10. A doutrina espiritual de Teresa
de Lisieux contribuiu para a difusão do Reino de Deus. Com o seu
exemplo de santidade, de perfeita fidelidade à Mãe Igreja, em
plena comunhão com a Sé de Pedro, assim como com as particulares
graças por ela suplicadas para muitos irmãos e irmãs
missionários, prestou um particular serviço à renovada
proclamação e experiência do Evangelho de Cristo e à
extensão da fé católica em todas as nações
da terra.
Não é preciso que nos detenhemos muito
sobre a universalidade da doutrina teresiana e sobre o amplo acolhimento da
sua mensagem durante o século que nos separa da sua morte: isto
está bem documentado nos estudos feitos em vista da
atribuição do título de Doutora da Igreja a esta Santa.
Importância particular, a respeito disso, reveste o
facto que o próprio Magistério da Igreja não só
reconheceu a santidade de Teresa, mas pôs também em
evidência a sua sabedoria e a sua doutrina. Já Pio X disse a
respeito dela que era «a maior Santa dos tempos modernos». Acolhendo com
alegria a primeira edição italiana da História de uma
alma, ele exaltou os frutos que se colhem da espiritualidade teresiana.
Bento XV, por ocasião da proclamação da heroicidade das
virtudes da Serva de Deus, ilustrou o caminho da infância espiritual e
louvou a ciência das realidades divinas, concedida por Deus a Teresa,
para ensinar aos outros as vias da salvação (cf. AAS 13
[1921] 449-452). Pio XI, por ocasião tanto da sua
beatificação como da canonização, quis expor e
recomendar a doutrina da Santa, ressaltando a particular
iluminação divina (Discorsi di Pio XI, vol. I, Turim 1959,
pág. 91) e qualificando-a como mestra de vida (cf.AAS 17 [1925]
pp. 211-214). Pio XII, quando foi consagrada a Basílica de Lisieux em
1954, afirmou entre outras coisas que Teresa tinha penetrado, com a sua
doutrina, no coração mesmo do Evangelho (cf. AAS 46 [1954]
pp. 404408). O Cardeal Angelo Roncalli, futuro Papa João XXIII, visitou
diversas vezes Lisieux, especialmente quando era Núncio em Paris.
Durante o seu pontificado manifestou em várias circunstâncias a
sua devoção pela Santa e ilustrou as relações entre
a doutrina da Santa de Ávila e da sua filha, Teresa de Lisieux (Discorsi,
Messaggi, Colloqui, vol. II [19591960] pp. 771-772). Várias vezes,
durante a celebração do Concílio Vaticano II, os Padres
evocaram o seu exemplo e a sua doutrina. Paulo VI, no centenário do
nascimento da Santa, enviava no dia 2 de Janeiro de 1973 uma Carta ao Bispo de
Bayeux e Lisieux, na qual exaltava o exemplo de Teresa na busca de Deus, a
propunha como mestra da oração e da esperança teologal,
modelo de comunhão com a Igreja, indicando o estudo da sua doutrina aos
mestres, aos educadores, aos pastores e aos próprios teólogos
(cf. AAS 65 [1973] pp. 12-15).
Eu mesmo, em várias circunstâncias, tive a
alegria de me referir à figura e à doutrina da Santa, de modo
especial por ocasião da inesquecível visita a Lisieux, a 2 de
Junho de 1980, quando quis recordar a todos: «De Teresa de Lisieux, pode-se
dizer com convicção que o Espírito de Deus permitiu ao seu
coração revelar directamente, aos homens do nosso tempo, o mistério
fundamental, a realidade do Evangelho [...]. O ôpequeno caminho"
é o caminho da ôsanta infância". Neste caminho,
há alguma coisa de único, um génio de Santa Teresa de
Lisieux. Há ao mesmo tempo a confirmação e a
renovação da verdade mais fundamental e a mais universal.
Que verdade da mensagem evangélica é, com efeito, mais
fundamental e mais universal do que esta: Deus é nosso Pai e nós
somos Seus filhos?» (L'Osserv. Rom., ed. port. de 15 de Junho de 1980,
pág. 16).
Estas simples referências a uma ininterrupta
série de testemunhos dos Papas deste século sobre a santidade e a
doutrina de Santa Teresa do Menino Jesus e sobre a difusão universal da
sua mensagem, exprimem claramente quanto a Igreja acolheu, nos seus pastores e
nos seus fiéis, a doutrina espiritual desta jovem Santa.
Sinal de acolhimento eclesial do ensinamento da Santa
é o recurso à sua doutrina em muitos documentos do
Magistério ordinário da Igreja, de modo especial quando se
fala da vocação contemplativa e missionária, da
confiança em Deus justo e misericordioso, da alegria cristã, da
vocação à santidade. É testemunho disto a
presença da sua doutrina no recente Catecismo da Igreja
Católica (nn. 127, 826, 956, 1011, 2011, 2558). Aquela que tanto
gostou de aprender no catecismo as verdades da fé, mereceu ser
incluída entre as testemunhas autorizadas da doutrina católica.
Teresa possui uma universalidade singular. A sua pessoa e a mensagem evangélica da «pequena
via» da confiança e da infância espiritual encontraram e continuam
a encontrar um acolhimento surpreendente, que transpôs todos os confins.
A influência da sua mensagem compreende, antes de
tudo, homens e mulheres cuja santidade ou heroicidade das virtudes a
própria Igreja reconheceu, pastores da Igreja, cultores da teologia e da
espiritualidade, sacerdotes e seminaristas, religiosos e religiosas, movimentos
eclesiais e comunidades novas, homens e mulheres de todas as
condições e de todos os continentes. A todos Teresa traz a sua
confirmação pessoal que o mistério cristão, do qual
ela se tornou testemunha e apóstola fazendo-se na oração,
como ela se exprime com audácia, «apóstola dos apóstolos»
(Manuscrito A, 56 r), deve ser tomado à letra, com o maior
realismo possível, porque tem um valor universal no tempo e no espaço.
A força da sua mensagem está na ilustração concreta
de como todas as promessas de Jesus encontram plena actuação no
crente, que sabe acolher com confiança na própria vida a presença
salvífica do Redentor.
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