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A economia degradada pela falta de justiça
57. A Carta Apostólica Tertio millennio adveniente propõe iniciativas muito concretas para promover activamente a justiça social (83), encorajando a descobrir outras expressões para resolver o problema da fome e da subnutrição, que este Jubileu poderia incluir.
A prática jubilar é especialmente necessária no campo da economia: com efeito, abandonada a si mesma, debilita-se porque já não exerce justiça. Todas as crises económicas, cujo efeito extremo é a penúria alimentar, se manifestam sobretudo como uma crise de justiça (84), que já o povo eleito do Antigo Testamento havia sentido. Hoje, esta crise deve ser analisada no contexto do mercado livre: no interior de cada país, bem como nas relações internacionais, o mercado livre pode constituir um instrumento apropriado para repartir os recursos e correspoder de maneira eficaz às necessidades (85). A realização da justiça social perpetua o intercâmbio mercantil: todos os homens têm o direito de a ele ter acesso, caso contrário correm o perigo de se dissiparem num neomalthusianismo económico que se identificaria com uma visão congelada da solvabilidade e da eficiência.
Assim, é necessário constatar que a justiça e o mercado são frequentemente analisados como duas realidades antinómicas, considerando-se assim o indivíduo isento da própria responsabilidade no que se refere à justiça social. A exigência de equidade já não incumbe sobre o indivíduo, submetido com resignação à ordem mercantil, mas sim sobre o Estado e, mais exactamente, sobre o Estado-Providência.
Em geral, as filosofias morais dominantes são grandemente responsáveis duma transformação da reflexão: passou-se do campo do comportamento justo para o da justiça das estruturas e dos processos, construção teórica praticamente fora do alcance. Além disso, hoje esta providência estatal «ad intra» e «ad extra» parece muito limitada, garantindo cada vez menos uma verdadeira justiça distributiva e, atentando ela mesma, contra a eficácia das economias nacionais. Não haveria aqui porventura, matéria reflectir sobre a relação existente, por um lado, entre a carência de contribuições individuais para o obtenção duma justiça social e duma sobriedade nos nossos comportamentos económicos e, por outro, a ineficácia crescente dos mecanismos de redistribuição que, com o passar do tempo, se reflecte sobre a eficácia global da nossa economia?