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20. Ora, qual o sentido literal de um
escrito, muitas vezes não é tão claro nas palavras dos antigos orientais como
nos escritores do nosso tempo. O que eles queriam significar com as palavras
não se pode determinar só pelas regras da gramática e da filologia, nem só pelo
contexto; o intérprete deve transportar-se com o pensamento àqueles antigos
tempos do Oriente, e com o auxílio da história, da arqueologia; etnologia e
outras ciências, examinar e distinguir claramente que gêneros literários
quiseram empregar e empregaram de fato os escritores daquelas épocas remotas.
De fato os antigos orientais, para exprimir os seus conceitos, nem sempre
usaram das formas ou gêneros de dizer de que nós hoje usamos; mas sim daqueles
que estavam em uso entre os seus contemporâneos e conterrâneos. Quais eles
fossem não o pode o exegeta determinar a priori, mas só por meio de um
diligente exame das antigas literaturas orientais. Esse estudo, feito com maior
cuidado e diligência nos últimos decênios, mostrou mais claramente quais as
formas de dizer empregadas naqueles antigos tempos quer nas composições
poéticas, quer na legislação ou na história. A mesma investigação demonstrou já
luminosamente que o povo de Israel, entre todas as antigas nações do Oriente,
ocupa um lugar eminente e singular no escrever da história, quer pela
antiguidade quer pela fiel narração dos fatos, prerrogativas essas que em
verdade se podem deduzir do carisma da divina inspiração e do particular fim
religioso da história bíblica. Contudo ninguém que tenha um conceito justo da
inspiração bïblica poderá estranhar que também nos autores sagrados, como nos
outros antigos, se encontrem certos modos de expor e contar, certos idiotismos
próprios, especialmente das línguas semíticas, certas expressões aproximativas
ou hiperbólicas e talvez paradoxais, que servem para gravar as coisas mais
firmemente na memória. Nenhum dos modos de falar de que entre os antigos e
especialmente entre os orientais se servia a linguagem para exprimir o
pensamento, pode dizer-se incompatível com os Livros Santos, uma vez que o
gênero adotado não repugne à santidade e verdade de Deus. Advertiu-o já o
doutor angélico com a sua costumeira perspicácia por estas palavras: "Na
Escritura as coisas divinas nos são apresentadas ao modo usual,
humano".30 Como o Verbo substancial de Deus se fez semelhante aos
homens em tudo "exceto o pecado",31 assim também a palavra de
Deus expressa em línguas humanas assemelhou-se em tudo à linguagem humana,
exceto o erro. Nisto consiste aquela providencial "condescendência" (sinkatábasis)
de Deus, que já são João Crisóstomo exaltou eloqüentemente e que tantas vezes
assegurou encontrar-se nos Livros Santos.32
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