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Paulo VI
Marialis cultus

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A. Nota trinitária, cristológica e eclesial no culto da Virgem Maria

25. É da máxima conveniência, antes de mais nada, que os exercícios de piedade para com a Virgem Maria exprimam, de maneira clara, a característica trinitária e cristológica que lhes é intrínseca e essencial. O culto cristão, de fato, é por sua natureza culto ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, ou, conforme se expressa a Liturgia, ao Pai por Cristo no Espírito. Nesta perspectiva, torna-se ele extensivo, legitimamente, se bem que de maneira substancialmente diversa, em primeiro lugar e de modo singular, à Mãe do Senhor, e depois aos Santos, nos quais a Igreja proclama o Mistério Pascal, por isso mesmo que eles sofreram com Cristo e com Ele foram glorificados (SC 104).

Na Virgem Maria, de fato, tudo é relativo a Cristo e dependente d'Ele: foi em vista d'Ele que Deus Pai, desde toda a eternidade, a escolheu Mãe toda santa e a plenificou com dons do Espírito a ninguém mais concedidos. A genuína piedade cristã, certamente, nunca deixou de pôr em realce essa ligação indissolúvel e a essencial referência da Virgem Maria ao divino Salvador (LG 66). Parece-nos, contudo, sobremaneira conforme com uma certa linha espiritual seguida na nossa época, dominada e absorvida pela "questão de Cristo", 44 que nas expressões do culto à Virgem Maria se dê um relevo especial ao aspecto cristológico e se envidem esforços no sentido de elas refletirem o plano de Deus, o qual preestabeleceu "com um só e mesmo decreto a origem de Maria e da Encarnação da divina Sapiência". 45 Isto concorrerá, sem dúvida, para tornar mais sólida a piedade para com a Mãe de Jesus e fazer dela um instrumento eficaz para que alcancemos todos "o pleno conhecimento do Filho de Deus, o estado de Homem perfeito, a medida da plena estatura da plenitude de Cristo" (Ef 4,13). Por outro lado, contribuirá isso também para aumentar o culto devido ao mesmo Cristo, porque, segundo o sentir perene da Igreja, reforçado autorizadamente nos nossos dias (LG 66), "é referido ao Senhor aquilo com que se procura agradar a Serva; desse modo, redunda em prol do Filho aquilo mesmo que é devido à Mãe... De tal sorte, transfere-se para o Rei aquela honra que, em humilde tributo, se presta à Rainha".46

26. Depois de assim aludirmos à orientação cristológica do culto a Virgem Santíssima, parece-nos útil, em seguida, fazer aqui uma chamada à atenção para a oportunidade de se dar, nesse mesmo culto, o adequado realce a outro dos dados essenciais da fé: a pessoa e a obra do Espírito Santo.

A reflexão teológica e a Liturgia têm vindo a salientar, de fato, que a intervenção santificadora do Espírito no caso da Virgem de Nazaré foi um momento culminante da sua ação na história de Salvação. Assim, por exemplo, alguns Santos Padres e escritores eclesiásticos atribuíram à obra do Espírito a santidade original de Maria, por ele "como que plasmada e tornada uma nova criatura".47 E, refletindo, depois, sobre os textos evangélicos: "Virá sobre ti o Espírito Santo e a potência do Altíssimo te recobrirá" (Lc 1,35), e "Maria... achou-se que tinha concebido por obra do Espírito Santo"; (...) "é obra do Espírito Santo o que nela se gerou" (Mt 1,18.20), descobriram eles em tal intervenção do Espírito uma ação que consagrou e tornou fecunda a virgindade de Maria 48 e a transformou em Palácio do Rei ou Tálamo do Verbo, 49 em Templo ou Tabernáculo do Senhor 50 e em Arca da Aliança ou da Santificação51 títulos ricos de ressonâncias bíblicas. E, ao aprofundarem mais o mistério da Encarnação, viram na misteriosa relação Espírito Santo-Maria um aspecto esponsal, poeticamente descrito por Prudêncio, nestes termos: "a Virgem não-casada desposa o Espírito";52 e chamaram-lhe, ainda, Santuário do Espírito Santo 53 expressão que frisa bem o caráter sagrado da Virgem Maria, que se torna habitação permanente do mesmo Espírito de Deus. Depois, penetrando mais na doutrina do Paráclito, perceberam que d'Ele, como de uma fonte, brotou a plenitude de graça (cf. Lc 1,28) e a abundância dos dons que a exornavam.

Ao Espírito Santo, por conseguinte, atribuíam a fé, a esperança e a caridade que animaram o coração da Virgem Santíssima, bem como a força que manteve a sua adesão à vontade de Deus e o vigor em que se apoiou a sua "compaixão" aos pés da Cruz 54 Anotaram também no cântico profético de Maria (cf. Lc 1,46-55) um particular influxo daquele mesmo Espírito que havia falado pela boca dos profetas.55 E, ao considerarem, enfim a presença da Mãe de Jesus no Cenáculo, onde o Espírito desceu sobre a Igreja nascente (cf: At 1,12-14;2,1-4), enriqueceram com novos desenvolvimentos o tema antigo Maria-Igreja.56 Mas, sobretudo, recorreram à intercessão da Virgem Santíssima para obter do Espírito a capacidade de gerarem Cristo na própria alma, como o atesta S. Ildefonso numa oração, que surpreende pela doutrina e pelo vigor suplicante: "Rogo-te, sim, rogo-te, Virgem Santa, que eu obtenha Jesus daquele Espírito, do qual tu mesma gerastes Jesus! Que a minha alma receba Jesus por esse mesmo Espírito, por quem a tua carne concebeu Jesus! (...) Que eu ame Jesus naquele mesmo Espírito, no qual tu o adoras como Senhor e o contemplas como Filho!".57

27. Ouve-se afirmar, algumas vezes, que muitos textos de piedade moderna não refletem suficientemente toda a doutrina acerca do Espírito Santo. Cabe aos estudiosos verifïcar a justeza, ou não, dessa afïrmação e aquilatar o seu alcance; a nós compete-nos exortar a todos, principalmente aos pastores e teólogos, a procurarem aprofundar a reflexão sobre a obra do Espírito na história da Salvação e a envidarem esforços no sentido de os textos de piedade cristã darem o devido relevo a sua ação vivificante. Desse aprofundamento emergirá, em particular, a misteriosa relação entre o Espírito de Deus e a Virgem de Nazaré e a ação de ambos sobre a Igreja: e dos dados da fé meditados mais profundamente derivar-se-á uma piedade vivida de maneira mais intensa.

28. É necessário, pois, que os exercícios de piedade com que os fiéis exprimem a sua veneração para com a Mãe do Senhor, manifestem de modo mais claro o lugar que ela ocupa na Igreja: "depois de Cristo, o mais alto e o mais perto de nós"; 58 um lugar que nos edifícios cultuais do Rito bizantino tem sido expresso plasticamente de tal maneira que, na própria disposição das estruturas arquitetônicas e dos elementos iconográficos, na porta central da iconóstase, a representação da Anunciação a Maria, e na abside, e da "Theotocos" gloriosa, resulta manifesto que, a partir do "fiat" da humilde Serva do Senhor, a humanidade inicia o retorno a Deus e que na glória da Toda-santa vê a meta da sua caminhada. Assim o simbolismo com que o edifício da igreja exprime o lugar de Maria no mistério da Igreja encerra uma indicação fecunda e constitui um auspício para que, por toda a parte, as várias formas de veneração à bem-aventurada Virgem Maria se abram para perspectivas eclesiais.

A chamada à atenção para os conceitos fundamentais expostos pelo Concílio Vaticano II, sobre a natureza da Igreja, "Família de Deus", "Povo de Deus", "Reino de Deus", "Corpo Místico de Cristo" (LG 6, 7-8, 9-17), permitirá, na verdade, aos fiéis, reconhecerem mais prontamente qual a missão de Maria no mistério da mesma Igreja e qual o seu eminente lugar na Comunhão dos Santos. Além disto, far-lhes-á sentir mais intensamente a fraternidade que une entre si todos os fiéis: porque filhos da Virgem Maria, "para cuja geração e educação (espiritual) ela coopera com amor de mãe" (LG 66), e porque filhos da Igreja, também, visto que "do seu parto nascemos, com o seu leite somos alimentados, e pelo seu Espírito somos vivificados". 59 Ambas concorrem, na verdade, para gerar o Corpo Místico de Cristo; mas "se bem que uma e outra Mãe de Cristo, nenhuma delas sem a outra dá à luz todo (o Corpo)".60 Por fim, facultar-lhes-á perceber mais distintamente que a ação da Igreja no mundo é como que um prolongamento da solicitude de Maria: aquele amor operoso de que a Virgem Santíssima dá mostras, realmente, em Nazaré, em casa de Isabel, em Caná e sobre o Gólgota, todos estes, momentos "salvíficos" de vasto alcance eclesial, encontra a sua continuidade na preocupação materna da Igreja para que todos os homens cheguem ao conhecimento da verdade (cf.1Tm 2,4), nos seus cuidados para com os humildes, os pobres e os fracos, e na sua aplicação constante em favor da paz e da concórdia social, no seu prodigalizar-se, enfim, para que todos os homens tenham parte na Salvação que a morte de Cristo lhes mereceu.

Deste modo, o amor pela Igreja traduzir-se-á em amor para com Maria, e vice-versa, pois uma não pode subsistir sem a outra, como perspicazmente observava S. Cromácio de Aquiléia: "Reuniu-se a Igreja na parte superior (do cenáculo), com Maria que foi a Mãe de Jesus e com os irmãos d'Ele. Não se pode, portanto, falar de Igreja senão quando estiver aí Maria, Mãe do Senhor, com os irmãos d'Ele".61 A concluir, insistimos ainda na necessidade de que a veneração dirigida à bem-aventurada Virgem Maria torne explícito o seu intrínseco conteúdo eclesiológico: isto equivale a dizer, lançar mão de uma força capaz de renovar, salutarmente, formas e textos.




44. Cf. Paulo VI, Alocução no Santuário mariano de "Nostra Signora di Bonaria", Cagliari, a 24 de abril de 1970: AAS 62 (1970), p. 300.



45. Cf. Pio IX, Bula dogmática Ineffabilis Deus: Pii IX Pontificas Maximi Acta, I, l, Romae, 1854, p. 599; Cf. ed. V Sarda, La solenne definizione del dogma dell'Immacolato concepimento di Maria Santíssima. Atti e documenti..., Roma 1904-1905, vol. II, p. 302.



46. S. Ildefonso, De virginitate perpetua sanctae Mariae, cap. XII; PL 96, 108.



47. "Lumen Gentium 56, e os autores citados na relativa.



48. Cf. S. Ambrósio, De Spiritu Sancto II, 37-38: CSEL 79, pp. 100-101; Cassiano, De incarnatione Domina II, cap. II: CSEL 17, pp. 247-249; S. Beda, Homilia I, 3: CCL 122, p.18 e p. 20.



49. Cf. S. Ambrósio, De institutione virginis, cap. XII, 79: PL 16 (ed. 1880), 339; Epistula 30, 3 e Epistula 42, 7: ibid., 1107 e 1175; Expositio evangelii secundum Lucam X, 132; S. Ch., 52, p. 200; S. Procles de Constantinopla, Oratio I, et Oratio V, 3: PG 65, 681 e 720; S. Basílio de Selêucia, Oratio XXXIX, 3: PG 85, 433; S. André de Creta, Oratio IV: PG 97, 868; S. Germano de Constantinopla, Oratio II,15: PG 98, 305.



50. Cf. S. Jerônimo, Adversos Iovinianum I, 33: PL 23, 267; S. Ambrósio, Epistula 63, 33: PL 16 (ed. 1880), 1249; De institutione virginis, cap. XVII, 195: Ibid., 346; De Spiritu Sancto III, 79-80: CSEL 79, pp. 182-183; Sedúlio, Hymnus "A solis ortus cardine", vv.13-14: CSEL 10, p.164; Hymnus Acathistos, str. 23: ed. I B. Pitra, Analecta Sacra, I, p. 261; S. Procles de Constantinópola, Oratio I, 3: PG 65, 684; Oratio II, 6: ibid., 700: S. Basílio de Selêucia, Oratio IV: PG 97, 868; S. João Damasceno, Oratio IV,10: PG 96, 677.



51. Cf. S. Severo de Antioquia, Homilia 57: PO 8, pp. 357-358; Hesíquio de Jerusalém, Homilia de Sancta Maria Deipara: PG 93,1464: Crisipo de Jerusalém, Oratio in sanctam Mariam Deiparam, 2: PO 19, p. 338; S. André de Creta, Oratio V: PG 97, 896; S. João Damasceno, Oratio VI, 6: PG 96, 672.



52. Liber Apotheosis, vv 571-572: CCL 126, p. 97.



53. Cf. S. Isidoro, De ortu et obitu Patrum, cap. LXVII, 111: PL 83, 148; S. Ildefonso, De virginitate perpetua sanctae Mariae, cap. X: PL 96, 95; S. Bernardo, In Assumptione B. Virginis Mariae, Sermo IV, 4: PL 183, 428; In Nativitate B. Virginis Mariae: ibid., 442; S. Pedro Damião, Carmina sacra et preces II, Oratio ad Deum, Filium: PL 145, 921; Antiphona "Beata Dei Genetrix Maria": Corpus antiphonalium officcii, ed. R. J. Hesbert, Roma 1970, vol. N, n. 6314, p. 80.



54. Cf. Paulo Diácono, Homilia I, In Assumptione B. Mariae Virginis: PL 95, 1567; Pascásio Rodberto, De Assumptione sanctae Mariae Virginis, trib., nn. 31, 42, 57, 83: ed. A. Ripberger, in "Spicilegium Friburgense", n. 9, 1962, pp. 72, 76, 84, 96-97; Eadmero de Cantuária. De excellentia Vrginis Mariae, cap. IV- V: PL 159, 562-567; S. Bernardo, In laudibus Virginis Matris, Homilia IV, 3: Sancti Barnardi Opera, ed. J. Leclercq-H. Rochais, IV, Romae 1966, pp. 49-50.



55. Cf. Orígenes, In Lucam Homilia VII, 3: PG 13,1817; S. Ch., 87, p.156; S. Cirilo de Alexandria, Commentarius in Aggaeum prophetam, cap. XIX: PG 71, 1060; S. Ambrósio, De fide IV, 9, 113-114: CSEL 78, pp. 197-198; Expositio evangelii secundum Lucam II, 23 e 27-28; CSEL 32, N, pp. 53-54 e 55-56; Severiano de Gábala, In mundi creationem oratio IV, 10. PG 56, 497-498; Antipater Bostrensis, Homilia in Sanctissimae Deiparae Annuntiationem, 16: PG 85,1785.



56. Cf. Eadmero de Cantuária, De excellentia Virginis Mariae, cap. VII: PL 159, 571: S. Amadeu de Lausana, Homilia VII: PL 188,1337; S. Ch., 72, p.184.



57. De virginitate perpetua sanetae Mariae, cap. XII: PL 96,106.



58. Lumen Gentium 54. Cf. Paulo VI, Alocução durante o Concílio Ecumênico Vaticano II, na altura do encerramento da segunda sessão, em 4 de dezembro de 1963. AAS 56 (1964), p. 37.



59. S. Cipriano, De catholicae Ecclesiae unitate, 5: CSEL 3, p. 214.



60. Isaac De Stella, Sereno LI, In Assumptione B. Mariae; PL 194,1863.



61. Sermo XXX,1: S. Ch., 164, p.134.






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