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| Pius PP. XII Menti nostrae IntraText CT - Texto |
IV. PERIGOS DO NOSSO TEMPO
PROBLEMAS DE ATUALIDADE
109. Julgamos ser, enfim, do nosso oficio, veneráveis irmãos, endereçar-vos uma advertência sobre as dificuldades peculiares ao nosso tempo. Já observastes que entre os sacerdotes, especialmente entre aqueles menos providos de doutrina e de vida menos severa, vai-se difundindo, de modo cada vez mais grave e preocupante, certo espírito de novidade.
Quando o espírito de novidade pode ser louvável
110. A novidade nunca foi por si mesma um critério de verdade, e só pode ser louvável quando confirma a verdade e leva à retidão e à virtude.
Novidades perniciosas contra as quais se deve estar em guarda
111. A época em que vivemos sofre de grave perturbação em todos os terrenos: sistemas filosóficos que nascem e morrem, sem em nada melhorarem os costumes; monstruosidade de certa arte, que no entanto pretende julgar-se cristã; critérios de governo que em muitos lugares se convertem antes na opressão dos cidadãos do que em bem comum; métodos de vida e de relações econômicas e sociais em que correm maior perigo os honestos do que os velhacos. Daí deriva quase naturalmente que não faltem de todo em nossos tempos sacerdotes infectados, de alguma maneira, de semelhante contágio, e que manifestam opiniões e levam um teor de vida, até no modo de vestir-se e cuidar de si, inteiramente contrários tanto à sua dignidade como à sua missão; que se deixam empolgar pela mania de novidades, seja no pregar aos fiéis, seja no modo de combater os erros dos adversários; e que comprometem, portanto, não somente sua consciência, mas ainda sua boa fama e, então, a eficácia do seu ministério.
Cabe aos ordinários a atualização dos métodos de apostolado
112. Sobre tudo isso, veneráveis irmãos, alertamos vivamente a vossa vigilância, certos de que vós, entre a ânsia de novidades e o exagerado apego ao passado, usareis aquela prudência que é sempre sábia e vigilante, mesmo quando experimenta novos rumos de atividade e de luta pelo triunfo da verdade. Bem longe estamos de pretender que o apostolado não se deva adaptar à realidade da vida moderna e não se devam promover iniciativas adequadas às necessidades do nosso tempo. Como, porém, todo o apostolado sacerdotal que a Igreja desenvolve é essencialmente hierárquico, não se introduzam novas formas senão com o beneplácito do ordinário. Os ordinários de uma mesma região ou de uma mesma nação procurem, nesta matéria, estabelecer entre si um entendimento com a finalidade de prover às necessidades locais e de estudar os métodos mais idôneos e consentâneos com o apostolado religioso. Assim tudo se fará em ordem e disciplina e se poderá ter certeza da eficácia da ação sacerdotal. Estejam todos persuadidos disto: que é preciso escutar a voz de Deus e não a do mundo, e regular a atividade do apostolado segundo as diretrizes da hierarquia e não segundo opiniões pessoais. É vã ilusão acreditar que se possa dissimular a própria pobreza interior e cooperar eficazmente na difusão do reino de Cristo com a extravagância e a incongruência dos métodos de ação.
113. Semelhante retidão de atitude se impõe aos sacerdotes em face às doutrinas sociais do tempo presente.
Nenhuma incerteza contra o comunismo
114. Alguns existem que, frente à iniqüidade do comunismo, que visa a destruir a fé naqueles mesmos a quem promete o bem-estar material, se mostram atemorizados e incertos; mas esta Sé Apostólica, em documentos recentes, indicou claramente qual o caminho a seguir e do qual ninguém se poderá afastar, se não quiser faltar ao próprio dever.
Denunciar as conseqüências ruinosas do capitalismo
115. Outros, porém, se mostram tímidos e incertos quanto ao sistema econômico conhecido pelo nome de capitalismo, do qual a Igreja não tem cessado de denunciar as graves conseqüências. A Igreja, de fato, apontou não somente os abusos do capital e do próprio direito de propriedade que o mesmo sistema promove e defende, mas tem igualmente ensinado que o capital e a propriedade devem ser instrumentos da produção em proveito de toda a sociedade e meios de manutenção e de defesa da liberdade e da dignidade da pessoa humana. Os erros dos dois sistemas econômicos e as ruinosas conseqüências que deles derivam devem a todos convencer, e especialmente aos sacerdotes, a manter-se fiéis à doutrina social da Igreja e a difundir-lhe o conhecimento e a aplicação prática. Essa doutrina é, realmente, a única que pode remediar os males denunciados e tão dolorosamente difundidos: ela une e aperfeiçoa as exigências da justiça e os deveres da caridade, promove tal ordem social que não oprima os cidadãos e não os isole num egoísmo seco, mas a todos una na harmonia das relações e nos vínculos da solidariedade fraternal.
Ir ao encontro dos pobres e dos ricos
116. A exemplo do divino Mestre, vá o sacerdote ao encontro dos pobres, dos trabalhadores, daqueles todos que se encontram em angústia e miséria, entre os quais estão também muitos da classe média e não raros confrades de sacerdócio. Mas não se descuide tampouco daqueles que, embora ricos de bens de fortuna, são no entanto os mais pobres de alma e têm necessidade de ser chamados à renovação espiritual, para dizerem como Zaqueu: "Dou a metade dos meus bens aos pobres, e, se tiver defraudado alguém, restituirei o quádruplo" (Lc 19, 8). No campo das discórdias sociais, portanto, não perca jamais de vista o sacerdote o fim de sua missão. Com zelo, sem temor, deve apresentar os princípios católicos acerca da propriedade, das riquezas, da justiça social e da caridade cristã entre as diversas classes, e dar a todos exemplo manifesto de sua aplicação.
Preparar os leigos para os deveres sociais
117. Normalmente a realização desses princípios sociais cristãos na vida pública compete aos leigos; mas onde não os há capazes, ponha o sacerdote todo empenho em formá-los convenientemente.
118. Este argumento nos obriga oportunamente a dizer uma palavra sobre as condições econômicas em que neste pós-guerra vieram a encontrar-se muitíssimos sacerdotes, particularmente nas regiões que majoritamente sentiram as conseqüências da guerra e da situação política determinada pelo recente conflito. Angustia-nos profundamente semelhante estado de coisas e nada temos poupado para aliviar, conforme as nossas possibilidades, as dificuldades, a miséria e extrema indigência de muitos.
Faculdades extraordinárias concedidas aos bispos
119. Vós, veneráveis irmãos, bem conheceis como interviemos nos lugares onde maior se fazia sentir a necessidade, até por intermédio da Sagrada Congregação do Concílio, concedendo aos bispos faculdades extraordinárias a fim de que fossem eliminadas clamorosas desproporções de condições econômicas entre sacerdotes de uma mesma diocese, e consta-nos que em numerosos lugares os sacerdotes atenderam aos convites de seus pastores de um modo digno de encômios; noutros lugares, porém, devido a graves dificuldades, ainda não foi possível pôr integralmente em prática as normas estabelecidas. Exortamo-vos, portanto, a prosseguir com ânimo paternal no rumo empreendido, e a notificar-nos dos frutos de vossos esforços, porque não é admissível que falte o pão cotidiano ao operário que trabalhou e continua a trabalhar na vinha do Senhor.
Promoção da previdência social para os sacerdotes
120. Louvamos vivamente, além disso, veneráveis irmãos, todas as iniciativas que tomardes de comum acordo, a fim de que não somente não falte aos sacerdotes o necessário para o dia de hoje, mas que lhes seja também assegurado o futuro, por meio do sistema de previdência já vigente e que tanto enaltecemos nas outras classes, e que asseguram uma conveniente assistência nos casos de moléstia, de invalidez e velhice. Desse modo libertareis os sacerdotes das preocupações conseqüentes da incerteza do futuro.
Encômio ao clero que socorre os confrades de sacerdócio
121. A esse propósito exprimimos a nossa paternal satisfação a todos os sacerdotes que, mesmo à custa de sacrifícios, tenham vindo ou vierem ainda ao encontro das necessidades dos confrades necessitados, especialmente se doentes ou idosos. Agindo dessa maneira, dão eles prova luminosa daquela caridade mútua que Jesus Cristo indicou como sinal distintivo dos seus discípulos: "Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros" (Jo 13, 35). E nós desejamos que esses vínculos de fraterna caridade se tornem cada vez mais estreitos entre os sacerdotes de todas as nações, a fim de que seja sempre mais manifesto que eles, ministros de Deus, Pai universal, pertençam a qualquer raça, estão entre si unidos pelo vínculo da caridade.
Ensinar os fiéis a socorrer o clero pobre
122. Vós, contudo, bem compreendereis que semelhante problema não poderá ser convenientemente resolvido, se os fiéis não sentirem intimamente o dever de auxiliar o clero, cada qual segundo suas possibilidades pessoais, e se não se adotarem todos os meios para atingir esse escopo.
123. Por isso, fazei compreender aos fiéis confiados aos vossos cuidados a obrigação que têm de ir em socorro dos seus sacerdotes que se encontrem necessitados, para o que é sempre oportuna a palavra do Senhor: "O operário é digno do seu salário" (Lc 10,7). Como se poderá esperar uma atividade fervorosa e alegre dos sacerdotes, se carecem eles do necessário? De resto, os fiéis que se descuidam desse dever, aplanam, embora involuntariamente, o caminho aos inimigos da Igreja, que em não poucos países procuram exatamente empobrecer o clero para poderem segará-lo dos legítimos pastores.
A obrigação que têm de o fazer os poderes públicos
124. Também os poderes públicos, conforme as diversas condições de cada país, têm a obrigação de prover às necessidades do clero, de cuja ação recebe a sociedade civil incalculáveis benefícios espirituais e morais.