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| Pio XII Sertum laetitiae IntraText CT - Texto |
3. Haviam transcorrido cem anos do acontecimento que agora vos enche de legítima alegria, quando Leão XIII, de feliz memória, com sua carta "Longínqua Oceani" relembrou o caminho aí percorrido pela Igreja, acrescentando exortaçães e diretivas, onde a benevolência ia de par com a sabedoria. O que o nosso augusto predecessor nessa época escreveu, tão egregiamente, é digno de perene consideração. Nestes últimos 50 anos, o progresso da Igreja entre vós não se deteve; antes estendeu vastamente sua influência e aumentou seus membros. Realmente, é florescente a vida que a graça do Espírito Santo alimenta no íntimo sacrário dos corações; numerosos acorrem os fiéis aos templos de Deus; é assiduamente freqüentada a mesa onde se recebe o Pão dos Anjos e o alimento dos fortes; com grande diligência se celebram os retiros fechados de santo Inácio. Muitos, dóceis à divina voz que os chama a ideais mais sublimes, abraçam o estado sacerdotal ou a vida religiosa. Hoje, nos Estados Unidos, há 19 províncias eclesiásticas, 115 dioceses, quase 200 seminários, inúmeras Igrejas, escolas primárias, institutos superiores, colégios, hospitais, asilos para os pobres, mosteiros. Com razão se admiram os estrangeiros do sistema de organização que rege as várias categorias de vossas escolas, mantidas com o auxílio generoso dos fiéis, vigiadas pelo cuidado perspicaz dos bispos - viveiros de falanges de cidadãos sábios e morigerados, respeitadores das leis divinas e humanas, justamente considerados colunas da Igreja e da Pátria, suas flores e sua legítima honra. Ademais, as obras missionárias, exemplarmente notáveis pela firmeza e operosidade, sobretudo a Obra Pontifícia da propagação da fé, pela oração, pelas esmolas e por outros auxílios diversos, ajudam os pregoeiros do evangelho que levam o vexilo da cruz salvadora às terras dos infiéis. Não podemos deixar escapar esta oportunidade de enaltecer, com nosso público testemunho, os trabalhos missionários próprios da nação americana, que com ativa diligência se consagram a difusão do nome católico. São notórios os seus títulos: "Catholic Church Extension Society"; sodalidade preclara e gloriosa pelas suas benemerências; "Catholic Near East Welfare Association", que presta providenciais auxílios às muitas necessidades do Oriente; "Indian and Nigroes Mission", associação aprovada pelo terceiro Concílio de Baltimore,1 que confirmamos e recomendamos porque o pede exímia caridade para com os vossos concidadãos. Reconhecemos, com efeito, que sob a inspiração de Deus sentimos grande afeto para com os vossos patrícios negros, porquanto soubemos que têm necessidade de especiais cuidados e consolos para sua assistência espiritual e religiosa, cuidados e consolos que eles, aliás, merecem. Por essa razão, imploramos fartos auxílios celestes e salutares graças em favor dos que, tão generosamente, vêm cuidando deles. Vossos compatriotas ainda, para dar de modo oportuno graças a Deus pelo dom inestimável da fé íntegra e verdadeira, e desejosos de santos cometimentos, enviam fortes contingentes ao exército dos missionários; estes, suportando fadigas, com invicta paciência e com energia nas nobres iniciativas pelo reino de Cristo, acumulam méritos que a terra admira e que o céu há de retribuir com adequada coroa.
4. Nem menos força vital têm as obras que são de utilidade para os filhos da Igreja dentro dos confins da pátria: os ofícios diocesanos de caridade, organizados e governados com sábio critério, por meio dos párocos e com o concurso das famílias religiosas, levam aos pobres, aos necessitados, aos enfermos, os dons da misericórdia cristã e trazem lenitivo às misérias. No exercício deste ministério de tão grande importância, os filhos da fé, suaves e penetrantes, vêem a Cristo, benigníssimo Redentor, presente nos miseráveis e nos aflitos, seus místicos membros dolorosos. Entre as associações leigas - enumerá-las todas seria demasiado longo - conseguiram entre vós louros de glória verdadeira a Ação católica, as Congregações marianas, o Sodalício da doutrina cristã, jubilosos já de seus frutos e que prometem ainda mais farta messe no futuro, assim como a Associação do Santo Nome, excelente guia para promover o culto e a piedade cristã. À multíplice operosidade dos leigos, desenvolvida em vários setores, consoante a exigência dos tempos, preside o conselho denominado "National Catholic Welfare Con ference", que proporciona a vosso ministério episcopal meios prontos e aptos. Pudemos ver as principais dessas instituições, pormenorizadamente, em outubro de 1936, quando empreendemos a viagem através do oceano e experimentamos a alegria de conhecer presencialmente a vós e o campo de vossas atividades. Inapagável e gratíssima há de permanecer sempre em nosso coração a lembrança de quanto admiramos com os nossos olhos.
5. E, pois, sobremaneira justo que, com sentimentos de adoração, convosco rendamos graças a Deus, por todos esses benefícios, e lhe elevemos o cântico de gratidão: "Louvai ao Senhor dos céus, porque a sua misericórdia permanece eternamente" (Sl 135, 26). O Senhor, cuja bondade não conhece limites, assim como encheu a vossa terra com a liberalidade dos seus dons, também concedeu às vossas Igrejas ardor construtivo e cumulou de frutos os seus esforçados trabalhos. Solvido o tributo devido do reconhecimento a Deus, de quem procede todo o bem, reconhecemos, diletíssimos, que esta fecundidade próspera, que hoje convosco admiramos, deve-se também ao espírito de iniciativa e à constante atividade dos pastores e fiéis; reconhecemos que se deve ainda a vosso clero, que, inclinado a trabalhar com decisão, obedece zelosamente a vossos mandatos; aos membros das Ordens e das Congregações que, ilustres por suas preclaras virtudes, se dedicam com emulação ao amanho da vinha do Senhor; às Religiosas inúmeras que, tantas vezes silenciosas e ignoradas dos homens, movidas por íntimo esto de caridade, se consagram com exemplar dedicação a causa do Evangelho - lírios no jardim de Cristo e motivo de suave complacência dos santos. Queremos, todavia, que o nosso louvor seja salutar. A consideração do bem já obtido não deve levar a inércia do ócio, nem produzir deleites de vã glória nos espíritos, mas acender novos ardores no combate contra o mal e solidificar com maior firmeza todas as obras salutares, úteis e dignas de louvor. O cristão que respeita a dignidade do seu nome, nunca deixa de ser apóstolo; o soldado de Cristo jamais há de sair do combate, de cuja participação somente a morte o pode arrancar. Bem conheceis onde deve ser mais atenta a vossa vigilância e que programa de ação traçar ao trabalho dos sacerdotes e fiéis, para que a religião de Cristo, removidos os óbices, senhoreie os espíritos, oriente os costumes, e, causa única da salvação, penetre os refolhos íntimos e as próprias veias da sociedade civil. Muito embora os progressos dos bens exteriores e materiais, os confortos melhores e mais copiosos que dele provêm para a vida, não se devam desprezar, não obstante, de modo algum são eles suficientes para o homem, nascido para coisas melhores e mais sublimes. Feito à imagem e semelhança de Deus, a Deus anela por inelutável impulso da alma, sempre triste e inquieto, se escolhe colocar seu amor onde não está presente a suma verdade e o infinito bem. De Deus afastar-se é morrer, para Deus converter-se é viver, em Deus permanecer é iluminar-se; a Deus, porém, não se chega com atravessar espaços corpóreos, mas sob a direção de Cristo, pela plenitude de uma fé sincera, intemerata consciência, e vontade reta, pela santidade das obras e pela obtenção e uso de uma liberdade genuína, cujas sagradas normas foram promulgadas pelo evangelho. Se, ao contrário, se desprezam os divinos mandamentos, não só não se obtém a felicidade posta além do breve espaço de tempo assinado à existência terrena, mas vacila a própria base na qual assenta a verdadeira civilização da humanidade, e só se devem esperar lastimáveis ruínas; é que os caminhos que levam à vida eterna são a força viva e seguro alicerce das realidades temporais. Como, de fato, podem ter garantias o bem público e o decoro da civilização, se se subverte o direito e se despreza e ridiculariza a virtude? Acaso não é Deus a fonte e o sustentáculo do direito? O inspirador e prêmio da virtude? Ele, a quem nenhum legislador se assemelha (cf. Jó 36, 22)? Em toda parte - segundo a confïssão de homens sérios - é esta a raiz amarga e fértil de males: o desconhecimento da divina majestade, a negligência dos preceitos morais oriundos do alto, uma lamentável inconstância que hesita entre o lícito e o ilícito, o bem e o mal. Daí, o cego e imoderado amor próprio, a sede dos prazeres, o alcoolismo, as modas dispendiosas e impudicas, a criminalidade mesmo de menores, a ambição do poder, a negligência com relação aos pobres, a cupidez de riquezas iníquas, o abandono dos campos, a leviandade em contrair o matrimônio, os divórcios, a desagregação das famílias, o resfriamento do mútuo afeto entre pais e filhos, a desnatalidade, a degenerescência da raça, o enlanguescimento do respeito para com as autoridades, o servilismo, a revolta, a negligência dos deveres para com a pátria e para com o gênero humano.
6. Elevamos, além disso, a voz de nosso paterno lamento, porque ainda em tantas escolas freqüentemente se despreza ou se ignora a Jesus Cristo, restringe-se a explicação do universo e da humanidade ao naturalismo e racionalismo, e se ensaiam novos sistemas educativos, dos quais não se podem esperar senão tristes frutos para a vida intelectual e moral da nação e do gênero humano.