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| Pio XII Fulgens radiatur IntraText CT - Texto |
III. ENSINAMENTOS "DA REGRA BENEDITINA" PARA O MUNDO CONTEMPORÂNEO
24. Julgamos, pois, particularmente oportuno que todos, nesta ocorrência centenária, recordem e refletidamente considerem o objeto desta nossa carta, a fim de mais facilmente se prepararem para celebrar e exaltar estes gloriosos fastos da Igreja e abraçar, também, de vontade generosa e eficaz, os ensinamentos que eles encerram.
25. Porque, nem só os velhos tempos tiveram motivos de esperar do santo patriarca e da sua ordem os inumeráveis benefícios da sua ação. Os contemporâneos têm a aprender dele muitas e importantes lições. Em primeiro lugar, os seus próprios filhos, numerosíssimos, aprendam a caminhar corajosamente - o que de resto não duvidamos - na trilha luminosa de seus passos e a assimilar, na prática da vida cotidiana, os princípios de santidade e de virtude que lhes legou. Assim, hão de não só corresponder, por certo com mais rendimento e vontade, ao chamamento divino que seguiram por uma quase espécie de instinto celeste, quando lhes amanheceu na alma a graça da vocação religiosa, mas também, de consciência serena e com tranqüilidade, poderão trabalhar mais eficazmente para a comum utilidade da família cristã.
26. Além disso, qualquer classe social, que se debruce, estudiosa e atentamente, sobre a vida e Regra do santo patriarca, não poderá deixar de lhe sentir o poderoso impulso renovador e de espontaneamente reconhecer que o nosso tempo, oprimido com tantas ruínas e ameaçado de tantos perigos, poderá haurir nessa fonte o preservativo necessário. Antes de mais, recorde-se e maduramente se considere que os princípios augustos da religião, as normas da moral e as bases da sociedade estariam mais seguros e mais firmes; e que, debilitados ou subvertidos estes, tudo o que se prende com a ordem, com a paz, com o progresso dos cidadãos e dos povos, se há de ir, quase necessariamente, desmoronando. Já um espírito pagão, mas culto e inteligente, notou esta verdade, tão belamente demonstrada pela história da Ordem Beneditina: "Vós, pontífices - dizia ele - defendeis mais fortemente a cidade com a religião do que com as muralhas".40 E ainda: "Se abolirem (a religião e a moral), seguir-se-á a insegurança da vida e a desordem; se vier a extinguir-se a piedade para com os deuses, ignoro se a fé, a sociedade humana e a mais excelente de todas as virtudes, a justiça, poderão ainda subsistir".41
27. Portanto, é absolutamente fundamental prestar culto ao Nume supremo e obedecer, pública e particularmente, às suas leis santíssimas. Sem elas, poder algum humano terá jamais freios para coibir e domar o conflito das paixões públicas. Pertence exclusivamente à religião o privilégio de dar estabilidade e firmeza aos princípios do honesto e do justo.
28. Mas há ainda mais, que nos adverte e ensina o Patriarca santíssimo, e de que o nosso tempo anda sobremaneira indigente; e vem a ser que, além do culto de adoração e honra que devemos a Deus, o devemos amar com amor de filhos. E como o estado atual deste amor é realmente de miserável decadência e entorpecimento, não admira que os homens, mais preocupados com o que é da terra do que com o que é do céu, desavenham em contendas, donde se originam guerras e ódios implacáveis. De fato, sendo Deus o autor da nossa vida e provindo-nos dele benefícios sem-conta, é dever de todos nós retribuir-lhe com perfeito amor, e consagrar-lhe integralmente tudo o que somos e possuímos. Deste amor divino há de derivar, como de nascente, a caridade fraterna para com todos os homens, independentemente da raça, nacionalidade ou classe, como se realmente fôssemos todos irmãos em Jesus Cristo. De modo que de todos os povos e classes se forme uma única família cristã, que o egoísmo dos interesses individuais não dissolva, mas a mútua conjugação de esforços confirme e solidarize. Se os princípios de que outrora se valeu Bento para reconstituir e morigerar a sociedade caída e conturbada do seu tempo, fossem hoje largamente aplicados, não temos dúvida de que também o nosso século se havia de reerguer do pavoroso naufrágio, indenizar dos danos que sofreu nos homens e nas coisas, curar-se, enfim, dos imensos males de que está prostrado.
29. Sabeis também, veneráveis irmãos, que o glorioso legislador nos ensina ainda - o que é hoje, afinal, geralmente aceite, mas que nem sempre na prática tem tido a aplicação conveniente - a saber: que o trabalho humano, longe de ser desprovido de dignidade, molesto e odioso, é, pelo contrário, uma fonte de alegria, de felicidade e de nobreza. Uma vida operosa, cheia, como se diz, na lide incessante do campo, da oficina ou do estudo, não deprime o espírito, nobilita-o; não escraviza, dá-nos, pelo contrário, a sensação forte da superioridade, do domínio sobre quanto nos rodeia e em que nos ocupamos. Também Jesus Cristo, adentro das paredes da casa paterna, se dignou trabalhar na oficina de seu pai, santificando, deste modo, com seu divino suor, o esforço do homem. Advirtam, pois, todos os que, para ganhar o pão de cada dia, se entregam a faina rude da oficina ou da fábrica, ao labor da pena ou da cátedra, que é nobilíssima a sua condição, que lhes faculta os cômodos duma vida honrada e contribui para o bem-estar da comunidade civil. Façam-no, todavia, como queria o santo Patriarca Bento, com a mente e o coração elevados para o céu, voluntariamente, amorosamente. Façam-no, ainda quando defendem os seus direitos legítimos, não com pesar do bem alheio, em greves e revoltas, mas com paz, com ordem. Recordem-se da sentença do Senhor: "Comerás o pão no suor do teu rosto" (Gn 3,19) e pensem que é preceito para todos de expiação e de obediência.
30. Não esqueçamos nunca, sobretudo, que as coisas materiais e transitórias em que nos ocupamos pelo vigor do nosso espírito ou do nosso braço, devem ser incentivo de adiantarmos, todos os dias, mais um passo na conquista das celestes e permanentes, únicas em que poderemos encontrar a paz verdadeira, a quietação imperturbável, a felicidade eterna.