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Pio XII
Evangelii praecones

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12. Respeito a tudo o que há de bom na civilização e nos costumes dos diferentes povos

 

55. Falta-nos ainda tocar um ponto, que muito desejamos fique bem claro para todos. A Igreja, desde a origem até hoje, sempre seguiu a norma prudentíssima de não permitir que o evangelho destrua, nos vários povos que o recebem, qualquer parcela da bondade e beleza que enriquece a índole e o gênio de cada um. A Igreja, quando civiliza os povos sob inspiração da religião cristã, não procede como quem corta, lança por terra e extermina uma floresta luxuriante, mas sim, como quem enxerta árvores bravas com qualidades escolhidas, para que elas venham a dar frutos mais saborosos e sazonados

56. A natureza humana, apesar de contaminada hereditariamente pelo pecado de Adão, conserva todavia em si alguma coisa naturalmente cristã, 17 a qual, sendo iluminada pela divina luz e alimentada pela graça, se elevará à categoria de virtude perfeita e de vida sobrenatural

57. Por isso, a Igreja católica não desprezou nem lançou fora as doutrinas dos pagãos, mas, pelo contrário, purificou-as de todo erro e impureza, desenvolveu-as, e aperfeiçoou-as com a sabedoria cristã. Assim fez também com as artes e a cultura, que a tão alto grau tinham chegado entre alguns povos: recebeu-as acolhedora, desenvolveu-as com afã e elevou-as a um apogeu talvez nunca atingido. Os costumes particulares dos povos, não os reprimiu violentamente nem as suas instituições tradicionais, mas tudo santificou; e até, embora transformando o espírito e o conteúdo dos dias festivos, soube aplicá-los à celebração das memórias dos mártires e dos sagrados mistérios. A esse respeito, escreve com muita razão s. Basílio: "Como... os tintureiros primeiro preparam o pano e depois o impregnam da cor de púrpura ou qualquer outra, assim nós, para conservarmos fixa e para sempre inapagável a glória da virtude, devemos preparar-nos com os estudos profanos para, depois, chegarmos a possuir a ciência sagrada e revelada: uma vez habituados a suportar o sol refletido na água, atrever-nos-emos a fitar a própria luz... Se é verdade que a vida própria da árvore consiste em produzir fruto abundante a seus tempos, não deixam as folhas de lhe dar beleza e movimento; assim também o fruto primário da alma é a verdade em si mesma, mas não lhe fica mal um revestimento de sabedoria humana, como folhas a darem sombra e realce ao fruto. Por isso se diz que o celebérrimo Moisés, considerado o maior sábio de todos os homens, cultivou primeiro o espírito nas ciências dos egípcios, e só depois chegou à contemplação daquele que é. Coisa semelhante se refere de Daniel: aprendeu primeiro em Babilônia a ciência dos caldeus, antes de penetrar as doutrinas sagradas".18

58. E nós mesmos, na nossa primeira encíclica Summi pontificatus, escrevemos: "Inumeráveis pesquisas e indagações dos pregoeiros da palavra divina, levadas a cabo através dos tempos com sacrifício, dedicação e amor, propuseram-se fazer compreender mais completa e dignamente as civilizações dos vários povos e desenvolver nestes os dotes e valores espirituais para assim tornarem entre eles mais fecunda, assimilável e vital a pregação do evangelho de Cristo. Tudo quanto em tais usos e costumes não está indissoluvelmente ligado a erros religiosos encontrará sempre benévolo exame e será até, quanto possível, protegido e desenvolvido".19

59. No discurso que fizemos no ano de 1944 aos diretores das Pontifícias Obras Missionárias, dissemos entre outras coisas: "O apóstolo é mensageiro do evangelho e pregoeiro de Jesus Cristo. Não tem o encargo de transplantar a civilização especificamente européia para as terras de missões. Mas deve preparar esses povos, que se orgulham às vezes de civilizações milenárias, para acolherem e assimilarem os elementos de vida e de moral cristã, que fácil e naturalmente se adaptam a toda a verdadeira cultura profana e lhe conferem a plena capacidade e força de assegurar e garantir a dignidade e felicidade humanas. Os católicos indígenas embora sejam em primeiro lugar membros da família de Deus e cidadãos do seu reino (Ef 2,19), não deixam contudo de ser também cidadãos da própria pátria terrena".20




17 Cf. Tertuliano., Apologet., c. XVII; PL 1, 377A



18 S. Basílio, Ad Adolescentes 2; PG 31, 567A.



19 AAS 31(1939), p. 429.



20 AAS 36(1944), p. 210






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