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Pio XII
Doctor mellifluus

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5 - O contemplativo

 

16. Desta divina caridade ninguém falou talvez com tal clareza, elevação e ardor como são Bernardo. "A causa para amar a Deus - assim diz - é o próprio Deus; a medida, amá-lo sem medida".19 "Onde há amor, não há canseira, mas gosto".20 Ele mesmo confessa que o experimentou, quando escreve: "Oh! amor santo e casto! Oh! doce e suave afeto!... Tanto mais doce e suave, porque é todo divino o sentimento que se prova. Experimentá-lo é divinizar-se".21 E noutro lugar: "É melhor para mim, Senhor, abraçar-te na tribulação e estar contigo na fornalha, do que estar sem ti até mesmo no Céu".22 Quando, porém, chegou à suma e perfeita caridade, que o uniu em íntimo conúbio com o próprio Deus, então goza de uma alegria e paz tal que não pode haver outra maior: "Oh! lugar do verdadeiro repouso... em que não se a Deus como que perturbado pela ira e ocupado em cuidados; mas nele se experimenta a sua vontade bondosa, benévola e perfeita. Essa visão não atemoriza, mas afaga; não excita curiosidade inquieta, mas acalma; não cansa os sentidos, mas tranqüiliza. Aqui realmente repousa-se. Deus tranqüilo tranqüilidade em tudo; e vê-lo pacífico é estar em paz".23

17. Todavia esse repouso total não é morte da alma, mas verdadeira vida: "Este sono vital e vigilante ilumina pelo contrário o sentido interior e, sendo repelida a morte, a vida eterna. É deveras um sono, que todavia não adormece, mas eleva. É também morte - não receio dizê-lo - visto que o apóstolo elogiando alguns ainda vivos na carne, assim diz:24 "Estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus".25

18. Esse total repouso do espírito, de que gozamos correspondendo com o nosso ao amor de Deus, e por meio do qual para ele nos voltamos e dirigimos com todo o nosso ser, não nos leva à preguiça nem à inércia, mas a uma álacre, solícita e operosa diligência, com que nos esforçamos por procurar, com a ajuda de Deus, não só a nossa salvação, mas também a dos outros. De fato, tal sublime meditação e contemplação, incitada e estimulada pelo amor divino, "governa os afetos, dirige as ações, corrige os excessos, regula os costumes, aformoseia e põe em ordem a vida, enfim a ciência das coisas divinas e humanas... É ela que distingue o que é confuso, une o que está dividido, recolhe o que está espalhado, investiga o que está escondido, procura a verdade, pondera o que é verossímil e descobre a ficção e o artifício. É ela que preordena o que se deve fazer, reflete sobre o que se fez, de maneira que nada fique na mente por corrigir. É ela que na prosperidade, nas contrariedades quase não as sente; uma é fortaleza, a outra prudência".26




19 De diligendo Deo, c. I, PL 182, 974A.



20 In Cantica, Sermo 85, 8, PL 183,1191D.



21 De diligendo Deo, c.10, 28, PL. 182, 991A



22 In Ps.190, Serm. 17, 4; PL 183, 252C.



23 In Cantica, Serm. 23,16; PL 183, 893AB



24 Cl 3,3.



25 In Cantica, serm. 52, 3; PL 183,1031A.



26 De Consid., I, c. 7, PL 182, 737AB.






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