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Pio XII
Sacra virginitas

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Só a caridade inspira e anima a virgindade cristã...

16. Esse vínculo de perfeita castidade consideraram-no os santos padres como uma espécie de matrimônio espiritual da alma com Cristo; e, por isso, chegaram alguns a comparar com o adultério a violação dessa promessa de fidelidade.15 Santo Atanásio escreve que a Igreja católica costuma chamar esposas de Cristo às virgens.16 E santo Ambrósio diz expressamente da alma consagrada: "É virgem quem possui a Deus como esposo".17 Mais ainda, vê-se pelos escritos do mesmo doutor de Milão, 18 que, já no quarto século, o rito da consagração das virgens era muito semelhante ao que a Igreja usa ainda hoje na bênção matrimonial.19

17.  Por isso os santos padres exortam as virgens a amarem com mais ardor o seu divino Esposo do que amariam os próprios maridos, e a conformarem, a todo o momento, pensamentos e atos com a vontade dele.20 Recomenda santo Agostinho: "Amai com todo o coração o mais belo dos filhos dos homens: bem o podeis, porque o vosso coração está livre dos vínculos do casamento... Se tivésseis maridos, estaríeis obrigadas a ter-lhes grande amor; quanto mais não estais obrigadas a amar aquele por cujo amor não quisestes ter maridos? Esteja fixo no vosso coração inteiro aquele que por vós está fixo na cruz".21 Tais são aliás os sentimentos e as resoluções que a própria Igreja exige das virgens no dia da consagração, convidando-as a pronunciar estas palavras rituais: "O reino do mundo e toda a sedução do século desprezei-os por amor de nosso Senhor Jesus Cristo, que eu vi, que eu amei, em quem confiei, a quem preferi".22 É portanto o amor, e só o amor, que leva suavemente a virgem a consagrar completamente o corpo e a alma ao divino Redentor, segundo o pensamento que são Metódio, bispo de Olimpo, atribui tão belamente a uma delas: "Tu, Cristo, és tudo para mim. É para ti que me conservo casta, e com a lâmpada acesa vou ao teu encontro, ó meu Esposo".23 Sim, é o amor de Cristo que persuade a virgem a encerrar-se para sempre nos muros dum mosteiro, afim de contemplar e amar, mais fácil e livremente, o celeste Esposo; e é ele ainda que a leva a praticar, com todas as forças, até à morte, as obras de misericórdia para o bem do próximo.

18. Acerca dos homens "que não se contaminaram com mulheres, pois são virgens" (Ap 14,4), afirma o apóstolo são João: "Estes seguem o Cordeiro para onde quer que ele " (Ib.). Meditemos o conselho que lhes santo Agostinho: "Segui o Cordeiro, porque também a sua carne é virgem... Com razão o seguis, em virgindade de coração e de carne, para onde quer que ele . Afinal, que é seguir senão imitar? Na verdade Cristo sofreu por nós deixando-nos exemplo, como diz o apóstolo são Pedro, 'para seguirmos as suas pisadas'" (1Pd 2,21).24 De fato, todos esses discípulos e esposas de Cristo abraçaram o estado de virgindade, como diz são Boaventura, "para se conformarem com Cristo, seu esposo, a quem o mesmo estado torna as virgens semelhantes".25 Para o amor ardente que têm a Cristo não podiam bastar os laços do afeto; era absolutamente necessário que esse mesmo amor se mostrasse pela imitação das virtudes, que nele brilham, e de modo especial pela conformidade com a sua vida, toda dedicada à salvação do gênero humano. Se os sacerdotes, os religiosos e as religiosas, se todos os que de um modo ou do outro se consagraram ao serviço de Deus observam a castidade perfeita, é afinal porque o divino Mestre foi virgem até à morte. Assim se exprime são Fulgêncio: "É este o Filho unigênito de Deus, e também filho unigênito da Virgem, esposo único de todas as virgens consagradas, fruto, ornamento e prêmio da santa virgindade; dado à luz corporalmente pela santa virgindade, e à santa virgindade unido espiritualmente; ele torna fecunda a santa virgindade sem lhe destruir a integridade, adorna-a de permanente beleza e coroa-a de glória no reino eterno" 26




15 Cf. S. Cypr., De habitu virginum, c. 20; PL 4, 459.



16 Cf. S. Athanas., Apol. ad Constant., 33; PG 25, 640.



17 S. Ambros., De virginibus, lib. I, c. 8; n. 52; PL 16, 202.



18 Cf. Ib., lib. III, cc. l-3, nn. l-14; PL 16, 219-224, De institutione virginis, c.17, nn.104-114; PL 16, 333-336.



19 Cf. Sacramentarium Leonianum XXX; PL 55,129; Pontificale Romanum, De benedictione et consecratione virginum.



20 CfS. Cypr., De habitu virginum, 4 e 22; PL 4, 443-444 e 462; S. Ambros., De virginibus, lib. I, c. 7, n. 37; PL 16,199.



21 S. Augustin., De sancta virginitate, cc. 54-55; PL 40, 428



22 Pontificale Romanum: De benedictione et consecratione virginum.



23 S. Methodius Olympi, Convivium decem virginum, orat. XI, c. 2; PG 16, 209.



24 S. Augustin., De sancta virginitate, c. 27; PL 40, 411.



25 S. Bonav., De perfectione evangelica, q. 3, a. 3.



26 S. Fulgem., Epist. 3, c. 4, n. 6; PL 63, 326.






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