|
A responsabilidade das
organizações internacionais
58. A reforma agrária,
enquanto instrumento duma agricultura em desenvolvimento, envolve directamente
a competência e a responsabilidade de numerosas
organizações internacionais. Estas organizações, ao
determinarem os modelos de desenvolvimento que tencionam promover, devem
preocupar-se com o facto de que tais modelos sejam
adaptados às necessidades e aos problemas de cada país.
Para este fim é importante
evitar que a preocupação pela redução da
dívida internacional, que se traduz frequentemente pelo incentivo a uma
agricultura prevalentemente orientada a produções para a
exportação, conduza os Países em via de desenvolvimento a
adoptar políticas que determinam graves deteriorizações
dos serviços públicos, especialmente da instrução,
e uma acumulação de problemas sociais.
59. A reforma agrária
exige que as organizações chamadas a promover o comércio
internacional prestem uma atenção particular às
relações existentes entre políticas comerciais,
distribuição dos rendimentos e satisfação das
necessidades elementares das famílias.
O desenvolvimento das trocas
comerciais costuma ter um impacto positivo no crescimento econômico de um
País: aumenta a dimensão do mercado, estimula a
uma maior eficiência e produz novos conhecimentos.
Em determinadas
condições, todavia, tal desenvolvimento
pode também ter efeitos pejorativos das condições de vida
daqueles que são economicamente débeis.
Isto acontece, por exemplo, se o
aumento da produção agrícola para exportar leva a reduzir a oferta de alimentos para o consumo interno e a aumentar os
preços. Tem um efeito pejorativo se, como consequência do facto de que os
produtos exportados requerem menos trabalho que os produtos consumidos
localmente, é prejudicado o emprego.
Além
disso, pode acontecer que os pequenos agricultores sejam duplamente
penalizados. Em primeiro lugar, porque, devido aos obstáculos que
encontram ao querer ter acesso aos factores necessários para o cultivo
dos produtos destinados à exportação, não podem
beneficiar das vantagens dela provenientes. Em segundo lugar, porque o
desenvolvimento das exportações provoca um aumento de certos
custos da produção na agricultura e do
preço da terra, e tais aumentos tornam menos conveniente a
produção de bens tradicionais.
Tal complexo de efeitos, todavia,
não é devido exclusivamente à lógica das trocas
comerciais, do que é apenas uma consequência indirecta. É, na realidade, também a resultante directa da
concentração do capital fundiário em poucas mãos,
da difusa desigualdade social e da insuficiência dos serviços de
assistência técnico-administrativa em favor dos pequenos
produtores. É evidente que esta realidade, pelas suas
consequências negativas no plano da luta contra a pobreza e a fome,
empenha as organizações internacionais a tomá-la em grande
consideração no momento em que definem as suas estratégias
de intervenção.
|