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Pius PP. XII
Menti nostrae

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II. A SANTIDADE NO MINISTÉRIO SAGRADO

54. Sobre o monte Calvário o Redentor teve aberto o lado, do qual fluiu seu sangue sagrado, que no decurso dos séculos mana como alagadora torrente, para purificar as consciências dos homens, expiar os seus pecados e distribuir-lhes os tesouros da salvação.

O sacerdote, dispenseiro dos mistérios de Deus

55. Para a execução de tão sublime ministério são destinados os sacerdotes. Esses, de fato, não somente conciliam e comunicam a graça de Cristo aos membros do seu corpo místico, mas são também os órgãos de desenvolvimento do mesmo corpo místico, pois que eles devem dar sempre novos filhos à Igreja, educando-os, cultivando-os e guiando-os. Sendo eles os "dispenseiros dos mistérios de Deus" (1Cor 4,1), devem servir a Jesus Cristo com perfeita caridade e consagrar todas as suas forças à salvação de seus irmãos. São eles os apóstolos da luz: por isso devem iluminar o mundo com a doutrina do evangelho, e ser tão fortes na que a possam comunicar aos outros, e seguir os exemplos e ensinamentos do divino Mestre, para poderem conduzir todos a ele. São os apóstolos da graça e do perdão; devem por isso consagrar-se totalmente à salvação dos homens e atraí-los ao altar de Deus, para que se nutram do pão da vida eterna. São os apóstolos da caridade: devem, portanto, promover as obras de caridade, tanto mais urgentes hoje, que cresceram enormemente as necessidades dos indigentes.

As várias formas do apostolado moderno

56. O sacerdote deve esforçar-se ainda a fim de que os fiéis compreendam com justeza a doutrina da "comunhão dos santos", sintam-na e vivam-na; para este fim deve servir-se de obras tais como o "Apostolado litúrgico" e o "Apostolado da oração". Deve, do mesmo modo, promover todas as formas de apostolado que hoje, por especial necessidade do povo cristão, são de tanta importância e de tanta urgência. Esforce-se, assim, pela difusão do ensino catequético, pelo desenvolvimento e difusão da "Ação católica" e da "Ação missionária"; e, mediante o trabalho dos leigos, bem preparados e formados, incremento às iniciativas de apostolado social que o nosso tempo reclama

Exercê-lo em união com Cristo

57. Recorde-se, entretanto, o sacerdote que o seu ministério será tanto mais fecundo, quanto mais estreitamente estiver ele unido a Cristo e for guiado no seu trabalho pelo espírito de Cristo. A sua atividade não se reduzirá, então, a um movimento e a uma agitação puramente naturais, que afadiguem o corpo e o espírito e exponham o próprio sacerdote a transviações ruinosas para si mesmo e a Igreja. Mas o seu trabalho e as suas fadigas serão fecundados e corroborados pelos carismas de graça que Deus nega aos soberbos, mas largamente concede àqueles que, trabalhando com humildade na "vinha do Senhor", não buscam a si mesmos e o próprio proveito (1Cor 10,33) mas a glória de Deus e a salvação das almas. Fiel, portanto, ao ensinamento do evangelho, não confie em si mesmo nem nas próprias forças, mas deposite a sua confiança no auxílio do Senhor: "Nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que o crescimento" (1Cor 3,7). Quando for assim inspirado e organizado o apostolado, não poderá deixar de suceder que o sacerdote atraia a si, com força quase divina, o espírito de todos. Reproduzindo nos seus costumes e na sua vida como que uma viva imagem de Cristo, todos aqueles que o buscam como um mestre reconhecerão, movidos por íntima persuasão, que ele não pronuncia palavras suas, mas palavras de Deus, e que não age por virtude própria, mas por virtude de Deus. "Se alguém fala, sejam palavras de Deus; se alguém exerce o ministério, seja conforme a força que Deus der" (1Pd 4,11). No tender à santidade e no desempenhar-se, com suma diligência, do seu ministério, deve o sacerdote esforçar-se por representar Cristo tão perfeitamente, que possa com toda modéstia repetir a palavra do apóstolo das gentes: "Sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo" (1Cor 4,16).

Resguardar-se da heresia da ação

58. Por esse motivo, enquanto rendemos o devido louvor a quantos, na afanosa reparação deste triste pós-guerra, movidos pelo amor de Deus e pela caridade para com o próximo, sob a direção e seguindo o exemplo dos bispos, consagraram todas as suas forças para remediar tantas misérias, não nos podemos abster de exprimir a nossa preocupação e a nossa ansiedade por aqueles que, por especiais circunstâncias do momento, se deixaram levar pelo vórtice da atividade exterior, assim como a negligenciar o principal dever do sacerdote, que é a santiflcação própria. Já dissemos em público documento 22 que devem ser chamados a melhores sentimentos quantos presumam que se possa salvar o mundo por meio daquela que foi justamente designada como a "heresia da ação": daquela ação que não tem os seus fundamentos nos auxílios da graça, e não se serve constantemente dos meios necessários a obtenção da santidade, que Cristo nos proporciona. Do mesmo modo, porém, estimulamos às obras do ministério aqueles que, trancados em si mesmos e duvidosos da eficácia do auxílio divino, não se esforçam, segundo as próprias possibilidades, por fazer penetrar o espírito cristão na vida cotidiana, em todas as formas que os nossos tempos reclamam.23

Dedicar-se inteiramente à salvação das almas

59. Exortamo-vos, portanto, com todo o empenho, a que, estreitamente unidos ao Redentor, "com cujo auxílio tudo podemos" (Fl 4,13), vos esforceis com toda solicitude pela salvação daqueles que a divina Providência contou aos vossos cuidados, como ardentemente desejamos, diletos filhos, que imiteis os santos, que, nos tempos passados, demonstraram com suas obras grandiosas quanto pode o poder da graça divina. Que todos e cada um, com humildade e sinceridade, possais sempre atribuir-vos - testemunhem-no os vossos fiéis - a expressão do apóstolo: "E de boa vontade darei o que é meu, e me darei a mim mesmo pelas vossas almas" (2Cor 12,15). Iluminai os espíritos, dirigi as consciências, confortai e sustentai as almas que se debatem na dúvida e gemem na dor. A essa forma de apostolado ligai também todas as demais que as necessidades do tempo exigem. Mas em tudo fique sempre patente que o sacerdote, em todas as suas atividades, nada mais procura senão o bem das almas, e a nada mais visa senão a Cristo, a quem consagra todas as suas forças e a si mesmo inteiramente.

Imitar os exemplos do Redentor

60. Do mesmo modo que para vos estimular à santificação pessoal vos exortamos a reproduzir em vós mesmos a imagem viva de Cristo, assim agora, para a eficácia santificadora do vosso ministério, vos incitamos com insistência a seguir sempre os exemplos do Redentor. Ele, repleto do Espírito Santo, "andou fazendo o bem e curando todos os oprimidos do demônio, porque Deus estava com ele" (At 10,38). Fortificados pelo mesmo Espírito e impelidos por sua força, podereis exercer um ministério que, nutrido pela caridade cristã, será rico de virtude divina, que poderá comunicar aos outros.

61. Seja o vosso zelo vivificado por aquela caridade que se não deixa vencer pelas adversidades e a todos os homens abraça, pobres e ricos, amigos e inimigos, fiéis e infiéis. Essa diuturna fadiga e cotidiana paciência, eis o que de vós reclamam as almas, para a salvação das quais o nosso Salvador sofreu pacientemente dores e tormentos até a morte, para nos restituir a amizade divina. É essa, bem o sabeis, o maior dos bens. Não vos deixeis prender pelo imoderado desejo de sucesso, nem vos deixeis desarmar se, após assíduo trabalho, não recolherdes os frutos desejados, porque "um é que semeia, outro que ceifa" (Jo 4,37).

Com benigna caridade

62. Resplandeça, além disso, o vosso zelo de caridade benigna, pois se é necessário - e é dever de todos - combater o erro e rechaçar o vício, o espírito do sacerdote deve, todavia, estar sempre aberto à compaixão. É imperioso combater com todas as forças o erro, mas amando intensamente o irmão que erra e conduzindo-o à salvação. Quanto bem não fizeram, quão admiráveis obras não realizaram os santos com a sua benignidade, mesmo em ambientes pervertidos pela mentira e degradados pelo vício. Trairia, por certo, seu ministério aquele que, para agradar aos homens, lhes lisonjeasse as inclinações malsãs ou se mostrasse indulgente com seu incorreto modo de pensar e de agir, com prejuízo para a doutrina cristã e a integridade dos costumes. Quando, no entanto, são observados os ensinamentos do evangelho e os que erram se mostram movidos por sincero desejo de retornar ao bom caminho, então deve recordar-se o sacerdote da resposta que o Senhor deu a Pedro, quando lhe perguntou quantas vezes se devia perdoar ao irmão: "Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete" (Mt 18,22). 

Ser desinteressados

63. Este vosso zelo deve ter por objeto não as coisas terrenas e caducas, mas as eternas. Deve ser este o propósito dos sacerdotes que aspiram à santidade: trabalhar unicamente pela glória divina e salvação das almas. Quantos sacerdotes, mesmo nas graves dificuldades dos nossos tempos, vêm seguindo como norma os exemplos e advertências do apóstolo das gentes, que se contentava com o mínimo indispensável: "Tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isto" (1Tm 6,8).

64. Por esse desinteresse e desprendimento das coisas terrenas, unidos à confiança na Divina Providência, dignos do mais alto louvor, o ministério sacerdotal tem dado à Igreja ubérrimos frutos de bem espiritual e social

Aperfeiçoar a cultura própria

65. Esse zelo operoso deve, enfim, ser iluminado pela luz da sabedoria e da disciplina e inflamado pela chama da caridade. Quem se determine à santificação própria e alheia, deve estar preparado por sólida doutrina, que abranja não somente a teologia, mas igualmente a cultura moderna profana, a fim de que, como bom pai de família, possa tirar "do seu tesouro coisas novas e velhas" (Mt 13,52), e tornar cada vez mais apreciado e fecundo o seu ministério. Inspire-se, antes de tudo, a vossa atividade e seja fielmente conforme às prescrições desta sede apostólica e as diretivas dos bispos. Não mais ocorra, diletos filhos, que se tornem mortas ou, por defeituosa direção, não correspondam às necessidades dos fiéis todas as novas formas de apostolado que são hoje tão oportunas, especialmente nas regiões onde o clero é pouco numeroso

Aumentar o zelo operoso

66. Cresça, portanto, cada dia esse vosso operoso zelo, sustente a Igreja de Deus, sirva de exemplo aos fiéis e constitua um poderoso baluarte contra o qual se esboroem os ataques dos inimigos de Deus.

Satisfação pelos diretores espirituais

67. Desejamos, por isso, exprimir a nossa satisfação de modo particular aos sacerdotes que, com humildade e ardente caridade, auxiliam a santificação dos confrades, como conselheiros, confessores ou diretores espirituais. O incalculável bem que fazem à Igreja permanece na maioria dos casos oculto, mas será um dia patenteado no reino da glória divina.

Tomem s. José Cafasso como modelo

68. Nós, que, não há ainda muitos anos, com íntima satisfação para o nosso coração decretamos as honras dos altares para o sacerdote turinense José Cafasso - que em época dificílima foi guia espiritual, esclarecido e santo, de não poucos sacerdotes, aos quais fez progredir na virtude, tornando-lhes particularmente fecundo o ministério - alimentamos plena confiança em que também pelo seu valioso patrocínio o divino Redentor suscite numerosos sacerdotes de igual santidade, que saibam conduzir-se a si mesmos e aos seus Confrades a tão excelsa perfeição de vida, que os fiéis, admirando-lhes os exemplos, se sintam espontaneamente movidos a imitá-los.

 




22. Cf. AAS 36(1944), p. 239; Ep. Cum proxime exeat



23. Cf. Alocução de 12 de setembro de 1947.






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