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Pio XII
Ecclesiae fastos

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5 - O martírio

 

23. Desempenhando com a ajuda de Deus esse cargo de grande responsabilidade, não se deu Bonifácio a um descanso merecido. Mesmo sobrecarregado de cuidados, com o peso dos anos e a saúde abalada por tantas fadigas, preparou-se com ânimo para nova empresa, não menos árdua. Outra vez dirigiu o olhar e o pensamento para a Frísia, essa Frísia que fora a primeira meta das suas viagens apostólicas e o campo de tantos trabalhos posteriores. Mantinha-se ela, sobretudo na parte norte, envolta ainda nas trevas do paganismo; para aí se encaminhou agora de novo com ânimo juvenil, para dar novos filhos a Jesus Cristo e continuar a conquistar povos para a civilização cristã. Ardia no desejo "de, no termo da vida, receber a paga onde inaugurara no princípio o trabalho da pregação e começara a reunir títulos para o prêmio eterno".18 Parecia agora adivinhar o fim próximo ao escrever ao discípulo predileto, o bispo Lulo, e mostrava ao mesmo tempo que não queria esperar a morte na ociosidade: "Desejo realizar o propósito desta viagem; não posso de maneira nenhuma renunciar ao desejo de partir, está próximo o dia do meu fim e avizinha-se o tempo da minha morte; deixando o corpo mortal, subirei ao eterno prêmio. Mas tu, filho caríssimo..., chama sem descanso o povo do abismo do erro, termina a construção da basílicacomeçada de Fulda e nela depõe o meu corpo envelhecido por longos anos de vida"19.

24. Despedindo-se com lágrimas dos seus, com um pequeno número de companheiros "percorreu toda a Frísia, aboliu os ritos pagãos, exterminou os maus costumes do gentilismo, e pregou incansavelmente em toda a parte a palavra de Deus; com grande cuidado construiu Igrejas, destruídos os ídolos dos templos pagãos. Batizou vários milhares de homens, mulheres e crianças".20 Mas na parte setentrional da Frísia, quando ia conferir o sacramento da confirmação a muitos neófitos, lançou-se contra eles de improviso uma horda furiosa de pagãos, ameaçando-os de morte com lanças e espadas. O santo bispo, avançando muito sereno, "não deixou que os seus combatessem, dizendo: 'Deixai, filhos, o combate e abandonai a guerra, porque o testemunho da Escritura nos ensina que não devemos dar o mal pelo mal, mas o bem pelo mal'. É este o dia há tanto tempo desejado, chegou o tempo do nosso fim; tende coragem no Senhor. Sede fortes, não vos deixeis aterrar por aqueles que matam o corpo, mas não podem matar o espírito imortal; alegrai-vos no Senhor e fixai a âncora da vossa esperança em Deus, que depressa vos dará a paga do prêmio eterno e um lugar no reino celeste com os cidadãos do céu, que são os Anjos".21 Animados para o martírio com essas palavras, voltaram todos, suplicantes, o espírito e os olhos para o céu, esperando receber em breve o prêmio eterno. Suportaram o ímpeto dos inimigos, que ensangüentaram aqueles corpos "com um feliz morticínio de santos".22 E Bonifácio, no momento do martírio, "quando estava para ser ferido com a espada, pôs sobre a cabeça o volume do sagrado evangelho para receber nele o golpe do algoz e ter na morte a defesa daquele livro, cuja leitura amara em vida".23

25. Com essa morte gloriosa, que lhe abria seguro o caminho para a eterna bem-aventurança, terminou são Bonifácio o curso da vida, toda dedicada à glória e à salvação do próximo. Os seus despojos finalmente "foram levados para onde ele indicara em vida",24 isto é, para o mosteiro de Fulda, onde os discípulos, entre salmos e lágrimas, lhe deram digna sepultura. Para esse túmulo olharam, e olham ainda hoje com veneração, multidões inúmeras, porque parece que Bonifácio ainda fala àqueles cujos avós ganhou para Jesus Cristo e introduziu na vida e civilização cristã; fala, digamos assim, com o ardor da caridade e piedade, a invicta fortaleza do ânimo, a integridade da , o zelo indefesso até ao fim da vida, com o seu apostolado e a sua morte enobrecida com a palma do martírio.

26. Logo que ele voou desta vida mortal para o céu, começaram todos a exaltar-lhe a santidade e a venerá-lo em particular e em público. Tão depressa se estendeu a fama da sua santidade que na Inglaterra, pouco depois do martírio, já Cutberto, arcebispo de Cantuária, escrevia: "Este varão não só o consideramos amorosamente, mas veneramo-lo também com louvor entre os egrégios e maiores doutores da ortodoxa. Por isso no nosso sínodo geral..., introduzimos o dia natalício dele e dos que sofreram juntamente o martírio, e decretamos celebrar-lhes solenemente a festa todos os anos".25 O mesmo fizeram, desde a antiguidade e com igual ardor, a Alemanha, a França e outras nações.26

 




18 Vita s. Bonifatii, auct. Willibaldo, ed. Levison, p. 46.



19 Ibidem.



20 Ibidem, p. 47. 



21 Ibidem, pp. 49-50.



22 Cf. Ibidem, p. 50; e Vita s. Bonifatii, auct. Otloho, ed. Levison, lib. II, p. 21.



23 Vita s. Bonifatii, auct. Radbodo, ed. Levison, p. 73.



24 Vita s. Bonifatii, auct. Willibaldo, ed. Levison, p. 54.



25 S. Bonifatii Epist., ed. Tangl, epist, 111, p. 240.



26 Cf. Epistolae Lupi Servati, ed. Levillain, t. I (Paris 1927); epist. 5, p. 42.






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