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28. Tudo o que temos dito, veneráveis
irmãos e amados filhos, se vale para todos os tempos, muito mais necessário é
nos lastimosos tempos que atravessamos, quando quase todos os povos e nações se
vêem submergidos num mar de calamidades, quando uma guerra horrível acumula
ruínas sobre ruínas, carnificinas sobre carnificinas, quando com o atear de
ódios implacáveis entre os povos vemos com imensa dor extinto em muitos todo o
sentimento não só de moderação e caridade cristã, mas de simples humanidade. A
essas feridas mortais do consórcio humano quem pode dar remédio senão Aquele a
quem o príncipe dos apóstolos, cheio de amor e confiança, dirigia aquelas
palavras: "Senhor, a quem havemos de ir? Tu tens palavras de vida
eterna".37 A esse misericordiosíssimo Redentor nosso devemos,
pois, com todas as forças, reconduzir todos os homens. Ele é o divino
consolador dos aflitos; ele que ensina a todos, tanto às autoridades como aos
súditos, a verdadeira honradez, a incorrupta justiça, e a generosa caridade.
Ele enfim, e somente ele, que pode ser sólido fundamento e esteio seguro de paz
e tranqüilidade, pois que "ninguém pode lançar outro fundamento além
daquele que está já lançado, e que é Cristo Jesus".38 Deste autor
da salvação, Cristo, tanto será nos homens mais perfeito o conhecimento, tanto
mais intenso o amor, tanto mais fiél a imitação, quanto maior for o entusiasmo
com que se dêem ao conhecimento e à meditação das Sagradas Escrituras,
especialmente do Novo Testamento. Pois como diz o Estridonense: "a ignorância
das Escrituras é ignorância de Cristo";39 e "se há coisa
neste mundo que sustenha o sábio e o convença a permanecer de ânimo sereno em
meio das tribulações e tempestades do mundo, penso que é em primeiro lugar a
meditação e ciência das Escrituras".40 Delas os cansados e
acabrunhados haurirão verdadeiras consolações e força divina para sofrer e
suportar corn paciência as adversidades e desventuras; delas, dos santos
Evangelhos, a todos se mostra Cristo sumo e perfeito exemplar de justiça, de caridade
e de misericórdia; e para todo o gênero humano jorram as fontes da divina
graça, sem a qual, quando desprezada e descurada, nem os povos nem os regedores
dos povos poderão jamais obter ou consolidar a tranqüilidade do estado nem a
concórdia dos espíritos; delas, enfim, aprenderão todos a Cristo, "que é
cabeça de todo o principado e potestade"41 e que "por Deus
foi feito nossa sapiência, justiça, santificação e redenção".42
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