VII
A IGREJA - ESPOSA DE CRISTO
O «
grande mistério »
Uma
importância fundamental a este respeito têm as palavras da Carta
aos Efésios: « Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a
Igreja e se entregou a si mesmo por ela, a fim de santificá-la,
purificando-a com o lavacro de água juntamente com a palavra, para
apresentar a si próprio essa Igreja resplandecente de glória, sem
mancha, nem ruga, nem coisa alguma semelhante, para que seja santa e
irrepreensível. Desse modo devem também os maridos amar as
mulheres, como o seu próprio corpo. Quem ama a sua mulher ama-se a si
mesmo. Ninguém jamais odiou sua própria carne, antes, cada qual a
nutre e dela toma cuidados, como Cristo faz também com a Igreja, pois
nós somos membros do seu corpo. Por isso, o homem deixará pai e
mãe, unir-se-á à sua mulher e passarão os dois a
formar uma só carne. Grande mistério é este: mas
digo-o referindo-me a Cristo e à Igreja » (5, 25-32).
Nesta Carta o
autor exprime a verdade sobre a Igreja como esposa de Cristo, indicando
igualmente como esta verdade se radica na realidade bíblica da
criação do homem como varão e mulher. Criados à
imagem e semelhança de Deus como « unidade dos dois », ambos foram
chamados a um amor de caráter esponsal. Pode-se dizer também que,
seguindo a descrição da criação no Livro do
Gênesis (2, 18-25), este chamamento fundamental se manifesta
juntamente com a criação da mulher e é inscrito pelo
Criador na instituição do matrimônio, que, segundo o Gênesis
2, 24, desde o início possui o caráter de união das
pessoas (« communio personarum »). Embora não diretamente, a
mesma descrição do « princípio » (cf. Gên 1,
27 e Gên 2, 24) indica que todo o « ethos » das
relações recíprocas entre o homem e a mulher deve
corresponder à verdade pessoal do seu ser.
Tudo isto
já foi considerado precedentemente. O texto da Carta aos
Efésios confirma ainda uma vez a verdade acima apresentada e, ao
mesmo tempo, compara o caráter esponsal do amor entre o homem e a mulher
com o mistério de Cristo e da Igreja. Cristo é o Esposo da
Igreja, a Igreja é a Esposa de Cristo. Esta analogia não
deixa de ter precedentes: ela transfere para o Novo Testamento o que já
estava presente no Antigo Testamento, particularmente nos profetas
Oséias, Jeremias, Ezequiel e Isaías. (48) As respectivas passagens merecem uma
análise à parte. Citemos pelo menos um texto. Eis como Deus fala
ao seu povo eleito através do profeta: « Não temas, porque
não terás que te envergonhar; não te confundas, porque
não terás do que te enrubescer; antes, esquecerás a
vergonha da tua juventude, e não te lembrarás mais da afronta da
tua viuvez; porque o teu esposo é o teu Criador, cujo nome
é Senhor dos exércitos; o teu redentor é o Santo de
Israel, que se chama Deus de toda terra ... Será, por acaso,
repudiada a mulher desposada na juventude? Diz o teu Deus. Por um breve
instante eu te abandonei, e com grande afeto, voltarei a acolher-te. Num rapto
de ira, ocultei-te o meu rosto por um momento; mas com perene clemência
compadeci-me de ti, diz o teu redentor, o Senhor ... Abalar-se-ão os montes
e os outeiros vacilarão, mas a minha clemência de ti não
se apartará, e o meu pacto de paz não vacilará » (Is
54, 4-8.10).
Se o ser humano
— homem e mulher — foi criado à imagem e semelhança de Deus, Deus
pode falar de si pelos lábios do profeta, servindo-se da linguagem que
é por essência humana: no texto citado de Isaías é «
humana » a expressão do amor de Deus, mas o amor em si
mesmo é divino. Sendo amor de Deus, esse amor tem um
caráter esponsal propriamente divino, ainda que venha expresso com a
analogia do amor do homem para com a mulher. Essa mulher-esposa é
Israel, enquanto povo escolhido por Deus, e esta eleição tem sua
origem exclusiva no amor gratuito de Deus. É justamente por este amor
que se explica a Aliança, apresentada frequentemente como uma
aliança matrimonial, que Deus renova sempre com o seu povo escolhido.
Esta aliança, da parte de Deus, é « um compromisso » duradouro;
ele permanece fiel ao seu amor esponsal, embora a esposa se tenha demonstrado
muitas vezes infiel.
Esta imagem
do amor esponsal ligada com a figura do Esposo divino — uma imagem muito
clara nos textos proféticos — encontra a sua confirmação e
coroamento na Carta aos Efésios (5, 23-32). Cristo é
saudado como esposo por João Batista (cf. Jo 3, 27-29): antes, o
próprio Cristo aplica a si esta comparação tomada dos
profetas (cf. Mc 2, 19-20). O apóstolo Paulo, que traz em si todo
o patrimônio do Antigo Testamento, escreve aos Coríntios: « Pois
bem, eu sou ciumento de vós, do mesmo ciúme de Deus, por vos ter
desposado com um único esposo, para apresentar-vos a Cristo como virgem
pura » (2 Cor 11, 2). A expressão mais plena, porém, da
verdade sobre o amor de Cristo redentor, segundo a analogia do amor esponsal no
matrimônio, se encontra na Carta aos Efésios: « Cristo amou a Igreja
e se entregou a si mesmo por ela » (5, 25); e nisto se confirma plenamente
o fato de a Igreja ser a esposa de Cristo: « O teu redentor é o Santo de
Israel » (Is 54, 5). No texto paulino, a analogia da relação
esponsal toma ao mesmo tempo duas direções, que formam o conjunto
do « grande mistério » (« sacramentum magnum »). A aliança
própria dos esposos « explica » o caráter esponsal da
união de Cristo com a Igreja, e esta união, por sua vez, como «
grande sacramento », decide da sacramentalidade do matrimônio como
aliança santa dos esposos, homem e mulher. Lendo esta passagem, rica e
complexa, que, no seu conjunto, é uma grande analogia, devemos distinguir
o que nela exprime a realidade humana das relações
interpessoais daquilo que exprime, com linguagem simbólica, o « grande
mistério » divino.
|