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| Pius PP. XII Menti nostrae IntraText CT - Texto |
1. Em nosso espírito repercute sempre a palavra do divino Redentor, dirigida a Pedro: "Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?... Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas" (Jo 21,15.17), e a do mesmo príncipe dos apóstolos, que exorta os bispos e sacerdotes do seu tempo: "Guiai o rebanho de Deus, que está entre vós, tende cuidado dele, tornando-vos sinceramente exemplares do rebanho" (1Pd 5,2.3).
A principal necessidade do nosso tempo
2. Meditando atentamente essas palavras, consideramos como ofício precípuo do nosso supremo ministério o esforçarmo-nos por que se torne cada vez mais eficaz o trabalho dos sagrados pastores e dos sacerdotes, que devem guiar o povo cristão para que evite o mal, vença os perigos e alcance a santidade. É essa, realmente, a principal necessidade do nosso tempo, em que os povos, em conseqüência da recente e tremenda guerra, não somente se vêem assoberbados por graves dificuldades materiais, mas estão também espiritualmente perturbados, enquanto os inimigos do nome cristão, que as condições em que se encontra a sociedade tornaram mais insolentes, com ódio satânico e insídias sutis se esforçam por afastar os homens de Deus e do seu Cristo.
Paternal solicitude pelos sacerdotes
3. A necessidade de uma restauração cristã, que todos os bons reclamam, impele-nos a voltar o nosso pensamento e o nosso afeto de modo especial para os sacerdotes de todo o mundo, porque sabemos que é sobretudo a humilde, vigilante e fervorosa ação destes, que vivem no meio do povo e conhecem suas dificuldades, aflições e angústias espirituais e materiais, que pode renovar, com os preceitos evangélicos, os costumes de todos e estabelecer na terra o reino de Jesus Cristo, "reino de justiça, de amor e de paz".1
4. De modo algum, porém, será possível que o ministério sacerdotal consiga plenamente seu fim, de forma a corresponder adequadamente às necessidades do nosso tempo, se os sacerdotes não brilham no meio do povo por insigne santidade, como dignos "ministros de Cristo", e fiéis "dispenseiros dos mistérios de Deus" (1Cor 4,1), eficazes "auxiliares de Deus" (1Cor 3,9), preparados para toda boa obra (2Tm 3,17).
Manifestação de reconhecimento
5. Julgamos, por isso, que de nenhum modo podemos melhor manifestar o nosso reconhecimento aos sacerdotes do mundo inteiro, os quais nos deram testemunho do seu amor elevando preces a Deus por motivo do qüinquagésimo aniversário do nosso sacerdócio, do que endereçando a todo o clero uma paternal exortação à santidade, sem a qual o ministério a ele confiado não poderá ser fecundo. O ano santo, que anunciamos com a esperança de um geral saneamento dos costumes segundo os ensinamentos do evangelho, desejamos que traga, como primeiro fruto, que aqueles que são os guias do povo cristão cuidem com o maior empenho da própria santificação, porque assim estará assegurada a renovação dos povos no espírito de Jesus Cristo.
6. Deve-se, no entanto, recordar que, se as crescentes necessidades da sociedade cristã exigem hoje com mais premência a perfeição interna dos sacerdotes, estes, pela mesma natureza íntima do altíssimo ministério que Deus lhes confiou, já estão obrigados a procurar, sempre e em toda parte, indefessamente, a própria santificação.
O grande dom do sacerdócio
7. Como têm ensinado os nossos predecessores, e particularmente Pio X 2 e Pio XI, 3 e como nós mesmos advertimos na Carta Encíclica Mystici Corporis 4 e na Mediator Dei, 5 o sacerdócio é verdadeiramente o grande dom do divino Redentor, o qual, para tornar perene a obra da redenção do gênero humano por ele consumada sobre a cruz, transmitiu os seus poderes à Igreja, que tornou partícipe do seu único e eterno sacerdócio. O sacerdote é um "alter Christus", porque é assinalado com o caráter indelével que o torna semelhante ao Salvador; o sacerdote representa Cristo, o qual disse: "Como o Pai me enviou, assim eu também vos envio a vós" (Jo 20,21); "quem vos ouve, ouve a mim" (Lc 10,16). Iniciado, por vocação divina, neste divino ministério, "é constituído a favor dos homens nas coisas que tocam a Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados" (Hb 5,1). A ele, portanto, é mister recorra quem queira viver a vida de Cristo e deseje receber força, conforto e alimento para a alma; a ele pedirá o remédio necessário quem deseje ressurgir do pecado e enveredar pelo caminho certo. Por este motivo todos os sacerdotes podem a si mesmos aplicar as palavras do Apóstolo: "Somos auxiliares de Deus" (1Cor 3,9).
Necessidade da correspondência
8. Mas tão excelsa dignidade exige dos sacerdotes que correspondam com a máxima fidelidade ao seu altíssimo ofício. Destinados a promover a glória de Deus na terra, a alimentar e engrandecer o corpo místico de Cristo, é absolutamente necessário que se elevem tanto pela santidade dos costumes, que por meio deles por toda parte se difunda o "bom odor de Cristo" (2Cor 2,15).
9. No mesmo dia em que vós, filhos diletos, fostes exaltados à dignidade sacerdotal, o bispo, em nome de Deus, vos indicou solenemente qual seria o vosso dever fundamental: "Compenetrai-vos do que fazeis, imitai o que tratais, de modo que, ao celebrardes o mistério da morte do Senhor, cuideis de mortificar a vossa carne com todos os seus vícios e concupiscências. Seja a vossa doutrina uma medicina espiritual para o povo de Deus, seja o exemplo da vossa vida como um odor de consolação para a Igreja de Cristo, para que pela vossa pregação e conduta edifiqueis a casa, isto é, a Igreja de Deus".6 Totalmente imune do pecado, a vossa vida, mais que a dos simples fiéis, seja "escondida com Cristo em Deus" (Cl 3,3). Adornados asssim da exímia virtude que a vossa dignidade exige, podereis cuidar do oficio a que vos destinou a sagrada ordenação, que é o de continuar e completar a obra da redenção.
10. É este o programa que vós livre e espontaneamente assumistes; sede santos, porque é santo o vosso ministério.