CAPÍTULO III
A REFORMA AGRÁRIA: UM INSTRUMENTO
DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL
A reforma agrária:
um instrumento necessário ...
42. Uma estrutura agrícola
caracterizada pela apropriação indébita e pela
concentração da terra no latifúndio obsta gravemente ao
desenvolvimento econômico de um País. A falta de crescimento da
produção agrícola e do emprego
é um efeito a curto prazo. A longo prazo, ela é
causa de pobreza e de estragos que tendem a perpetuar-se, agravando-se.
De fronte a
esta realidade, uma reforma agrícola, que assegure uma diversa
repartição da terra, representa um importante objectivo sobre o
qual centrar a atenção, porque se trata de uma
intervenção necessária para o desenvolvimento
harmônico da economia e da sociedade.
A qualidade e o
sucesso dos programas de desenvolvimento trazem, de facto, substanciais
benefícios pela mobilidade dos recursos internos de um País e
pela sua distribuição entre os diversos sectores e grupos
sociais. É este o objectivo de uma reforma agrária que garanta o
acesso à terra, o seu uso eficiente e o aumento do número de
empregos.
43. Uma reforma agrária
deste tipo é cada vez mais vista como medida de política de
desenvolvimento necessária e inadiável.
Uma agricultura em
desenvolvimento aumenta o rendimento dos agricultores, faz aumentar a procura
de bens e de serviços produzidos pela indústria e pelo
terciário e reforça o poder de compra mesmo daqueles que, embora
vivendo nas áreas rurais, não trabalham na
agricultura.
Um efeito importante deste
desenvolvimento é o refreamento do impulso migratório em
direcção às cidades, da passagem de mão de obra
para outros sectores e das repercussões sobre a
urbanização e sobre o nível dos salários.
O aumento da
produção agrícola permitiria garantir a segurança
alimentar da população e promover o crescimento qualitativo e
quantitativo dos produtos alimentares a preços acessíveis.
A experiência concreta demonstra,
além disso, que o crescimento agrícola significa expansão
da indústria e dos serviços e, portanto, desenvolvimento geral da
economia.
Nota-se, enfim, que uma reforma
agrária que dê origem a empresas
familiares contribui sensivelmente para o fortalecimento da família,
valorizando as capacidades e as responsabilidades dos seus membros.
44. Nos lugares onde subsistem
condições iníquas e de pobreza, a reforma agrária
representa não só um instrumento de justiça distributiva e
de crescimento econômico, mas também um acto de grande sabedoria
política.
Ela constitui a
única resposta concretamente eficaz e possível, a resposta da lei
ao problema da ocupação das terras. Esta última, na sua
vária e complexa casuística, mesmo quando provocada por
situações de extrema necessidade,(49)
continua a ser um acto não conforme aos valores e às regras de
uma convivência verdadeiramente civil. O clima de emotividade colectiva
que gera pode facilmente levar a uma
sucessão de actos e de realizações tais que se coloquem
fora de qualquer controle. Os actos de
instrumentalização que podem facilmente verificar-se têm
bem pouco a ver com o problema da terra.
Manifestação,
muitas vezes, de situações intoleráveis e
deploráveis no plano moral, a ocupação das
terras é um sinal alarmante que exige a actuação, a
nível social e político, de soluções eficazes e
justas. São, sobretudo, os Governos a ser interpelados, na sua vontade e determinação, a fim de
fornecerem urgentemente estas soluções. O retardamento e
adiamento da reforma agrária tiram toda a credibilidade às suas
acções de denúncia e de repressão da
ocupação das terras.
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