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Pius PP. XII
Menti nostrae

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III. NORMAS PRÁTICAS

69. Até aqui expusemos as principais verdades e normas fundamentais sobre as quais se baseiam o sacerdócio católico e o exercício do seu ministério. A essas verdades e normas conformam-se diligentemente na sua prática cotidiana todos os sacerdotes santos, enquanto violam as obrigações contraídas pela sagrada ordenação todos os desertores e trânsfugas.

Princípio fundamental: adaptar-se aos tempos

70. Para que, entretanto, nossa paternal exortação seja mais eficaz, julgamos oportuno indicar mais miudamente algumas coisas que estão estreitamente ligadas à prática da vida cotidiana. É isso tanto mais necessário porque na vida moderna se verificam certas situações e de nova maneira se apresentam certas questões, que reclamam mais diligente estudo e mais atentos cuidados. Por isso queremos exortar todos os sacerdotes, e de modo particular os bispos, a fim de que providenciem com a máxima solicitude a promoção de tudo quanto seja necessário aos nossos tempos, e reduzam ao reto caminho da verdade, probidade e virtude o que se desviou ou depravou.

 

1. Formação do Clero 

Sacerdotes seculares e religiosos unidos para o bem da Igreja

71. Depois das prolongadas e diversas vicissitudes da recente guerra, o número dos sacerdotes, tanto nos países católicos como nas missões, tornou-se insuficiente em face das sempre crescentes necessidades. Exortamos, portanto, todos os sacerdotes, tanto os do clero diocesano quanto os que pertencem a ordens ou congregações religiosas, a fim de que, estreitados os vínculos da caridade fraterna, prossigam em união de forças e de vontades na meta comum, que é o bem da Igreja, a santificação própria e dos fiéis. Todos, também os religiosos que vivem no retiro e no silêncio, devem contribuir para a eficácia do apostolado sacerdotal, pela oração e pelo sacrifício; e, quantos o podem, de boa mente ajudem também pela ação.

Recrutar novos operários

72. Mas é também necessário recrutar outros operários, com o auxílio da graça divina. Sobre este importantíssimo problema, em íntima conexão com o futuro da Igreja, chamamos, portanto, a atenção especialmente dos ordinários e de quantos se dedicam de qualquer modo à cura de almas. É verdade que não faltarão jamais à Igreja os sacerdotes necessários à sua missão; cabe contudo, estarmos vigilantes, lembrados da palavra do Senhor. "Grande é a messe, mas poucos são os operários!" (Lc 10,2), e empregarmos toda diligência para dar à Igreja numerosos e santos ministros.

Orar pelas vocações

73. O próprio nosso Senhor nos indica o caminho mais seguro para termos numerosas vocações: "Rogai... ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe" (Lc 10,2): a oração humilde e confiante a Deus.

Suscitar grande estima pelo sacerdócio

74. É, porém, preciso que o espírito daqueles que são chamados por Deus esteja preparado para o impulso e a ação invisível do Espírito Santo; e a esse respeito, é precioso o contributo que podem dar os pais cristãos, os párocos, confessores, superiores de seminários, todos os sacerdotes e os fiéis que levam a peito as necessidades e o incremento da Igreja. Procurem os ministros de Deus, não somente na pregação e na instrução catequística, mas também nas conversações privadas, dissipar os preconceitos ainda tão difundidos contra o estado sacerdotal, mostrando a sua excelsa dignidade, beleza, necessidade e elevado mérito. Os pais e mães cristãos, pertençam a qualquer esfera social, devem rogar a Deus torná-los dignos de que ao menos um de seus filhos seja chamado ao seu serviço. Todos os cristãos, em suma, devem sentir o dever de favorecer e auxiliar aqueles que se sentem chamados ao sacerdócio.

Especialmente pela santidade de vida

75. A escolha dos candidatos ao sacerdócio, que o Código de direito canônico24 recomenda aos pastores de almas, deve constituir a obrigação particular de todos os sacerdotes, que não só devem render humildes e generosas graças a Deus pelo dom inestimável recebido, mas devem igualmente ter como o mais querido e grato o encontrar e preparar para si um sucessor, dentre os jovens que reconhecem possuir os dotes necessários. Para mais eficazmente alcançar esse escopo, todo sacerdote deve esforçar-se por ser e mostrar-se como um exemplo de vida sacerdotal, para que possa constituir um ideal a imitar para os jovens que atrai e nos quais vislumbra os sinais do divino chamamento.

Seleção cuidadosa e prudente

76. Esta seleção cuidadosa e prudente se desenvolva sempre e em toda parte; não somente entre os jovens que já estão no seminário, mas também entre aqueles que completam seus estudos alhures, e de modo particular entre aqueles que prestam a sua colaboração nas várias atividades do apostolado católico. Estes, mesmo que atinjam o sacerdócio em idade avançada, são frequentemente possuidores de maiores e mais sólidas virtudes, estandoexperimentados e tendo fortalecido o seu espírito no contato com as dificuldades da vida e tendocolaborado num campo adentro das finalidades da ação sacerdotal

Exame das vocações...

77. Carece, porém, examinar sempre diligentemente cada um dos aspirantes ao sacerdócio, para ver-se com quais intenções e causas tenham tomado semelhante resolução. De modo especial, quando se trata de rapazinhos, é preciso investigar se eles se acham dotados dos necessários dotes morais e físicos, e se aspiram ao sacerdócio unicamente levados pela sua sublimidade e pela utilidade espiritual própria e alheia.

...e das qualidades físicas dos candidatos

78. Conheceis, veneráveis irmãos, quais as condições de idoneidade moral que a Igreja exige nos jovens que aspiram ao sacerdócio, e reputamos supérfluo deter-nos sobre este argumento. Ao invés, reclamamos a vossa atenção sobre as condições de idoneidade física, e isso tanto mais porque a recente guerra deixou funestos traços e perturbou de diversas maneiras a geração jovem. Examinem-se, portanto, com particular atenção as qualidades físicas dos candidatos, recorrendo ainda, se preciso, ao exame por médico prudente.

Com essa escolha das vocações, feita com zelo e prudência, nos confiamos que surja por toda parte uma escolhida e numerosa falange de candidatos ao sacerdócio.

 

2. Cultivo das vocações

É um grave dever

79. Se muitos pastores sagrados estão preocupados com a diminuição das vocações, de não menores preocupações estão possuídos quando se trata do cuidado de jovens que já ingressaram no seminário. Conhecemos, veneráveis irmãos, quão árdua é esta obra e quantas dificuldades apresenta; mas do cumprimento de tão grave dever tirais grandíssima consolação, porquanto, como recorda o nosso predecessor Leão XIII, "da cura e das solicitudes postas na formação dos sacerdotes auferireis frutos sumamente apetecíveis, e experimentareis que o vosso ofício episcopal será mais facilmente exercido e muito mais fecundo em frutos".25

Julgamos, portanto, oportuno dar-vos algumas normas, sugeridas pela necessidade, hoje mais sentida que outrora, de educar santos sacerdotes.

Seja são e sereno o ambiente

80. É preciso recordar antes de tudo que os alunos dos seminários menores são adolescentes afastados do natural ambiente da família. É necessário, portanto, que a vida que os rapazes levam nos seminários corresponda, quanto possível, à vida normal dos outros rapazes; será dada, pois, grande importância à vida espiritual, mas em forma adequada à sua capacidade e ao seu grau de desenvolvimento: que tudo se processe num ambiente são e sereno. Mas ainda nisto se observe "a justa medida e moderação", de modo a não suceder que aqueles que devem ser formados para a abnegação e para as virtudes evangélicas "vivam em casas suntuosas, nos prazeres e comodidades".26

Formar o caráter com o senso da responsabilidade

81. Deve-se cuidar de modo especial da formação do caráter de cada rapaz, nele desenvolvendo o senso de responsabilidade, a capacidade de raciocínio, o espírito de iniciativa. Por isso aqueles que dirigem os seminários devem recorrer com moderação aos meios coercitivos, aliviando, ao passo que os jovens crescem em idade, o sistema da rigorosa vigilância e das restrições, preparando os jovens a guiar-se por si mesmos e a sentir a responsabilidade de seus atos. Concedam certa liberdade de ação em determinadas iniciativas, habituem os alunos à reflexão, a fim de que se lhes torne mais fácil a assimilação das verdades teóricas e práticas; não temam tê-los ao par dos acontecimentos do dia, que antes, além de lhes fornecerem elementos necessários para que possam formar e exprimir um reto juízo, ainda lhes dão ensejo de discuti-los, ajudando-os e habituando-os a julgar e avaliar com equilíbrio

Instilar horror pela dissimulação

82. Deste modo os jovens são encaminhados para a honestidade e a lealdade, a estima da firmeza e a retidão de caráter e a aversão por toda forma de dissimulação. Quanto mais sinceros e simples forem eles, tanto melhor poderão ser conhecidos e bem guiados pelos superiores no difícil exame da vocação.

Não isolar inteiramente do mundo

83. Se os jovens - especialmente os que entraram no seminário em tenra idade - são formados num ambiente demasiado afastado do mundo, ao saírem do seminário poderão encontrar sérias dificuldades nas relações tanto com o povo simples, quanto com o laicato culto, e poderá ocorrer que assumam uma atitude errada e falsa em relação aos fiéis ou que considerem desfavoravelmente a formação recebida. Por esse motivo, é preciso diminuir gradativamente e com a devida prudência a separação entre o povo e o futuro sacerdote, a fim de que este, recebida a sagrada ordenação, quando iniciar seu ministério, não venha a sentir-se desorientado, o que não somente seria danoso para o seu espírito, como anularia até a eficácia do seu trabalho.

A formação intelectual, literária e científica...

84. Outro grave cuidado dos superiores é a formação intelectual dos alunos. Tendes certamente presentes, veneráveis irmãos, as ordenações e disposições que esta Apostólica tem dado a respeito, e que nós recomendamos a todos já no primeiro encontro que tivemos com os alunos dos seminários e colégios de Roma no início do nosso pontificado.27

...não inferior à dos leigos

85. Desejamos aqui, antes de tudo, recomendar que a cultura literária e científica dos futuros sacerdotes seja pelo menos não inferior à dos leigos que freqüentam análogos cursos de estudos. Desse modo não somente será assegurada a seriedade da formação intelectual, mas ainda será facilitada a seleção dos elementos. Os seminaristas sentir-se-ão mais livres na escolha de estado e será afastado o perigo de que, pela falta de uma suficiente preparação cultural, que possa assegurar uma adaptação ao mundo, alguém se sinta de certo modo constrangido a prosseguir num rumo que não o seu, adotando a reflexão do administrador infiel: "Lavrar a terra não posso, de mendigar tenho vergonha" (Lc 16,3). Se, portanto, viesse a suceder que algum, sobre o qual se depositavam boas esperanças para a Igreja, se afastasse do seminário, não deveria isso causar preocupações, porque o jovem que tornar ao mundo não poderá deixar de recordar-se dos benefícios recebidos no seminário, e com a sua atividade poderá prestar notável contribuição de bem às obras do laicato católico.

Necessidade da doutrina filosófica e teológica

86. Embora não descurando os outros estudos, entre os quais relembramos os atinentes aos problemas sociais, tão necessários hoje, na formação intelectual dos jovens seminaristas deve-se dar a máxima importância à doutrina filosófica e teológica "consoante a norma do Doutor Angélico"28 adequada aos tempos e informada sobre os erros modernos. O estudo dessas disciplinas é de suma importância e utilidade, seja para o espírito do próprio sacerdote, seja para o povo. Os mestres da vida espiritual afirmam que o estudo das ciências sagradas, desde que seja ministrado na devida forma e por um sistema apropriado, é um auxílio eficacíssimo para conservar e alimentar o espírito de , refrear as paixões e manter a alma unida a Deus. Adite-se que o sacerdote, "sal da terra" e "luz do mundo" (cf, Mt 5,13.14), deve dedicar-se à defesa da pregando o evangelho e rebatendo os erros das doutrinas adversas que hoje andam disseminadas sob todas as formas entre o povo. Mas semelhantes erros não podem ser combatidos eficazmente, se não se conhecem a fundo os inconcussos princípios da filosofia e da teologia católica.

Seguir o método escolástico

87. A esse propósito não vem fora de lugar recordar que o método escolástico tem particular eficácia para dar conceitos claros e mostrar que as doutrinas comadas, como sagrado depósito, à Igreja, mestra dos cristãos, são entre si organicamente conexas e coerentes. Não faltam hoje alguns que, afastando-se dos ensinamentos do magistério eclesiástico e negando a clareza e precisão das idéias, não somente abandonam o sadio método escolástico, como franqueiam caminho aos erros e confusões, como o demonstra uma triste experiência.

88. Para impedir, portanto, que nos estudos eclesiásticos se venham a lamentar flutuações e incertezas, exortamo-vos, veneráveis irmãos, a vigiar assiduamente, a fim de que as normas precisas, dadas por esta Apostólica, para este estudo, sejam fielmente acolhidas e postas em prática.

 

3. Formação espiritual e moral 

A ciência, em si, pode ser nociva

89. Se com tanta solicitude recomendamos forte preparação intelectual no clero, é fácil compreender quanto nos toca ao coração a formação intelectual e moral dos jovens clérigos, sem a qual mesmo uma ciência eminente se torna infrutífera e pode até produzir danos incalculáveis, pela soberba e orgulho que inocula nos corações. Por isso, a Igreja ansiosamente e acima de todas as coisas quer que nos Seminários se estabeleçam sólidos fundamentos à santidade, que o ministro de Deus deverá depois desenvolver e praticar durante toda a vida.

Dediquem-se os clérigos à vida interior

90. Como já o dissemos para os sacerdotes, assim agora recomendamos que os clérigos tenham uma sincera e profunda convicção da necessidade da vida espiritual, e portanto sintam o dever de empregar todo esforço para alcançá-la, para conservá-la e aumentá-la continuamente

Seja convicta a sua piedade

91. No curso do dia, com ritmo mais ou menos uniforme, consoante os horários e programas, fazem eles várias práticas religiosas e participam de diversos exercícios de piedade. Há facilmente perigo de que aos exercícios externos de piedade não corresponda um movimento interior da alma, o que se poderá tornar habitual e até agravar-se quando, fora do seminário, o ministro de Deus se sentir atormentado pela necessidade de ação, não raro absorvente.

Executem tudo com

92. Haja, portanto, todo cuidado na formação dos jovens à vida interior, que é a vida do espírito e segundo o espírito; que eles tudo executem à luz da e em união com Cristo, convictos de que é este grave dever de consciência que incumbe a quem deverá receber um dia o caráter sacerdotal e representar o divino Mestre na Igreja. Para o seminarista seria a vida interior o meio mais eficaz para adquirir as virtudes sacerdotais, a força espontânea proveniente da íntima persuasão que faz superar as dificuldades e incita à realização dos santos propósitos.

Instilem neles os diretores as virtudes eclesiásticas...

93. Aqueles que dirigem a formação moral dos seminaristas tenham sempre em mente o objetivo de fazê-los adquirir todas as virtudes que a Igreja exige nos sacerdotes. A essas já nos referimos em outro ponto desta exortação e não pretendemos retornar sobre o mesmo argumento. Mas não podemos deixar de assinalar e recomendar, entre todas as virtudes que solidamente devem possuir os aspirantes ao sacerdócio, aquelas sobre as quais se apóia, como sobre inabaláveis pilares, toda a santidade sacerdotal.

...particularmente a submissão...

94. É necessário que os jovens adquiram o espírito de obediência, habituando-se a submeter sinceramente a sua vontade à de Deus, manifestada através da legítima autoridade dos superiores. Nada deverá existir na conduta do futuro sacerdote que se não conforme à vontade divina. Que esta obediência seja sempre inspirada pelo modelo perfeito do divino Mestre, que na terra teve um só e único programa: "Fazer, ó Deus, a tua vontade" (Hb 10, 7).

...e assim tornem-se verdadeiramente obedientes ao bispo 

95. Aprenda desde o seminário o futuro sacerdote a prestar obediência filial e sincera a seus superiores, para estar depois sempre pronto a obedecer docilmente ao seu bispo, segundo o ensinamento do invicto confessor de Cristo, Inácio de Antioquia: "Obedecei todos ao bispo, como Jesus Cristo obedecia ao Pai".29 "Quem honra o bispo é honrado por Deus; quem age às ocultas do bispo serve ao demônio".30 "Não façais nada sem o bispo, guardai o vosso corpo como templo de Deus, amai a união, evitai as discórdias, sede imitadores de Jesus Cristo como ele o foi de seu Pai".31

Seja solidamente possuída e longamente provada a castidade

96. Empregue-se, por outro lado, toda a diligência e solicitude, a fim de que os seminaristas apreciem, amem e guardem a castidade, porque a escolha do estado sacerdotal e a perseverança nela dependem em grande parte dessa virtude. Estando ela, na sociedade, exposta a maiores perigos, deve ser solidamente possuída e longamente provada. Esclareçam-se, portanto, os seminaristas sobre a natureza do celibato eclesiástico, sobre a castidade que devem observar e sobre as obrigações que isso comporta, 32 e sejam instruídos acerca dos perigos que se lhes podem deparar. Sejam advertidos a deles premunir-se desde a tenra idade, recorrendo fielmente aos meios que lhes oferece a ascética cristã para refrear as paixões; porque quanto mais firme e eficaz for o domínio sobre elas, tanto mais poderá a alma progredir nas outras virtudes e tanto mais segura será depois a ação do seu ministério. Quando, portanto, os jovens clérigos mostrarem a esse respeito tendências malsãs, e após a devida correção se mostrarem incorrigíveis, é absolutamente necessário eliminá-los do seminário, antes que atinjam as ordens sacras.

Cultivem a devoção ao ss. Sacramento e a nossa Senhora

97. Essas e todas as demais virtudes do sacerdote podem ser facilmente adquiridas e tenazmente possuídas pelos seminaristas, se, desde os primeiros anos, houverem eles aprendido e cultivado uma sincera e delicada devoção a Jesus presente "verdadeira, real e substancialmente" entre nós no sacramento do seu amor e fizerem do Deus sacramentado a causa e o fim de todas as suas ações, de suas aspirações e sacrifícios. E se à devoção a Jesus sacramentado unirem uma filial devoção a Maria, devoção que seja cheia de confiança e de abandono nela, e que excite a alma à imitação das suas virtudes, então a Igreja se regozijará porque não poderá mais faltar o fruto de um ministério ardente e zeloso num sacerdote cuja adolescência foi alimentada pelo amor a Jesus e a Maria.

Dispensar cuidados ao clero jovem

98. Aqui não podemos deixar de endereçar a vós, veneráveis irmãos, uma viva recomendação: dispensar um cuidado todo particular ao clero jovem.

Prepará-lo santamente para a vida de ministério

99. A passagem da vida resguardada e tranqüila do seminário à atividade do ministério pode ser perigosa para o sacerdote que ingressa no campo aberto do apostolado, se não estiver suficientemente preparado para tal gênero novo de vida. Podem fracassar as esperanças tão largamente depositadas em jovens sacerdotes, se estes não forem gradativamente iniciados no trabalho, sabiamente vigiados e paternalmente guiados nos primeiros passos do seu ministério.

Criar institutos adequados...

100. Nós aprovamos, portanto, que os jovens sacerdotes, quando for isto possível, sejam recolhidos durante alguns anos em Institutos especiais, onde, sob a direção de superiores experimentados, possam acrisolar-se na piedade e aperfeiçoar-se nas sagradas disciplinas e ser preparados para o ministério que melhor corresponda a sua índole e inclinações. Para tal fim desejamos que em cada diocese, ou ao menos em cada grupo de dioceses, juntamente, sejam instituídos semelhantes colégios.

...modelados pelo de santo Eugênio, de Roma

101. No que respeita a nossa cidade, nós mesmo já o fizemos, quando, ao se completar o 50° aniversário do nosso sacerdócio, erigimos o Instituto de santo Eugênio para jovens sacerdotes.33

Não encaminhar ao ministério sacerdotes inexperientes 

102. Exortamo-vos, veneráveis irmãos, a que eviteis, na medida do possível, lançar em cheio na atividade pastoral sacerdotes ainda inexperientes, e mandá-los para pontos demasiado afastados da sede da diocese ou de outros centros maiores. Em semelhante situação, de fato, isolados, inexperientes, expostos a perigos e privados de mestres prudentes, somente poderão colher danos para si mesmos e para seu ministério.

Aproximá-los de sacerdotes provectos...

103. É, ao invés, particularmente recomendável que esses jovens sacerdotes sejam colocados ao lado de algum pároco, pois, desse modo, mediante a direção de pessoa avançada em anos, podem mais facilmente ser adestrados no sagrado ministério e aperfeiçoar o seu espírito de piedade. Lembramos a todos os pastores de almas que o futuro dos novos sacerdotes está em grande parte em suas mãos. O ardente zelo e os generosos propósitos de que vêm animados, ao iniciar seu ministério, podem ser apagados ou certamente entibiados pelo exemplo dos anciãos, se nestes não brilha o esplendor da virtude ou se, sob pretexto de não alterar velhos hábitos, se mostrassem amantes do ócio.

Promova-se a vida em comum do clero

104. Aprovamos e recomendamos vivamente quanto já está contido nos votos da Igreja, 34 isto é, que se introduza e se estenda o costume da vida em comum entre os sacerdotes de uma mesma paróquia ou de paróquias limítrofes

As imensas vantagens que isso traz

105. Se essa prática da vida em comum comporta algum sacrifício, nenhuma dúvida há, entretanto, de que dela provêm grandes vantagens: antes de tudo, alimenta cotidianamente o zelo e o espírito de caridade entre os sacerdotes; , portanto, um admirável exemplo aos fiéis o desprendimento dos ministros de Deus dos interesses pessoais e da própria família; é, afinal, testemunho do cuidado escrupuloso com que eles resguardam a castidade sacerdotal.

Não interromper a vida de estudo

106. Devem, além disso, os sacerdotes cultivar o estudo, como sabiamente prescreve o Código de direito canônico: "Os clérigos não interrompam os estudos, especialmente os sagrados, depois de recebido o sacerdócio".35 O mesmo Código, depois, além dos exames que se devem fazer "ao menos cada ano, durante todo um triênio",36 que exige aos novos sacerdotes, prescreve outrossim que o clero tenha várias vezes por ano reuniões destinadas "a promover a ciência e a piedade".37

Tornar eficientes as bibliotecas para sacerdotes...

107. Para estimular esses estudos, que se tornam às vezes difíceis pelas precárias condições econômicas do clero, seria sumamente oportuno que os ordinários, segundo as luminosas tradições da Igreja, restituíssem a dignidade e a eficiência às bibliotecas das catedrais, dos colégios ou das próprias paróquias.

108. Essas bibliotecas eclesiásticas, não obstante as espoliações e dispersões sofridas, não raramente possuem uma preciosa herança de pergaminhos, livros manuscritos e impressos, "testemunho eloqüente tanto da atividade e influência da Igreja, como da e piedade generosa dos antepassados, dos seus estudos ou do seu bom gosto".38 Que essas bibliotecas não sejam depósitos de livros abandonados, mas, ao contrário, estruturas vivas, com una sala adaptada à consulta dos livros e à leitura. Antes do mais, porém, sejam elas atualizadas e enriquecidas com obras de todos os gêneros, especialmente das relativas às questões religiosas e sociais dos nossos tempos, de modo que os professores, os párocos e particularmente os jovens sacerdotes possamadquirir a doutrina necessária para difundir as verdades do evangelho e para combater os erros.

 




24. Cf. cânon 1353.



25. Enc. Quod multum, aos bispos húngaros, 22 de agosto de 1886, Acta Leonis XIII, vol. VI, p.158.



26. Cf. Aloc. de 25 de Novembro de 1948, AAS 40(1948), p. 552.



27. Cf. Discurso de 24 de junho de 1939, AAS 31(1939), p. 245-251.



28. Cf. CIC, cânon 1366 .



29. Ad Smyrnaeos, VIII,1; Migne, PG 8, 714



30. Ibid. IX,1, PG 714-715.



31. Ad Philadelphienses, VII, 2, Migne, PG 5, 700.



32. Cf. CIC, cânon 132.



33. Cf. AAS 41(1949), p.165-167.



34. Cf. CIC, cânon 134. 



35. Cânon 129. 



36. Cânon 130, .



37. Cânon 131,.



38. Carta do Card. P. Gasparri ao Episcopado da Itália, l5 de abril de 1923; Ench. Clericorum, Tip. Polig. Vat.,1937, p. 613.






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