8. Com a sua peculiar doutrina e o seu
estilo inconfundível, Teresa aparece como uma autêntica mestra
da fé e da vida cristã. Através dos seus escritos,
como através das afirmações dos Santos Padres, passa
aquela linfa vivificante da tradição católica cujas
riquezas, como afirma ainda o Vaticano II, «entram na prática e na vida
da Igreja crente e orante» (Dei Verbum, 8).
A doutrina de Teresa de Lisieux, se aceite no seu
género literário, correspondente à sua
educação e à sua cultura, e se medida com as particulares
circunstâncias da sua época, aparece numa providencial unidade com
a mais genuína tradição da Igreja, quer pela
confissão da fé católica quer pela promoção
da mais autêntica vida espiritual, proposta a todos os fiéis numa
linguagem viva e acessível.
Ela fez resplandecer no nosso tempo o fascínio do
Evangelho; teve a missão de fazer conhecer e amar a Igreja, Corpo
místico de Cristo; ajudou a curar as almas dos rigores e dos temores da
doutrina jansenista, inclinada a sublinhar mais a justiça de Deus do que
a sua misericórdia divina. Contemplou e adorou na misericórdia de
Deus todas as perfeições divinas, porque «até mesmo a
justiça de Deus (e talvez mais do que qualquer outra
perfeição) me parece revestida de amor» (Manuscrito A, 83
v). Deste modo, tornou-se um ícone vivo daquele Deus que, segundo a
oração da Igreja, «mostra o Seu poder sobretudo no perdão
e na misericórdia» (cf. Missal Romano, Oração do
XXVI Domingo do Tempo Comum).
Ainda que Teresa não apresente um verdadeiro e
próprio corpo doutrinal, contudo particulares fulgores de doutrina derivam
dos seus escritos que, como por um carisma do Espírito Santo, captam o
centro mesmo da mensagem da revelação numa visão original
e inédita, apresentando um ensinamento qualitativamente eminente.
O núcleo da sua mensagem, com efeito, é o
próprio mistério de Deus Amor, de Deus Trindade, infinitamente
perfeito em Si mesmo. Se a genuína experiência espiritual
cristã deve coincidir com as verdades reveladas, nas quais Deus Se
comunica a Si mesmo e dá a conhecer o mistério da Sua vontade
(cf. Dei Verbum, 2), é necessário afirmar que Teresa fez
experiência da revelação divina, chegando a contemplar as
realidades fundamentais da nossa fé, unidas no mistério da vida
trinitária. No ápice, como fonte e termo, o amor misericordioso
das três Pessoas divinas, como ela o exprime, especialmente no seu Acto
de oferta ao Amor misericordioso. Na base, da parte do sujeito, está
a experiência de ser filho adoptivo do Pai em Jesus: esse é o
sentido mais autêntico da infância espiritual, isto é, a
experiência da filiação divina sob a moção do
Espírito Santo. Na base ainda e diante de nós, está o
próximo, os outros, para cuja salvação devemos colaborar
com e em Jesus, com o Seu mesmo amor misericordioso.
Mediante a infância espiritual experimenta-se que
tudo vem de Deus, a Ele retorna e n'Ele permanece, para a
salvação de todos, num mistério de amor misericordioso.
Essa é a mensagem doutrinal ensinada e vivida por esta Santa.
Assim como para os Santos da Igreja de todos os tempos,
também para ela, na sua experiência espiritual, centro e plenitude
da revelação é Cristo. Teresa conheceu a Jesus, amou-O e
fez com que fosse amado com a paixão de uma esposa. Ela penetrou nos
mistérios da Sua infância, nas palavras do seu Evangelho, na
paixão do Servo sofredor, esculpida no seu Rosto santo, no esplendor da
Sua existência gloriosa, na Sua presença eucarística.
Cantou todas as expressões da divina caridade de Cristo, como são
propostas pelo Evangelho (cf. PN 24, Jésus, mon
Bien-Aimé, rappelle-toi!).
Teresa foi iluminada de maneira particular sobre a
realidade do Corpo místico de Cristo, sobre a variedade dos seus
carismas, dons do Espírito Santo, sobre a força eminente da
caridade, que é como que o próprio coração da
Igreja, na qual ela encontrou a sua vocação de contemplativa e de
missionária (cf. Manuscrito B, 2 r - 3 v).
Finalmente, entre os capítulos mais originais da
sua ciência espiritual devese recordar a sábia
exploração, que Teresa desenvolveu, do mistério e do
caminho da Virgem Maria, chegando a resultados muito próximos da
doutrina do Concílio Vaticano II no cap. VIII da Constituição
Lumen gentium e de quanto eu mesmo propus na minha Encíclica Redemptoris
Mater, de 25 de Março de 1987.
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