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| Pio XII Evangelii praecones IntraText CT - Texto |
30. Desejamos, além disso, com essa encíclica não só exortar os missionários, mas também esses leigos que "de coração grande e ânimo pronto" (2Mc 1,3) militam nos esquadrões da Ação católica e prestam auxílio aos missionários.
31. Pode-se afirmar que este auxílio dos leigos, que chamamos hoje Ação católica, não faltou desde as origens da Igreja; e mais, que prestou notáveis serviços aos apóstolos e outros propagadores do evangelho e permitiu à religião cristã apreciáveis aumentos. Por isso o apóstolo das gentes menciona Apolo, Lídia, Áquila, Priscila e Filemon e acrescenta, dirigindo-se aos Filipenses: "Peço-te também a ti, generoso colaborador, que ajudes essas que lutaram pelo evangelho, comigo e com Clemente e com os restantes colaboradores meus, cujos nomes estão no livro da vida" (Fl 4,3).
32. Do mesmo modo, é sabido de todos que a doutrina cristã não foi só propagada por bispos e sacerdotes, mas também por funcionários, soldados e simples particulares pelas estradas consulares. Numerosos milhares de fiéis cristãos, cujos nomes não conhecemos hoje, pouco depois de receberem a fé católica, ardendo no desejo de propagar a nova religião, esforçaram-se por abrir o caminho à verdade evangélica; assim se explica que, ao cabo de uns cem anos, já o nome e a virtude cristãs tinham chegado a todas as principais cidades do império romano.
33. S. Justino, Minúcio Félix, Aristides, o cônsul Acílio Glaber, o patrício Flávio Clemente, s. Tarcísio e outros inumeráveis santos e santas mártires, por terem robustecido e fecundado o desenvolvimento da Igreja com os seus trabalhos e o seu sangue, podem se chamar de alguma sorte vanguardistas e precursores da Ação católica. Vem aqui a propósito citar a belíssima frase do autor da epístola a Diogneto, que ainda hoje parece cheia de atualidade: "Os cristãos... habitam as próprias pátrias mas como de passagem..., toda região estrangeira é pátria para eles, e toda pátria lugar de peregrinação".13
34. Sucedendo-se na Idade Média as invasões bárbaras, vemos homens e senhoras nobres e até humildes operários e incansáveis mulheres do povo esforçarem-se sem descanso por ganhar profundamente os seus compatriotas para a religião de Jesus Cristo, por lhes ajustar os costumes, e por, diante do perigo, porem a salvo a religião e o Estado. Junto ao nosso imortal predecessor Leão Magno, que resistiu fortemente a Átila, invasor da Itália, estavam, segundo a tradição, dois consulares romanos. Quando as terríveis hordas dos hunos cercavam Paris, a santa virgem Genoveva, que se deliciava na oração ininterrupta e na penitência rigorosa, com admirável caridade valeu quanto pôde às almas e também aos corpos dos seus concidadãos. Teodolinda, rainha dos lombardos, levou seu povo a abraçar a religião cristã. Na Espanha, o rei Recaredo esforçou-se por reconduzir os súditos da heresia ariana à verdadeira fé. Na França, não só aparecem bispos - como Remígio de Reims, Cesário de Arles, Gregório de Zburs, Eígio de Beauvais e outros muitos que se notabilizaram pela virtude e zelo, mas também rainhas que ensinaram aos ignorantes a verdade cristã, que deram de comer, aliviaram ou reanimaram doentes, famintos e toda a espécie de necessitados: assim, por exemplo, Clotilde tanto aproximou o espírito de Clóvis da religião católica que o levou, afinal, à purificação do batismo; Radegunda e Batilda ocuparam-se dos doentes com a maior caridade e curaram até leprosos. Na Inglaterra, a rainha Berta recebeu o apóstolo daquela nação, s. Agostinho, e persuadiu o marido Edelberto a aceitar de boa vontade os preceitos evangélicos. E quando os Anglo-Saxões, nobres e ínfimos plebeus, homens e mulheres, velhos e novos, receberam a fé cristã, logo, levados pelo certo instinto do amor divino, se ligaram a esta Sé Apostólica com laços apertadíssimos de amor filial, de fidelidade e de respeito.
35. É maravilhoso, também, o espetáculo que apresenta a Alemanha, quando fecundada pelas excursões apostólicas e pelo suor generoso de S. Bonifácio e seus companheiros. Os filhos e filhas desse povo forte e generoso, num grande movimento espiritual, puseram à disposição dos monges, dos sacerdotes e dos bispos uma cooperação zelosa e ativa, para que brilhasse cada vez mais naquelas regiões vastíssimas a luz da verdade evangélica e para que os mandamentos e a virtude cristã mais e mais avançassem, produzindo frutos de salvação.
36. Em tempo nenhum, portanto, deixou a Igreja católica de realizar novos progressos e de levar os povos a maior prosperidade social, e isto, não só pelo incansável trabalho do clero, mas também pela cooperação pedida aos leigos. Assim, todos conhecem a atividade da rainha s. Isabel na Hungria, do rei s. Fernando em Castela e de s. Luís IX em França; com santidade de vida e ação perseverante, comunicaram força renovadora às várias classes da sociedade, fundando instituições benéficas, fazendo chegar a verdadeira religião a toda parte, defendendo valorosamente a Igreja e sobretudo indo a frente de todos pelo exemplo. São conhecidos também os ótimos serviços prestados pelas beneméritas confrarias de leigos na Idade Média; nelas se reuniam os artífices e operários de ambos os sexos, que, embora vivendo no século, não deixavam por isso de ter diante dos olhos um ideal de perfeição evangélica, que procuravam pessoalmente atingir e para o qual se esforçavam, em união com o clero, por orientar a todos os demais.
37. Ora, as condições, que se realizavam nos primeiros tempos da Igreja, reproduzem-se hoje na maioria das regiões missionadas; ou, pelo menos, os problemas que as afligem agora são os mesmos a que noutro tempo e lugar foi preciso encontrar solução. Por isso, é absolutamente necessário que os leigos das missões associem ao apostolado hierárquico do clero a sua atividade incansável, formada nas hostes cerradas da Ação católica. O trabalho dos catequistas é necessário, sem dúvida; mas não menos necessária é a atividade vigilante de outros que, sem pretenderem qualquer paga, mas levados só pelo amor de Deus, se põem à disposição dos missionários, ajudando-os no seu trabalho.
38. Desejamos, portanto, que em toda parte, na medida do possível, se constituam associações católicas de homens e mulheres, de estudantes, de operários, de artífices e de desportistas, e além disso outras organizações e piedosos agrupamentos, que se possam chamar tropas auxiliares dos missionários. Mas, ao fundá-las e ao dar-lhes vida, tenha-se mais conta da honestidade, da virtude e do ardor que do número dos sócios.
39. Deve-se notar também que não há melhor meio para conciliar aos missionários a confiança dos pais e mães de família do que lhes tomar cuidado solícito dos filhos. Estes, orientando o espírito pela verdade cristã e pautando os costumes pela norma da virtude, concorrerão não só para a honra da própria família, mas também para o vigor e brilho de toda a sociedade; e terão freqüentemente o bom papel de restituir o vigor antigo à vida da comunidade cristã, acaso debilitada.
40. Apesar de a Ação católica, como é sabido, dever exercitar principalmente sua atividade em promover obras de apostolado, nada impede os que foram recebidos nos seus quadros de fazerem também parte de associações cujo fim é ajustar a vida social e política aos princípios do evangelho; mais ainda: não só como cidadãos, mas também como católicos, gozam do direito de o fazer; e têm até esse dever.