos, como ensina o Concílio Vaticano II, progride na
Igreja sob a assistência do Espírito Santo: «com efeito, progride a
percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas, quer
mercê da contemplação e estudo dos crentes, que as meditam
no seu coração (cf. Lc 2, 19 e 51), quer mercê da
íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais, quer
mercê da pregação daqueles que, com a sucessão do
episcopado, recebem o carisma da verdade» (Dei Verbum, 8).
Nos escritos de Teresa de Lisieux não encontramos
talvez, como noutros Doutores, uma apresentação cientificamente
elaborada das coisas de Deus, mas podemos vislumbrar um esclarecido testemunho
da fé que, enquanto acolhe com amor confiante a condescendência
misericordiosa de Deus e a salvação em Cristo, revela o
mistério e a santidade da Igreja.
Com razão, portanto, pode-se reconhecer na Santa
de Lisieux o carisma de Doutora da Igreja, quer pelo dom do Espírito
Santo que ela recebeu para viver e exprimir a sua experiência de
fé, quer pela particular inteligência do mistério de
Cristo. Nela convergem os dons da lei nova, isto é, a graça do
Espírito Santo que Se manifesta na fé viva operante por meio da
caridade (cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theol. I-II, q. 106,
art. 1; q. 108, art. 1).
Podemos aplicar a Teresa de Lisieux, quanto teve
ocasião de dizer o meu Predecessor Paulo VI a respeito de outra jovem
Santa, Doutora da Igreja, Catarina de Sena: «O que mais impressiona na Santa
é a sabedoria infusa, isto é, a lúcida, profunda e
inebriante assimilação das verdades divinas e dos
mistérios da fé [...]: uma assimilação favorecida,
sim, por dotes naturais singularíssimos, mas evidentemente prodigiosa,
devida a um carisma de sabedoria do Espírito Santo» (AAS 62
[1970], pág. 675).
|