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Pio XII
Mediator Dei

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TERCEIRA PARTE

O OFÍCIO DIVINO E O ANO LITÚRGICO

I. O ofício divino

124. O ideal da vida cristã consiste em se unir cada um intimamente a Deus. Por isso, o culto que a Igreja rende ao Eterno e que se sintetiza no sacrifício eucarístico e no uso dos sacramentos é ordenado e disposto, de modo que, com o ofício divino, se estenda a todas as horas do dia, às semanas, a todo o curso do ano, a todos os tempos e a todas as condições da vida humana.

125. Tendo o divino Mestre recomendado: "É necessário rezar sempre, sem esmorecer",132 a Igreja, obedecendo fielmente a essa recomendação, não cessa de rezar e exortar-nos com o apóstolo das gentes: "Por seu intermédio (de Jesus) ofereçamos sempre a Deus o sacrifício de louvor".133

126. A oração pública e coletiva endereçada a Deus por todos juntos, realizava-se na antiguidade somente em certos dias e outros momentos do dia. Contudo rezava-se não só nas reuniões públicas, mas ainda nas casas particulares e, às vezes, com os vizinhos e amigos. Bem cedo, porém, nas várias partes da cristandade, introduziu-se o uso de reservar à oração tempos particulares, por exemplo, a última hora do dia, quando o sol se esconde e se acende o lampadário; ou à primeira hora, quando termina a noite, isto é, depois do canto do galo e ao surgir do sol. Outros momentos do dia são indicados como mais próprios para a oração pela Sagrada Escritura, pelo costume tradicional hebráico e práticas cotidianas. Segundo os Atos dos Apóstolos, os discípulos de Jesus Cristo reuniam-se para orar na terceira hora, quando "ficaram todos repletos do Espírito Santo" ;134 o príncipe dos apóstolos, antes de tomar alimento, "subiu à parte superior da casa para rezar por volta da hora sexta";135 Pedro e João "subiam ao templo para a oração na hora nona"; 136 e Paulo e Silas "louvavam a Deus à meia noite".137

127. Essas várias orações especialmente por iniciativa e obra dos monges e dos ascetas, aperfeiçoaram-se cada dia mais, e pouco a pouco foram introduzidas no uso da sagrada liturgia por autoridade da Igreja.

128. O Ofício divino é, pois, a oração do corpo místico de Cristo, dedicada a Deus em nome de todos os cristãos e em seu beneficio, feita pelos sacerdotes, por outros ministros da Igreja e pelos religiosos delegados da própria Igreja para isso.

129. Qual deva ser o caráter e eficácia desse louvor divino, deduz-se das palavras que a Igreja sugere dizer antes de iniciar-se a oração do Ofício, prescrevendo que sejam recitadas "digna, atenta e devotamente".

130. Assumindo a natureza humana, o Verbo de Deus introduziu no exílio terreno o hino que se canta no céu por toda a eternidade. Une a si toda a comunidade humana e a associa no canto deste hino de louvores. Confessemos com humildade que "não sabemos o que devemos convenientemente pedir, mas o próprio Espírito reza por nós com gemidos inenarráveis". 138 E ainda Cristo, por meio do seu Espírito, invoca em nós o Pai. "Deus não poderia fazer aos homens um dom maior... reza (Jesus) por nós como nosso sacerdote; reza em nós como nossa cabeça; é invocado por nós como nosso Deus... reconheçamos, pois, as nossas vozes nele e a sua voz em nós... Rezamos a ele como a Deus, ele reza como servo: lá o Criador, aqui um ser criado, enquanto, sem sofrer mudança, tomou uma natureza mutável, fazendo de nós um só homem com ele: cabeça e corpo".139

131. A excelsa dignidade dessa oração da Igreja deve corresponder a intensa devoção da nossa alma e, visto que a voz do orante repete os poemas escritos por inspiração do Espírito Santo, que proclamam e exaltam a perfeitíssima grandeza de Deus, é ainda necessário que a essa voz se junte o movimento interior do nosso espírito para fazer nossos aqueles mesmos sentimentos com os quais nos elevamos ao céu, adoramos a santíssima Trindade e lhe rendemos os devidos louvores e ações de graças: "Devemos salmodiar de modo que a nossa mente concorde com a nossa voz". 140 Não se trata, pois, de uma recitação somente, ou de um canto que, embora perfeitíssimo segundo as leis da arte musical e as normas dos sagrados ritos, chegue apenas ao ouvido; mas sobretudo de uma elevação da nossa mente e da nossa alma a Deus para que nos consagremos, nós e todas as nossas ações, a ele, unidos com Jesus Cristo.

132. Disso depende certamente, em não pequena parte, a eficácia das orações, as quais, se não se dirigem ao próprio Verbo feito homem, concluem com estas palavras: "Por nosso Senhor Jesus Cristo" que, mediador entre nós e Deus, mostra ao Pai celeste os seus estigmas gloriosos, "sempre viva para interceder por nós".141

133. Os salmos, como todos sabem, constituem parte principal do Oficio divino. Eles abrangem todo o curso do dia e lhe dão um contato e um ornamento de santidade. Cassiodoro disse belamente a propósito dos salmos distribuídos no Oficio divino do seu tempo: "Eles... com júbilo matutino nos tornam favorável o dia que está para começar, santificam a primeira hora do dia, consagram a terceira hora, alegram a sexta na fração do pão, assinalam, à nona, o fim do jejum, concluem o término do dia e impedem o nosso espírito de obscurecer-se ao avizinhar-se a noite".142

134. Eles lembram as verdades reveladas por Deus ao povo eleito, às vezes terríveis, às vezes impregnadas de suavíssima doçura; repetem e acendem a esperança no Libertador prometido que outrora era animada com o canto em torno da lareira doméstica e na própria majestade do templo; põem em maravilhosa luz a profetizada glória de Jesus Cristo e o seu sumo e eterno poder, a sua vinda e o seu aniquilamento neste exílio terreno, a sua dignidade real e o seu poder sacerdotal, as suas benéficas fadigas e o seu sangue derramado pela nossa redenção. Exprimem igualmente a alegria das nossas almas, a tristeza, a esperança, o temor, a correspondência do amor e o abandono a Deus qual mística ascensão para os divinos tabernáculos.

135. "O salmo... é a bênção do povo, o louvor de Deus, o elogio do povo, o aplauso de todos, a linguagem geral, a voz da Igreja, a harmoniosa confissão de , o pleno devotamento à autoridade, a alegria da liberdade, o grito de entusiasmo, o eco da alegria."143

136. Na antiguidade, a assistência dos fiéis a essas orações do Ofício era maior; mas gradativamente diminuiu como dissemos; e como acabamos de dizer, a sua recitação atualmente é reservada ao clero e aos religiosos. Em rigor de lei, nada é prescrito aos leigos nesta matéria, mas é muito de desejar que eles tomem parte ativa no canto ou na recitação do Oficio de Vésperas nos dias festivos, na própria paróquia. Recomendamos vivamente, veneráveis irmãos, a vós e aos vossos féis que não cesse este piedoso hábito e que, se possível, se ponha em vigor onde tiver desaparecido. Isso acontecerá certamente com frutos salutares se as Vésperas forem cantadas não só digna e decorosamente mas de maneira que nutra suavemente de vários modos a piedade dos fiéis. Seja sagrada a observância dos dias festivos que devem ser dedicados e consagrados a Deus de modo particular; e; sobretudo, do domingo, que os apóstolos, instruídos pelo Espírito Santo, substituíram ao sábado. Se foi ordenado aos judeus: "Trabalhareis durante seis dias; no sétimo dia que é sábado, repouso santo do Senhor, quem trabalhar neste dia será condenado à morte";144 como não terão a morte espiritual aqueles cristãos que fazem obra servil nos dias festivos e durante o repouso festivo não se dedicam à piedade nem à religião, mas se abandonam demasiadamente aos atrativos deste século? O domingo e os dias festivos devem ser consagrados ao culto divino com o qual se adora a Deus e a alma se nutre do alimento celeste; e se bem que a Igreja prescreva somente que os fiéis devam abster-se do trabalho servil e devam assistir ao sacrifício eucarístico, e não nenhum preceito para o culto vespertino, note-se que, além dos preceitos existem também suas insistentes recomendações e desejos, o que ainda mais é exigido pela necessidade que todos têm de tornar propício o Senhor para impetrar benefícios. Contrista-se profundamente nossa alma ao ver como em nossos tempos o povo cristão passa a tarde do dia festivo: enchem-se os lugares de espetáculos públicos e de jogos, enquanto as igrejas são menos freqüentadas do que conviria. Mas é necessário, sem dúvida, que todos vão aos nossos templos para ser instruídos na verdade da "católica, para cantar os louvores de Deus, para serem enriquecidos pelo sacerdote com a bênção eucarística e munidos do auxílio celeste contra a adversidade da vida presente. Procurem todos aprender as fórmulas que se cantam nas Vésperas e penetrar-lhes o íntimo sentido; sob o influxo dessas orações experimentarão aquilo que santo Agostinho afirmava de si mesmo: "Quanto chorei entre hinos e cânticos, vivamente comovido pelo canto suave da tua Igreja! Aquelas vozes ressoavam nos meus ouvidos, instilavam a verdade no meu coração, em mim ardiam sentimentos de devoção, e as lágrimas corriam, fazendo-me bem".145




132. Lc 18, 1.



133. Hb 13,15.



134. Cf. At 2,1-15.



135At 10,9.



136. At 3,1. 



137. At 16,25



138. Rm 8,26.



139. S. Agostinho, Enarr. in Ps. 85, n. 1.



140. S. Bento, Regula Monachorum, c. XIX.



141. Hb 7,25.



142. Explicatio in Psalterium, Prefácio; PL 70,10.



143. S. Ambrósio, Enarrat. in Ps. l, n. 9.



144. Ex 31,15.



145. Confess. I. IX, c. 6.






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