Caminhar juntos para
a «Orientale Lumen»
28. Ao concluir esta Carta, o meu pensamento
vai para os queridos Irmãos: os Patriarcas, os Bispos, os Sacerdotes e
os Diáconos, os Monges e as Monjas, os homens e as mulheres das Igrejas
do Oriente.
No limiar do terceiro milénio, todos
nós sentimos chegar às nossas Sés o grito dos homens,
esmagados pelo peso de ameaças graves e no entanto, talvez mesmo sem o
saberem, desejosos de conhecer a história de amor querida por Deus.
Esses homens sentem que um raio de sol, se for acolhido, pode ainda dispersar
as trevas do horizonte da ternura do Pai.
Maria, «Mãe do astro que não
conhece ocaso» 67, «aurora do místico dia» 68 «oriente do Sol de
glória» 69, indica-nos a Orientale Lumen.
Do Oriente, todos os dias surge de novo o
sol da esperança, a luz que restitui ao género humano a sua
existência. Do Oriente, segundo uma linda imagem, voltará o nosso
Salvador (cf. Mt 24, 27).
Os homens
e as mulheres do Oriente são para nós sinal do Senhor que volta.
Nós não podemos esquecê-los, não só porque os
amamos como irmãos e irmãs, redimidos pelo mesmo Senhor, mas
também porque a saudade santa dos séculos vividos na plena
comunhão da fé e da caridade nos impele, censura os nossos
pecados, as nossas incompreensões recíprocas: nós
privámos o mundo de um testemunho comum que teria, talvez, podido evitar
tantos dramas, se não mesmo mudar o sentido da História.
Nós sentimos a dor de ainda
não podermos participar na mesma Eucaristia. Agora que o milénio
se encerra e o nosso olhar se dirige completamente para o Sol que nasce,
reencontramo-los com gratidão no trajecto do nosso olhar e do nosso
coração.
O eco do Evangelho, palavra que não
desilude, continua a ressoar com força, enfraquecida apenas pela nossa
divisão: Cristo grita, mas o homem tem dificuldade em ouvir a sua voz,
porque não conseguimos transmitir palavras unânimes. Escutamos
juntos a invocação dos homens que querem ouvir a Palavra de Deus
inteira. As palavras do Ocidente precisam das palavras do Oriente, para que a
Palavra de Deus manifeste cada vez melhor as suas riquezas insondáveis.
As nossas palavras encontrar-se-ão para sempre na Jerusalém do
Céu; mas invocamos e queremos que esse encontro seja antecipado na Santa
Igreja que ainda caminha para a plenitude do Reino.
Queira Deus abreviar o tempo e o
espaço! Cedo, bem cedo, Cristo, a Orientale Lumen, nos conceda a
graça de descobrir que, na realidade, não obstante tantos
séculos de afastamento, estávamos muito próximos, porque
juntos, talvez sem o sabermos, caminhávamos para o único Senhor,
e portanto uns para os outros.
Que o homem do terceiro milénio possa
gozar desta descoberta, finalmente atingido por uma palavra concorde e, por
isso, plenamente credível, proclamada por irmãos que se amam e
agradecem as riquezas que se doam reciprocamente. E, desta maneira, apresentar-nos-emos
a Deus com as mãos puras da reconciliação, e os homens do
mundo terão uma nova motivação sólida para
acreditar e para esperar.
Com estes votos, sobre todos estendo a minha
Bênção.
Vaticano, 2 de Maio, memória de
Santo Atanásio, Bispo e Doutor da Igreja, do ano de 1995, décimo
sétimo de Pontificado.
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