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| Pio XII Le pèlerinage de Lourdes IntraText CT - Texto |
6. Estes cem anos de culto mariano teceram, ademais, entre a Sé de Pedro e o santuário pirenaico laços estreitos, que nos apraz reconhecer. A própria virgem Maria não desejou essas aproximações? "O que em Roma, pelo seu magistério infalível, o sumo pontífice definia, a Virgem Imaculada Mãe de Deus, a bendita entre as mulheres, quis, ao que parece, confïrmá-lo por sua boca, quando pouco depois se manifestou por uma célebre aparição na gruta de Massabielle".5 Certamente, a palavra infalível do pontífice romano, intérprete autêntico da verdade revelada, não necessitava de nenhuma confirmação celeste para se impor à fé dos fiéis. Mas com que emoção e com que gratidão o povo cristão e seus pastores não recolheram dos lábios de Bernardete essa resposta vinda do céu: "Eu sou a Imaculada Conceição"!
7. Por isso, não é de admirar que os nossos predecessores se hajam comprazido em multiplicar os seus favores para com esse santuário. Desde 1860, Pio IX, de santa memória, regozijava-se de que os obstáculos suscitados contra Lourdes pela malícia dos homens houvessem permitido "manifestar com mais força e mais evidência a clareza do fato".6 E, forte dessa segurança, ele cumula de benefícios espirituais a Igreja recém-educada, e faz coroar a estátua de nossa Senhora de Lourdes. Leão XIII, em 1892, concede o oficio próprio e a missa da festa "in apparitione Beatae Mariae Virginis Immaculatae", coisa que o seu sucessor estenderá em breve à Igreja universal; o antigo apelo da Escritura aí achará, de então por diante, aplicação nova: "Levanta minha amada, formosa minha, vem a mim! Pomba minha, que se aninha nos vãos do rochedo, pela fenda dos barrancos!" 7 Pelo fim da sua vida, o grande pontífice fez questão de inaugurar e de benzer pessoalmente a reprodução da gruta de Massabielle edificada nos jardins do Vaticano, e, na mesma época, a sua voz se elevava para a Virgem de Lourdes por uma prece ardente e confiante: "Que, no seu poder, a Virgem Mãe, que outrora cooperou por seu amor no nascimento dos fiéis na Igreja, seja ainda agora o instrumento e a guardiã da nossa salvação; ...restitua a tranqüilidade da paz aos espíritos angustiados; apresse enfim, na vida privada como na vida pública, o retorno a Jesus Cristo".8
8. O cinqüentenário da definição dogmática da imaculada conceição da santíssima Virgem ofereceu a s. Pio X o ensejo de atestar num documento solene o liame histórico entre esse ato do magistério e a aparição de Lourdes: "Apenas Pio IX definira de fé católica que desde a origem Maria foi isenta de pecado, a própria Virgem começava a operar maravilhas em Lourdes".9 Pouco depois, cria ele o título episcopal de Lourdes, ligado ao de Tarbes, e assina a introdução da causa de beatificação de Bernardete. Reservado estava sobretudo a esse grande papa da eucaristia frisar e favorecer a admirável conjunção que existe em Lourdes entre o culto eucarístico e a oração marial. Nota ele: "A piedade para com a Mãe de Deus ali fez florescer uma notável e ardente piedade para com Cristo nosso Senhor".10 Podia, aliás, ser diversamente? Tudo em Maria nos leva para seu Filho, único salvador, na previsão de cujos méritos ela foi imaculada e cheia de graças; tudo em Maria nos eleva ao louvor da adorável Trindade, e bem-aventurada foi Bernardete desfiando o seu terço diante da gruta, e dos lábios e do olhar da Virgem Santa aprendendo a dar glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo! Por isso somos felizes, neste centenário, de associarnos a essa homenagem prestada por s. Pio X: "A glória única do santuário de Lourdes reside no fato de nele serem os povos atraídos de toda parte, por Maria, à adoração de Cristo Jesus no augusto sacramento; de sorte que aquele santuário, ao mesmo tempo centro de culto mariano e trono do mistério eucarístico, excede em glória, ao que parece, todos os outros no orbe católico".11
9. Aquele santuário já cumulado de favores, Bento XV fez questão de enriquecê-lo de novas e preciosas indulgências, e, se as trágicas circunstâncias do seu pontificado não lhe permitiram multiplicar os atos públicos da sua devoção, todavia ele quis honrar a cidade mariana concedendo ao seu bispo o privilégio do pálio no lugar das aparições. Pio XI, que fora pessoalmente peregrino de Lourdes, prosseguiu a obra dele, e teve a alegria de elevar aos altares a privilegiada da Virgem, tornada, sob o véu, Irmã Maria Bernarda, da Congregação da caridade e da instrução cristã. Por assim dizer, não autenticava ele por sua vez a promessa da Imaculada à jovem Bernardete, "de ser feliz não neste mundo, mas no outro"? E de então por diante Nevers, que se honra de guardar a urna preciosa, atrai em grande número os peregrinos de Lourdes, desejosos de aprender junto à santa a acolherem como convém a mensagem de nossa Senhora. Em breve o ilustre pontífice, que a exemplo dos seus predecessores acabava de honrar com uma Legação as festas de aniversário das aparições, decidia encerrar o jubileu da redenção na gruta de Massabielle, lá onde, segundo os seus próprios termos, "a Virgem Maria Imaculada várias vezes se mostrou à bem-aventurada Bernardete Soubirous, onde com bondade exortou todos os homens à penitência, naquele lugar mesmo da estupenda aparição que ela cumulou de graças e prodígios".12 Em verdade, concluía Pio XI, aquele santuário "passa agora, a justo título, por ser um dos principais santuários marianos do mundo".13
10. A esse unânime concerto de louvores como não haveríamos nós de unir a nossa voz? Fizemo-lo especialmente na nossa encíclica Fulgens corona, relembrando, em seguimento aos nossos predecessores, que, "ao que parece, a própria bem-aventurada virgem Maria quis confirmar por um prodígio a sentença que o vigário de seu divino Filho na terra acabava de proclamar com os aplausos da Igreja inteira".14 E, naquela ocasião, lembrávamos como, cônscios da importância daquela peregrinação, os pontífices romanos não haviam cessado de "enriquecê-la de favores espirituais e dos benefícios da sua benevolência".15 A história destes cem anos, que acabamos de evocar a grandes traços, não é, com efeito, uma constante ilustração dessa benevolência pontifícia, cujo último ato foi o encerramento, em Lourdes, do ano centenário do dogma da imaculada conceição? Mas a vós, caros filhos e veneráveis irmãos, gostamos de lembrar especialmente um documento recente, pelo qual favorecíamos o surto de um apostolado missionário na vossa cara Pátria. Nele quisemos evocar "os méritos singulares que, no correr dos séculos, a França adquiriu para si no progresso da fé católica", e, a este título, "volvíamos a nossa mente e o nosso coração para Lourdes, onde, quatro anos após a definição do dogma, a própria Virgem imaculada confirmou sobrenaturalmente, por aparições, conversas e milagres, a declaração do doutor supremo".16
11. Ainda hoje nos volvemos para o célebre santuário que se prepara para acolher nas margens do Gave a multidão dos peregrinos do centenário. Se, desde há um sécolo, ardentes súplicas, públicas e privadas, pela intercessão de Maria, ali têm obtido de Deus tantas graças de cura e de conversão, temos a firme confiança de que neste ano jubilar nossa Senhora quererá ainda com largueza corresponder à expectativa de seus filhos; mas temos sobretudo a convicção de que ela nos exorte a recolhermos as lições espirituais das aparições e a enveredarmos pela trilha que ela tão claramente nos traçou.