Índice | Palavras: Alfabética - Freqüência - Invertidas - Tamanho - Estatísticas | Ajuda | Biblioteca IntraText
João Paulo II
Pastores gregis

IntraText CT - Texto

Precedente - Sucessivo

Clicar aqui para ver os links de concordâncias

CAPÍTULO II

A VIDA ESPIRITUAL DO BISPO

«  Constituiu Doze para andarem com Ele  » (Mc 3, 14)

11. Pelo mesmo acto de amor com que livremente os constituiu Apóstolos, Jesus chama os Doze a compartilhar a sua própria vida. Também esta partilha, que é comunhão de sentimentos e desejos, é uma exigência inscrita na participação deles na própria missão de Cristo. Não se devem reduzir as funções do Bispo a uma tarefa meramente organizacional. Precisamente para evitar este risco, tanto os documentos preparatórios do Sínodo como muitas intervenções na assembleia dos padres sinodais insistiram sobre o que comporta, na vida pessoal do Bispo e no exercício do ministério que lhe está confiado, a realidade do episcopado como plenitude do sacramento da Ordem, nos seus fundamentos teológicos, cristológicos e pneumatológicos.

À santificação objectiva, que por obra de Cristo tem lugar no sacramento mediante a comunicação do Espírito, deve corresponder a santidade subjectiva, na qual o Bispo, com o apoio da graça, há-de crescer cada vez mais através do exercício do ministério. A transformação ontológica realizada pela consagração como conformação a Cristo, requer um estilo de vida que manifeste o «  andar com Ele  ». Por isso, na aula do Sínodo, várias vezes se insistiu sobre a caridade pastoral como fruto quer do carácter impresso pelo sacramento quer da graça própria deste. Lá se disse que a caridade é como a alma do ministério do Bispo, que fica envolvido num dinamismo de pro-existentia pastoral, que o impele a viver, como Cristo Bom Pastor, para o Pai e para os outros, na entrega diária de si mesmo.

É sobretudo no exercício do seu ministério, inspirado pela imitação da caridade do Bom Pastor, que o Bispo é chamado a santificar-se e a santificar, tendo como princípio unificador a contemplação do rosto de Cristo e o anúncio do evangelho da salvação.48   Por conseguinte, a sua espiritualidade recebe orientações e estímulos, por um lado, dos sacramentos do Baptismo e da Confirmação e, por outro, da própria Ordenação episcopal que o empenha a viver, na fé, na esperança e na caridade, o seu ministério de evangelizador, liturgista e guia da comunidade. E assim a espiritualidade do Bispo há-de ser também uma espiritualidade eclesial, porque tudo na sua vida está orientado para a amorosa edificação da Santa Igreja.

Isto exige no Bispo uma atitude de serviço marcada por força de ânimo, coragem apostólica e confiante abandono à acção interior do Espírito. Portanto esforçar-se-á por assumir um estilo de vida em que imite a kénosis de Cristo servo, pobre e humilde, de modo que o exercício do ministério pastoral seja nele um reflexo coerente de Jesus, Servo de Deus, e o leve a aproximar-se como Ele de todos, do maior ao mais pequeno. Enfim, verifica-se mais uma vez, numa espécie de reciprocidade, que o exercício fiel e amoroso do ministério santifica o Bispo e torna-o, no plano subjectivo, cada vez mais conforme à riqueza ontológica de santidade que o sacramento nele colocou.

No entanto, a santidade pessoal do Bispo não se limita apenas ao nível subjectivo, já que, na sua eficácia, reverte sempre em benefício dos fiéis confiados à sua solicitude pastoral. Na prática da caridade, enquanto conteúdo do ministério pastoral recebido, o Bispo torna-se sinal de Cristo e adquire aquela credibilidade moral de que precisa o exercício da autoridade jurídica para poder incidir eficazmente sobre o ambiente. De facto, se o múnus episcopal não assenta sobre o testemunho da santidade manifestada na caridade pastoral, na humildade e na simplicidade de vida, acaba por se reduzir a um papel quase só funcional e perde inevitavelmente credibilidade junto do clero e dos fiéis.

Vocação à santidade na Igreja do nosso tempo

12. Uma imagem bíblica, que parece particularmente adequada para ilustrar a figura do Bispo como amigo de Deus, pastor e guia do povo, é a figura de Moisés. Fixando-o, o Bispo pode tirar inspiração do seu ser e agir de pastor, escolhido e enviado pelo Senhor, seguindo corajosamente à frente do seu povo a caminho da terra prometida, intérprete fiel da palavra e da lei do Deus vivo, mediador da Aliança, insistente e confiante na oração pela sua gente. Tal como Moisés que, depois do colóquio com o Senhor na montanha santa, voltou para o meio do seu povo com o rosto resplandecente (cf. Ex 34, 29-30), assim também o Bispo só poderá mostrar entre os seus irmãos os sinais de ser pai, irmão e amigo, se tiver entrado na nuvem obscura e luminosa do mistério do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Iluminado pela luz da Santíssima Trindade, o Bispo será sinal da bondade misericordiosa do Pai, imagem viva da caridade do Filho, transparência humana do Espírito, consagrado e enviado para guiar o Povo de Deus pelas sendas do tempo na sua peregrinação para a eternidade.

Os padres sinodais puseram em evidência a importância do empenho espiritual na vida, no ministério e no caminho do Bispo. Eu próprio assinalei esta prioridade em sintonia com as exigências da vida da Igreja e o apelo do Espírito Santo, que nestes anos tem recordado a todos o primado da graça, a generalizada exigência de espiritualidade, a urgência de testemunhar a santidade.

O apelo à espiritualidade deriva da referência à acção do Espírito Santo na história da salvação. Esta sua presença é activa e dinâmica, profética e missionária. O dom da plenitude do Espírito Santo, que o Bispo recebe na Ordenação Episcopal, é um significativo e premente apelo para favorecer a acção d'Ele na comunhão eclesial e na missão universal.

Celebrada depois do Grande Jubileu do ano 2000, a assembleia sinodal assumiu desde o início o projecto duma vida santa, que eu mesmo indiquei à Igreja inteira: «  O horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral é a santidade. (...) Terminado o Jubileu, volta-se ao caminho ordinário, mas apontar a santidade permanece de forma mais evidente uma urgência da pastoral  ».49   A recepção entusiasta e generosa deste meu apelo para se colocar em primeiro lugar a vocação à santidade foi a atmosfera em que se desenrolaram os trabalhos sinodais e o clima que, de certa forma, unificou as intervenções e reflexões dos padres participantes. Estes sentiam ecoar nos seus corações a seguinte advertência de S. Gregório Nazianzeno: «  Temos de começar por nos purificar, antes de purificarmos os outros; temos de ser instruídos, para podermos instruir; temos de nos tornar luz para alumiar, de nos aproximar de Deus para podermos aproximar d'Ele os outros, ser santos para santificar  ».50 

Por este motivo, várias vezes ressoou, na assembleia sinodal, o convite a individuar com clareza a especificidade «  episcopal  » do caminho de santidade do Bispo. Esta terá de ser sempre uma santidade vivida com o povo e para o povo, numa comunhão que se torne estímulo e mútua edificação na caridade. E não se trata de exigências secundárias ou marginais; de facto, é precisamente a vida espiritual do Bispo que favorece a fecundidade da sua obra pastoral. Porventura não é na meditação assídua do mistério de Cristo, na contemplação apaixonada do seu Rosto, na imitação generosa da vida do Bom Pastor que se encontra o fundamento de qualquer pastoral eficaz? Se é verdade que o nosso tempo se caracteriza por contínuo movimento e frequente agitação, com o risco de cair-se facilmente no «  fazer por fazer  », então o Bispo deve ser o primeiro a mostrar, com o exemplo da sua vida, que é preciso restabelecer o primado do «  ser  » sobre o «  fazer  » e, mais ainda, o primado da graça, que, segundo a perspectiva cristã da vida, é também princípio essencial para uma «  programação  » do ministério pastoral.51 

O caminho espiritual do Bispo

13. Um Bispo só pode considerar-se verdadeiro ministro da comunhão e da esperança para o povo santo de Deus, quando caminhar na presença do Senhor. Na realidade, não é possível estar ao serviço dos homens, sem primeiro serem «  servos de Deus  ». E não podem ser servos de Deus, se não forem «  homens de Deus  ». Por isso, na homilia da abertura do Sínodo, afirmei: «  O Pastor deve ser homem de Deus; a sua vida e o seu ministério estão inteiramente sob a sua glória divina, recebendo luz e vigor do mistério sublime de Deus  ».52 

Para o Bispo, a vocação à santidade está inscrita no próprio acontecimento sacramental que deu origem ao seu ministério, ou seja, a Ordenação Episcopal. O antigo Eucológio de Serapião formula a invocação ritual da consagração nestes termos: «  Deus de verdade, fazei do vosso servidor um Bispo vigoroso, um Bispo santo na sucessão dos santos Apóstolos  ».53   Todavia, dado que a Ordenação Episcopal não infunde a perfeição das virtudes, «  o Bispo é chamado a prosseguir o seu caminho de perfeição com maior intensidade para chegar à estatura de Cristo, Homem perfeito  ».54 

A própria índole cristológica e trinitária do seu mistério e ministério exige do Bispo um caminho de santidade, que consiste no crescimento incessante para uma maturidade espiritual e apostólica cada vez mais profunda, marcada pelo primado da caridade pastoral; caminho este vivido evidentemente em união com o seu povo, num itinerário que é simultaneamente pessoal e comunitário à semelhança da própria vida da Igreja. Mas neste caminho, o Bispo torna-se, em íntima comunhão com Cristo e atenta docilidade ao Espírito, testemunha, modelo, promotor e animador. Assim o exprime também a lei canónica: «  O Bispo diocesano, lembrado da obrigação que tem de dar exemplo de santidade na caridade, humildade e simplicidade de vida, esforce-se com todo o empenho por promover a santidade, segundo a vocação própria de cada um, e já que é o principal dispensador dos mistérios de Deus, empenhe-se sempre em que os fiéis confiados aos seus cuidados cresçam na graça pela celebração dos sacramentos e conheçam e vivam o mistério pascal  ».55 

O caminho espiritual do Bispo, como aliás o de todo o fiel cristão, tem sem dúvida a sua raiz na graça sacramental do Baptismo e da Confirmação. Esta graça irmana-o com todos os fiéis, pois, como observa o Concílio Vaticano II, «  os cristãos de qualquer estado ou ordem são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade  ».56   Aqui se aplica de modo especial a afirmação bem conhecida de Santo Agostinho, cheia de realismo e sabedoria sobrenatural: «  Atemoriza-me o que sou para vós; consola-me o que sou convosco. Pois para vós sou Bispo; convosco sou cristão. Aquilo é um dever; isto, uma graça. O primeiro é um perigo; o segundo, salvação  ».57   Em virtude da caridade pastoral, porém, o encargo torna-se serviço, e o perigo transforma-se em oportunidade de crescimento e maturação. O ministério episcopal não é fonte de santidade apenas para os outros, mas é já motivo de santificação para aquele que deixa passar, através do próprio coração e vida, a caridade de Deus.

Os padres sinodais compendiaram algumas exigências deste caminho. Antes de mais nada, recordaram o carácter baptismal e crismal que, desde o princípio da existência cristã e por meio das virtudes teologais, torna capaz de acreditar em Deus, esperar n'Ele e amá-Lo. O Espírito Santo, por sua vez, infunde os seus dons, favorecendo o crescimento no bem através do exercício das virtudes morais que concretizam, também a nível humano, a vida espiritual.58   Em virtude do Baptismo recebido, o Bispo, como todo o cristão, participa da espiritualidade que se baseia na incorporação em Cristo e se exprime em segui-Lo segundo o Evangelho. Por isso, partilha a vocação de todos os fiéis à santidade. Consequentemente deve cultivar uma vida de oração e fé profunda, colocando em Deus toda a sua confiança, dando testemunho do Evangelho em dócil obediência às sugestões do Espírito Santo e conservando uma particular e filial devoção à Virgem Maria, que é mestra perfeita de vida espiritual.59 

Deste modo, a espiritualidade do Bispo há-de ser uma espiritualidade de comunhão vivida em sintonia com todos os outros baptizados, filhos juntamente com ele do único Pai no céu e da única Mãe na terra, a santa Igreja. Como todos os crentes em Cristo, ele tem necessidade de nutrir a sua vida espiritual com a palavra viva e eficaz do Evangelho e com o pão vivo da sagrada Eucaristia, alimento de vida eterna. Devido à sua fragilidade humana, também o Bispo é chamado a recorrer, com frequência e ritmo regular, ao sacramento da Penitência para obter o dom daquela misericórdia de que foi feito ministro também. Assim, consciente da sua fraqueza humana e dos próprios pecados, cada Bispo, juntamente com os seus sacerdotes, viva antes de mais nada em proveito próprio o sacramento da Reconciliação, como uma exigência profunda e uma graça incessantemente almejada, para dar novo impulso ao próprio empenho de santificação no exercício do ministério. Deste modo, ele exprime, visivelmente também, o mistério duma Igreja em si mesma santa, mas composta também de pecadores necessitados de ser perdoados.

Unido a todos os sacerdotes, mas obviamente em especial comunhão com os sacerdotes do presbitério diocesano, o Bispo esforçar-se-á por percorrer um caminho específico de espiritualidade. Na realidade, é chamado à santidade ainda por um novo título, que deriva das Ordens Sacras. Por isso, o Bispo vive de fé, esperança e caridade, enquanto é ministro da palavra do Senhor, da santificação e do progresso espiritual do Povo de Deus. Deve ser santo, porque tem de servir a Igreja como mestre, santificador e guia. Enquanto tal, deve também amar profunda e intensamente a Igreja. Todo o Bispo é configurado a Cristo para amar a Igreja com o amor de Cristo esposo, e para ser ministro da sua unidade na Igreja, isto é, para fazer da Igreja «  um povo unido pela unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo  ».60 

A espiritualidade específica do Bispo, como diversas vezes assinalaram os padres sinodais, fica ainda mais enriquecida com o suplemento de graça inerente à plenitude do sacerdócio que lhe é conferida no momento da Ordenação. Enquanto pastor do rebanho e servidor do Evangelho de Jesus Cristo na esperança, o Bispo deve espelhar e quase fazer transparecer em si mesmo a própria pessoa de Cristo, Pastor supremo. No Pontifical Romano, este dever é explicitamente referido nos seguintes termos: «  Recebe a mitra e brilhe em ti o esplendor da santidade, para que, ao aparecer o Príncipe dos pastores, mereças receber a coroa imperecível da glória  ».61 

Por isso, o Bispo tem necessidade constante da graça de Deus, que reforça e aperfeiçoa a sua natureza humana. Ele pode afirmar com o apóstolo Paulo: «  A nossa capacidade vem de Deus. Ele é que nos fez capazes de sermos ministros de uma nova aliança  » (2 Cor 3, 5-6). Há, pois, que sublinhá-lo: o ministério apostólico é uma fonte de espiritualidade para o Bispo, que daí deve haurir os recursos espirituais que o façam crescer na santidade e lhe permitam descobrir a acção do Espírito Santo no Povo de Deus confiado às suas solicitudes pastorais.62 

Nesta perspectiva, o caminho espiritual do Bispo coincide com a própria caridade pastoral, que justamente deve ser considerada a alma do seu apostolado, tal como o é também do apostolado do presbítero e do diácono. Não se trata apenas de uma existentia, mas de uma pro-existentia, isto é, de uma vida que se inspira no modelo supremo, Cristo Senhor, consumando-se inteiramente na adoração do Pai e no serviço dos irmãos. A este propósito, afirma justamente o Concílio Vaticano II que os pastores, à imagem de Cristo, hão-de desempenhar santa e zelosamente, com humildade e fortaleza, o próprio ministério, o qual, «  assim cumprido, também para eles será um sublime meio de santificação  ».63   Nenhum Bispo pode ignorar que, no vértice da santidade, permanece Cristo Crucificado em sua suprema doação ao Pai e aos irmãos no Espírito Santo. Por isso, a configuração a Cristo e a participação nos seus sofrimentos (cf. 1 Ped 4, 15) torna-se a estrada mestra da santidade do Bispo no meio do seu povo.

Maria, Mãe da esperança e mestra de vida espiritual

14. Há-de servir de sustentáculo à vida espiritual do Bispo também a presença materna da Virgem Maria, invocada pela Igreja como Mater spei et spes nostra. Assim, o Bispo acalentará uma devoção autêntica e filial a Maria, sentindo-se chamado a assumir o seu fiat, a viver e actualizar em cada dia a entrega que Jesus fez de Maria, quando Ela estava de pé junto à Cruz, ao Discípulo e do Discípulo amado a Maria (cf. Jo 19, 26-27). De igual modo, o Bispo é chamado a reproduzir a oração unânime e perseverante dos discípulos e apóstolos do Filho com a Virgem Mãe, quando se preparavam para o Pentecostes. Neste ícone da Igreja nascente, exprime-se o vínculo indissolúvel entre Maria e os sucessores dos Apóstolos (cf. Act 1, 14).

Por conseguinte, o Bispo encontrará na santa Mãe de Deus uma mestra na escuta e cumprimento solícito da Palavra de Deus, no discipulado fiel ao único Mestre, na firmeza da fé, na esperança jubilosa e na ardente caridade. À semelhança de Maria, «  memória  » da encarnação do Verbo na primeira comunidade cristã, o Bispo será guardião e transmissor da Tradição viva da Igreja, em comunhão com todos os outros Bispos, em união e sob a autoridade do Sucessor de Pedro.

A sólida devoção mariana do Bispo adoptará como referência constante a Liturgia, onde a Virgem tem uma presença particular na celebração dos mistérios da salvação e é, para toda a Igreja, modelo exemplar de escuta e de oração, de oferta e de maternidade espiritual. Mais ainda, será missão do Bispo fazer com que a Liturgia se revele sempre «  como “forma exemplar”, fonte de inspiração, ponto constante de referência e meta última  » para a piedade mariana do Povo de Deus.64   Sem negar este princípio, o Bispo alimentará a sua piedade mariana, pessoal e comunitária, também com as práticas de piedade aprovadas e recomendadas pela Igreja, especialmente com a reza daquele compêndio do Evangelho que é o santo Rosário. Experimentado nesta oração, toda ela centrada na contemplação dos factos salvíficos da vida de Cristo, a que esteve intimamente associada a sua santa Mãe, cada Bispo é convidado a ser também solícito promotor da mesma.65 

Confiar-se à Palavra

15. A assembleia do Sínodo dos Bispos indicou alguns meios necessários para alimentar e fazer crescer a própria vida espiritual.66   Entre eles, ocupa o primeiro lugar a leitura e a meditação da Palavra de Deus. Cada Bispo deverá sempre confiar-se, e sentir-se tal, «  a Deus e à palavra da sua graça que tem o poder de construir o edifício e de conceder parte na herança com todos os santificados  » (Act 20, 32). Por isso, antes de ser transmissor da Palavra, o Bispo, com os seus sacerdotes e como qualquer fiel, antes como a própria Igreja,67   deve ser ouvinte da Palavra. Deve de certo modo estar «  dentro  » da Palavra, para deixar-se guardar e nutrir dela como de um ventre materno. O Bispo repete com Santo Inácio de Antioquia: «  Confio no Evangelho como na Carne de Cristo  ».68   Por isso, cada Bispo recorde-se sempre da conhecida advertência de S. Jerónimo, retomada aliás pelo Concílio Vaticano II: «  A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo  ».69   Com efeito, não há primado da santidade sem escuta da Palavra de Deus, que é guia e alimento da santidade.

Confiar-se à Palavra de Deus e guardá-la, como a Virgem Maria que foi Virgo audiens,70   comporta pôr em prática alguns auxílios que a tradição e a experiência espiritual da Igreja nunca deixaram de sugerir. Trata-se, em primeiro lugar, da leitura pessoal frequente e do estudo atento e assíduo da Sagrada Escritura. Um Bispo será externamente vão pregador da Palavra, se primeiro não a tiver ouvido dentro.71   Sem o contacto frequente com a Sagrada Escritura, seria também ministro pouco credível da esperança, se é verdade – como recorda S. Paulo – que, «  pela constância e consolação que provêm das Escrituras, possuímos a esperança  » (Rom 15, 4). Permanece válido, portanto, o que escreveu Orígenes: «  São estas as duas actividades do Pontífice: ou aprender de Deus, lendo as Escrituras divinas e meditando-as repetidamente, ou ensinar o povo. Mas, ensine aquilo que ele mesmo aprendeu de Deus  ».72 

O Sínodo lembrou a importância que tem a lectio e a meditatio da Palavra de Deus na vida dos Pastores e no seu ministério ao serviço da comunidade. Como escrevi na carta apostólica Novo millennio ineunte, «  é necessário que a escuta da Palavra se torne um encontro vital, segundo a antiga e sempre válida tradição da lectio divina: esta permite ler o texto bíblico como palavra viva que interpela, orienta, plasma a existência  ».73   No período da meditação e da lectio, o coração, que já acolheu a Palavra de Deus, abre-se à contemplação do agir de Deus e, consequentemente, à conversão dos pensamentos e da vida a Ele, acompanhada pela súplica do seu perdão e da sua graça.

Alimentar-se da Eucaristia

16. Da mesma forma que o mistério pascal está no centro da vida e missão do Bom Pastor, assim a Eucaristia constitui o centro da vida e missão do Bispo, e também de cada sacerdote.

Pela celebração diária da santa Missa, oferece-se a si próprio juntamente com Cristo. Quando esta celebração se realiza na Catedral ou noutras igrejas, sobretudo paroquiais, com o concurso e a participação activa dos fiéis, então o Bispo aparece à vista de todos como o que verdadeiramente é, ou seja, Sacerdos et Pontifex, porque age em nome de Cristo e com a força do seu Espírito, e como o hiereus, o sacerdote santo, ocupado na realização dos sagrados mistérios do altar, que anuncia e explica através da pregação.74 

O amor do Bispo pela sagrada Eucaristia manifesta-se também quando, durante o dia, dedica uma parte razoavelmente longa do próprio tempo à adoração diante do Sacrário. Aqui abre ao Senhor a sua alma, para ficar completamente permeada e moldada pela caridade comunicada na Cruz pelo grande Pastor das ovelhas, que por elas derramou o seu sangue e deu a própria vida. A Ele ergue também a sua oração, continuando a interceder pelas ovelhas que lhe foram confiadas.

 

A oração e a Liturgia das Horas

17. O segundo meio indicado pelos padres sinodais é a oração, e de modo especial a que se eleva ao Senhor na celebração da Liturgia das Horas, que é especificamente e sempre uma oração da comunidade cristã em nome de Cristo e sob a guia do Espírito.

A oração é em si mesma uma particular obrigação para um Bispo e para quantos «  tiveram o dom da vocação a uma vida de especial consagração: esta, por sua natureza, torna-os mais disponíveis para a experiência contemplativa  ».75   O Bispo não se pode esquecer que é sucessor daqueles Apóstolos que foram eleitos por Cristo primariamente «  para andarem com Ele  » (Mc 3, 14) e que, nos inícios da sua missão, fizeram uma solene declaração que é um programa de vida: «  Quanto a nós, entregar-nos-emos assiduamente à oração e ao serviço da palavra  » (Act 6, 4). Por isso, o Bispo só conseguirá ser um mestre de oração para os fiéis, se puder contar com a própria experiência pessoal de diálogo com Deus. Há-de poder a todo o momento repetir a Deus estas palavras do Salmista: «  Na vossa palavra, pus a minha esperança  » (Sal 119/118, 114). É precisamente da oração que ele pode receber a esperança com que deve, por assim dizer, contagiar os fiéis. De facto, a oração é o lugar privilegiado, onde se manifesta e alimenta a esperança, porque aquela, na expressão de S. Tomás de Aquino, é a «  intérprete da esperança  ».76 

A oração pessoal do Bispo há-de ser de modo muito especial uma oração tipicamente «  apostólica  », isto é, apresentada ao Pai como intercessão pelas necessidades do povo que lhe está confiado. Segundo o Pontifical Romano, esta é a última promessa do eleito ao episcopado, antes de se proceder à imposição das mãos: «  Queres perseverar na oração a Deus Pai todo-poderoso em favor do povo santo e exercer o sumo sacerdócio com toda a fidelidade?  ».77   De modo muito particular, o Bispo reza pela santidade dos seus sacerdotes, pelas vocações ao ministério ordenado e à vida consagrada, para que na Igreja se inflame cada vez mais o zelo missionário e apostólico.

Depois quanto à Liturgia das Horas, destinada a consagrar e orientar o arco inteiro da jornada por meio do louvor a Deus, como não recordar algumas expressões magníficas do Concílio? «  Quando são os sacerdotes a cantar este admirável cântico de louvor, ou outros para tal deputados pela Igreja, ou os fiéis quando rezam juntamente com o sacerdote segundo as formas aprovadas, então é verdadeiramente a voz da Esposa que fala com o Esposo ou, melhor, a oração que Cristo, unido ao seu Corpo, eleva ao Pai. Todos os que rezam assim, cumprem, por um lado, a obrigação própria da Igreja, e, por outro, participam na imensa honra da Esposa de Cristo, porque estão em nome da Igreja, diante do trono de Deus, a louvar o Senhor  ».78   Escrevendo sobre a oração do Ofício Divino, Paulo VI, meu predecessor de veneranda memória, afirmava que é «  oração da Igreja local  », na qual se exprime «  a verdadeira natureza da Igreja orante  ».79   Na consecratio temporis, que a Liturgia das Horas realiza, concretiza-se aquele laus perennis que é antecipação e prefiguração da Liturgia celeste, vínculo de união com os anjos e os santos que glorificam eternamente o nome de Deus. Assim, um Bispo apresenta-se e realiza-se como homem de esperança na medida em que se insere no dinamismo escatológico da oração do Saltério. Nos Salmos, ressoa a Vox sponsæ que invoca o Esposo.

Por isso, cada Bispo ora com o seu povo e ora pelo seu povo. Todavia, ele é também edificado e auxiliado pela oração dos seus fiéis: sacerdotes, diáconos, pessoas de vida consagrada e leigos de todas as idades. No meio deles, o Bispo é educador e promotor da oração. Não só transmite o que contemplou, mas abre aos cristãos o próprio caminho da contemplação. O conhecido lema contemplata aliis tradere torna-se assim contemplationem aliis tradere.

A senda dos conselhos evangélicos e das bem-aventuranças

18. A todos os seus discípulos, de modo especial àqueles que já durante a sua vida terrena quiserem segui-Lo mais de perto à maneira dos Apóstolos, o Senhor propõe o caminho dos conselhos evangélicos. Para além de serem um dom da Santíssima Trindade à Igreja, os conselhos constituem um reflexo da vida trinitária no crente; 80   e são-no de modo particular no Bispo, o qual, como sucessor dos Apóstolos, é chamado a seguir Cristo pela estrada da perfeição da caridade. Por isso, é um consagrado como Jesus. A sua vida é dependência radical d'Ele e total transparência d'Ele diante da Igreja e do mundo. Na vida do Bispo deve resplandecer a vida de Jesus e, consequentemente, a sua obediência ao Pai até à morte e morte de cruz (cf. Fil 2, 8), o seu amor casto e virginal, a sua pobreza que é liberdade absoluta face aos bens terrenos.

Deste modo os Bispos, com o seu exemplo, poderão guiar não só aqueles que, na Igreja, foram chamados a seguir Cristo na vida consagrada, mas também os presbíteros, a quem é proposta igualmente a radicalidade da santidade segundo o espírito dos conselhos evangélicos. Aliás, tal radicalidade tem a ver com todos os fiéis, mesmo os leigos, porque «  é uma exigência fundamental e irrecusável, que brota do apelo de Cristo a segui-Lo e imitá-Lo, em virtude da íntima comunhão de vida com Ele operada pelo Espírito  ».81 

Em suma, os fiéis devem poder contemplar, no rosto do Bispo, aquelas qualidades que são dom da graça e que nas bem-aventuranças constituem quase o auto-retrato de Cristo: o rosto da pobreza, da mansidão e da paixão pela justiça; o rosto misericordioso do Pai e do homem pacífico e pacificador; o rosto da pureza de quem constante e unicamente contempla a Deus. Os fiéis hão-de poder ver, no seu Bispo, o rosto também daquele que continua a compaixão de Cristo pelos atribulados e às vezes, como sucedeu na história e acontece ainda hoje, o rosto cheio de fortaleza e alegria interior de quem é perseguido por causa da verdade do Evangelho.

A virtude da obediência

19. Revestido destes traços tão humanos de Jesus, o Bispo torna-se modelo e promotor também duma espiritualidade de comunhão, orientada com vigilante cuidado para construir a Igreja, de tal modo que tudo, palavras e obras, seja realizado sob o signo da submissão filial, em Cristo e no Espírito, ao desígnio amoroso do Pai. Enquanto mestre de santidade e ministro da santificação do seu povo, o Bispo é efectivamente chamado a cumprir fielmente a vontade do Pai. A sua obediência deve ser vivida tendo por modelo – e não poderia ser doutro modo – a própria obediência de Cristo, que várias vezes afirmou ter descido do Céu, não para fazer a sua vontade, mas a d'Aquele que O enviou (cf. Jo 6, 38; 8, 29; Fil 2, 7-8).

Seguindo as pegadas de Jesus, o Bispo é obediente ao Evangelho e à Tradição da Igreja, consegue ler os sinais dos tempos e reconhecer a voz do Espírito Santo no ministério petrino e na colegialidade episcopal. Na Exortação Apostólica Pastores dabo vobis, pus em evidência o carácter apostólico, comunitário e pastoral da obediência presbiteral.82   Obviamente todas estas características se encontram de modo mais saliente na obediência do Bispo. De facto, a plenitude do sacramento da Ordem, que recebeu, coloca-o numa relação especial com o Sucessor de Pedro, com os membros do Colégio Episcopal e com a sua própria Igreja particular. Deve sentir a obrigação de viver intensamente estas relações com o Papa e com os outros Bispos num vínculo íntimo de unidade e colaboração, correspondendo assim ao desígnio divino que quis unir inseparavelmente os Apóstolos ao redor de Pedro. Esta comunhão hierárquica do Bispo com o Sumo Pontífice reforça a sua capacidade de, em virtude do sacramento da Ordem recebido, tornar presente Cristo Jesus, Cabeça invisível de toda a Igreja.

Ao aspecto apostólico da obediência não pode deixar de juntar-se também o aspecto comunitário, enquanto o episcopado é, por sua natureza, «  uno e indiviso  ».83   Em virtude deste carácter comunitário, o Bispo é chamado a viver a sua obediência, vencendo toda a tentação individualista e assumindo, no conjunto da missão do Colégio Episcopal, a solicitude pelo bem de toda a Igreja.

Como modelo de escuta, o Bispo estará atento de igual modo a individuar, na oração e no discernimento, a vontade de Deus através daquilo que o Espírito diz à Igreja. Exercendo evangelicamente a sua autoridade, conseguirá dialogar com os colaboradores e os fiéis para fazer crescer eficazmente a mútua concordância.84   Isso permitir-lhe-á valorizar pastoralmente a dignidade e responsabilidade de cada membro do povo de Deus, favorecendo, com equilíbrio e serenidade, o espírito de iniciativa de cada um. Com efeito, os fiéis devem ser ajudados a crescer para uma obediência responsável que os torne activos no plano pastoral.85   A tal respeito, continua a ser actual a exortação que Santo Inácio de Antioquia dirigia a Policarpo: «  Nada se faça sem o teu consentimento, e tu não faças nada sem Deus  ».86 

O espírito e a prática da pobreza no Bispo

20. Os padres sinodais recolheram, como sinal de sintonia colegial, o apelo, que lancei na liturgia de abertura do Sínodo, a que a bem-aventurança evangélica da pobreza fosse considerada como uma das condições necessárias para realizar, na situação actual, um fecundo ministério episcopal. Também nesta circunstância, no meio da assembleia dos Bispos, se delineou a figura de Cristo Senhor, «  que realizou a obra da redenção na pobreza e na perseguição  » e convida a Igreja, com os seus pastores à cabeça, «  a seguir pelo mesmo caminho para comunicar aos homens os frutos da salvação  ».87 

Por isso o Bispo, que deseja ser autêntica testemunha e ministro do evangelho da esperança, deve ser vir pauper. Exige-o o testemunho que ele é obrigado a dar de Cristo pobre; exige-o também a solicitude da Igreja pelos pobres, que devem ser objecto de uma opção preferencial. A decisão do Bispo de viver o seu ministério na pobreza contribui decididamente para fazer da Igreja a «  casa dos pobres  ».

Além disso, tal decisão coloca o Bispo numa situação de liberdade interior ao exercer o ministério, permitindo-lhe comunicar eficazmente os frutos da salvação. A autoridade episcopal deve ser exercida com incansável generosidade e inexaurível gratuidade. Isto requer, da parte do Bispo, uma plena confiança na providência do Pai celeste, uma magnânima comunhão de bens, um teor austero de vida, uma conversão pessoal permanente. Somente por este caminho, será capaz de partilhar as angústias e os sofrimentos do Povo de Deus, que ele deve não apenas guiar e alimentar, mas também solidarizar-se, tomando parte nos seus problemas e contribuindo para alimentar a sua esperança.

Poderá cumprir eficazmente este serviço, se a sua vida for simples, sóbria e ao mesmo tempo activa e generosa, e se puser aqueles que são considerados os últimos da nossa sociedade, não aos lados, mas ao centro da comunidade cristã.88   Assim quase sem se dar conta, há-de favorecer a «  fantasia da caridade  » que põe em evidência mais a capacidade de viver a partilha fraterna do que a eficácia das ajudas prestadas. Com efeito, na Igreja apostólica, como amplamente testemunham os Actos dos Apóstolos, a pobreza de alguns suscitava a solidariedade dos outros tendo como resultado surpreendente que, «  entre eles, não havia ninguém necessitado  » (4, 34). A Igreja é devedora desta profecia ao mundo, assediado pelos problemas da fome e das desigualdades entre os povos. Nesta perspectiva de partilha e simplicidade, o Bispo administra os bens da Igreja como «  bom pai de família  » e vigia para que tais bens sejam usados para os fins próprios da Igreja: o culto de Deus, o sustentamento dos ministros, as obras de apostolado, as iniciativas de caridade para com os pobres.

Procurator pauperum sempre foi um título dos pastores da Igreja e deve sê-lo concretamente também hoje, para tornar presente e eloquente a mensagem do Evangelho de Jesus Cristo como fundamento da esperança de todos, mas especialmente daqueles que só de Deus podem esperar uma vida mais digna e um futuro melhor. Solicitadas pelo exemplo dos Pastores, a Igreja e as Igrejas devem praticar aquela «  opção preferencial pelos pobres  » que indiquei como programa para o terceiro milénio.89 

Com a castidade ao serviço duma Igreja que reflecte a pureza de Cristo

21. «  Recebe este anel, sinal de fidelidade; sê fiel à Igreja e guarda-a como esposa santa de Deus  »: com estas palavras, tiradas do Pontifical Romano,90   o Bispo é convidado a tomar consciência do compromisso que assume de reflectir na sua pessoa o amor virginal de Cristo por todos os seus fiéis. Antes de mais nada, ele é chamado a suscitar entre os fiéis relações mútuas inspiradas por aquele respeito e aquela estima próprios duma família onde floresce o amor, segundo a exortação do apóstolo Pedro: «  Amai-vos uns aos outros ardentemente e do fundo do coração, pois haveis renascido, não duma semente corruptível, mas incorruptível: pela palavra de Deus vivo e eterno  » (1 Ped 1, 22-23).

Enquanto, com o seu exemplo e a sua palavra, o Bispo exorta os cristãos a oferecerem os seus corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus (cf. Rom 12, 1), recorda a todos que «  a aparência deste mundo passa  » (1 Cor 7, 31) e por isso é forçoso viver «  aguardando a bem-aventurada esperança  » do regresso glorioso de Cristo (cf. Tt 2, 13). De modo particular, na sua solicitude pastoral, ele acompanha com afecto paterno aqueles que abraçaram a vida religiosa com a profissão dos conselhos evangélicos e prestam o seu precioso serviço à Igreja. Além disso, apoia e encoraja os sacerdotes que, chamados pela graça divina, assumiram livremente o compromisso do celibato pelo Reino dos Céus, recordando a si mesmo e a eles as motivações evangélicas e espirituais desta opção, tão importante para o serviço do povo de Deus. Hoje, na Igreja e no mundo, o testemunho do amor casto constitui, por um lado, uma espécie de terapia espiritual para a humanidade e, por outro, uma contestação da idolatria do instinto sexual.

No contexto social actual, o Bispo deve estar particularmente unido ao seu rebanho e antes de tudo aos seus sacerdotes, paternalmente atento às suas dificuldades ascéticas e espirituais, prestando-lhes o devido apoio para favorecer a sua fidelidade à vocação e às exigências duma santidade de vida exemplar no exercício do ministério. Em caso de falta grave e, pior ainda, de delito que causam dano ao próprio testemunho do Evangelho, especialmente se praticados por ministros da Igreja, o Bispo deve ser forte e decidido, justo e sereno: é obrigado a intervir com prontidão, segundo as normas canónicas estabelecidas, quer para a correcção e o bem espiritual do ministro sagrado, quer para a reparação do escândalo e o restabelecimento da justiça, quer ainda no referente à protecção e ajuda das vítimas.

Com a palavra e com a acção vigilante e paterna, o Bispo cumpre a obrigação que tem de oferecer ao mundo a verdade duma Igreja santa e casta, nos seus ministros e nos seus fiéis. Agindo assim o pastor caminha à frente do seu rebanho como fez Cristo, o Esposo, que deu a sua vida por nós e deixou a todos o exemplo dum amor puro e virginal e, por isso, também fecundo e universal.

Animador duma espiritualidade de comunhão e missão

22. Na carta apostólica Novo millennio ineunte, pus em evidência a necessidade de «  fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão  ».91   Tal consideração teve um vasto eco e foi retomada na assembleia sinodal. Obviamente, o Bispo é o primeiro que, no seu caminho espiritual, tem o dever de fazer-se promotor e animador duma espiritualidade de comunhão, trabalhando incansavelmente por fazer dela um dos princípios educativos fundamentais em todos os lugares onde se plasma o homem e o cristão: na paróquia, nas associações católicas, nos movimentos eclesiais, nas escolas católicas, nos patronatos. De modo particular, terá o cuidado de fazer com que a espiritualidade de comunhão surja e se consolide nos lugares onde se educam os futuros presbíteros, isto é, nos seminários e também nos noviciados religiosos, nas casas religiosas, nos Institutos e Faculdades Teológicas.

Os pontos salientes desta promoção da espiritualidade de comunhão, indiquei-os sinteticamente na referida carta apostólica. Bastará acrescentar aqui que um Bispo deve encorajá-la particularmente dentro do seu presbitério, e também entre os diáconos, os religiosos e as religiosas. Há-de fazê-lo no diálogo e encontro pessoal, mas também nos encontros comunitários, providenciando que não faltem na sua Igreja particular momentos especiais durante os quais se disponha melhor para escutar «  o que o Espírito diz às Igrejas  » (Ap 2, 7.11 e outros). Penso nas recolecções, retiros e jornadas de espiritualidade, e ainda no uso prudente também dos novos instrumentos da comunicação social, se tal resultar oportuno para uma maior eficácia.

Cultivar uma espiritualidade de comunhão significa, para um Bispo, alimentar a comunhão com o Romano Pontífice e com os outros irmãos Bispos, especialmente os membros da mesma Conferência Episcopal e Província Eclesiástica. A tal propósito e com o objectivo, não indiferente, de superar o risco da solidão e do desânimo face à grandeza enorme e desproporcionada dos problemas, um Bispo de boa vontade há-de recorrer, para além da oração, também à amizade e à comunhão fraterna com os seus Irmãos no episcopado.

Na sua fonte e modelo trinitários, a comunhão exprime-se sempre na missão. Esta é o fruto e a consequência lógica da comunhão. Fomenta-se o dinamismo da comunhão sempre que alguém se abre aos horizontes e às exigências da missão, dando como garantia permanente o testemunho da unidade, para que o mundo creia, e dilatando os espaços do amor para que todos cheguem à comunhão trinitária, donde procedem e para onde se encaminham. Quanto mais intensa for a comunhão, mais facilitada ficará a missão, sobretudo quando é vivida na pobreza abraçada por amor, que é a capacidade de ir ao encontro de cada pessoa, grupo e cultura unicamente com a força da Cruz, spes unica e supremo testemunho do amor de Deus, que se manifesta também como amor de fraternidade universal.

Um caminho a percorrer no dia a dia

23. O realismo espiritual obriga a reconhecer que o Bispo é chamado a viver a sua vocação à santidade no meio de dificuldades externas e internas, fraquezas próprias e alheias, imprevistos quotidianos, problemas pessoais e institucionais. Uma tal situação é constante na vida dos pastores, como dá testemunho S. Gregório Magno quando, constatando isso mesmo, se lamenta: «  Depois que tomei sobre os meus ombros a responsabilidade pastoral, o espírito não consegue recolher-se tão assiduamente como queria, porque se encontra solicitado por muitas preocupações. Vejo-me obrigado a ocupar-me ora dos problemas das igrejas, ora dos mosteiros e a analisar muitas vezes a vida e a actuação de cada pessoa em particular (...). Estando assim dividido e subjugado por tão numerosas e tão grandes preocupações, como poderá o meu espírito recolher-se e concentrar-se para se poder dedicar plenamente à pregação e não se afastar do ministério da palavra? (...) Todo aquele que é colocado como sentinela do povo deve portanto, pela sua vida, situar-se bem alto para ser útil com a sua previdência  ».92 

Para contrabalançar as forças centrífugas que tentam destruir a sua unidade interior, o Bispo precisa de cultivar um teor de vida sereno, que favoreça o equilíbrio mental, psicológico e afectivo, permitindo-lhe abrir-se ao acolhimento das pessoas e dos seus problemas num contexto de autêntica solidariedade com as diversas situações, alegres ou tristes. Também o cuidado pela própria saúde nas suas várias dimensões constitui, no Bispo, um acto de amor para com os fiéis e uma garantia de maior abertura e disponibilidade às sugestões do Espírito. São conhecidas as recomendações feitas a tal propósito por S. Carlos Borromeu, brilhante figura de pastor, no discurso que pronunciou durante o seu último Sínodo: «  Exerces a cura de almas? Não descures então o cuidado de ti próprio, para não te dares tão desinteressadamente aos demais que nada reserves para ti. Sem dúvida, é necessário que te lembres das almas que diriges, mas desde que te não esqueças de ti  ».93 

Por isso, o Bispo procure entrar com equilíbrio na multiplicidade das suas obrigações harmonizando-as entre si: a celebração dos divinos mistérios e a oração privada, o estudo pessoal e a programação pastoral, o recolhimento e o justo repouso. Sustentado por estes auxílios à sua vida espiritual, achará a paz do coração experimentando a profundidade da comunhão com a Santíssima Trindade, que o escolheu e consagrou. Com a graça que Deus lhe assegura, poderá diariamente desempenhar o seu ministério, atento às necessidades da Igreja e do mundo, como testemunha da esperança.

A formação permanente do Bispo

24. Em estreita ligação com o compromisso que o Bispo tem de avançar incansavelmente pelo caminho da santidade vivendo uma espiritualidade cristocêntrica e eclesial, a assembleia sinodal colocou também a exigência da sua formação permanente. Necessária para todos os fiéis, como foi sublinhado nos Sínodos anteriores e confirmado nas sucessivas Exortações apostólicas Christifideles laici, Pastores dabo vobis e Vita consecrata, a formação permanente deve ser vista como necessária especialmente para o Bispo, que carrega a responsabilidade do progresso comum e do caminho harmónico na Igreja.

Como para os sacerdotes e as pessoas de vida consagrada, a formação permanente, no caso do Bispo, é uma exigência intrínseca da sua vocação e missão. De facto, em virtude dela é possível discernir os novos apelos com que Deus especifica e actualiza o chamamento inicial. Também o apóstolo Pedro, depois do convite «  segue-Me  » recebido no primeiro encontro com Cristo (cf. Mt 4, 19), ouviu repetir-lhe o mesmo convite pelo Ressuscitado, que, antes de deixar a terra e preanunciando-lhe as canseiras e tribulações do futuro ministério, acrescenta: «  Tu, segue-Me  » (Jo 21, 22). «  É, portanto, um “segue-Me” que acompanha a vida e a missão do apóstolo. É um “segue-Me” que acompanha o apelo e a exigência de fidelidade até à morte (cf. Jo 21, 18-19), um “segue-Me” que pode significar uma sequela Christi até ao dom total de si no martírio  ».94   Não se trata, evidentemente, de realizar apenas aquela actualização adequada que se requer para um conhecimento real da situação da Igreja e do mundo, que permita ao Pastor estar inserido no seu tempo com mente aberta e coração compassivo. A esta boa razão para uma formação permanente actualizada, juntam-se motivações antropológicas, resultantes do facto que a própria vida é um caminhar incessante para a maturidade, e motivações teológicas que têm profundamente a ver com a raiz sacramental: com efeito, o Bispo deve «  guardar com amor vigilante o “mistério” que traz em si para o bem da Igreja e da humanidade  ».95 

Para uma actualização periódica, especialmente sobre alguns temas de grande importância, requerem-se tempos específicos e prolongados de escuta, comunhão e diálogo com peritos – Bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, leigos – num intercâmbio de experiências pastorais, conhecimentos doutrinais, recursos espirituais que não deixarão de assegurar um verdadeiro enriquecimento pessoal. Para isso, os padres sinodais sublinharam a utilidade de cursos especiais de formação, como os encontros anuais promovidos pela Congregação dos Bispos ou pela Congregação para a Evangelização dos Povos em favor dos Bispos de ordenação episcopal recente. Desejaram igualmente que breves cursos de formação ou jornadas de estudo e actualização, e também retiros espirituais para os Bispos fossem previstos e preparados pelos Sínodos Patriarcais, pelas Conferências Nacionais ou Regionais e ainda pelas Assembleias continentais de Bispos.

Será conveniente que a própria Presidência da Conferência Episcopal tome a seu cargo a tarefa de prover à preparação e à realização de tais programas de formação permanente, encorajando os Bispos a participarem nestes cursos, para se obter deste modo também uma maior comunhão entre os Pastores em ordem a uma melhor eficácia pastoral em cada uma das dioceses.96 

De qualquer modo, é evidente que, como acontece na vida da Igreja, também o estilo de acção, as iniciativas pastorais, as formas de ministério do Bispo vão evoluindo. Também deste ponto de vista, resulta a necessidade duma actualização, em conformidade com as disposições do Código de Direito Canónico e tendo em conta os novos desafios e compromissos da Igreja na sociedade. Neste contexto, a assembleia sinodal propôs que fosse revisto o Directório Ecclesiæ imago, publicado pela Congregação dos Bispos em 22 de Fevereiro de 1973, adaptando-o às novas exigências dos tempos e às mudanças entretanto sucedidas na Igreja e na vida pastoral.97 

O exemplo dos Santos Bispos

25. Na sua vida e no seu ministério, no caminho espiritual e no esforço por adaptar a sua acção apostólica, os Bispos são sempre confortados pelo exemplo de pastores santos. Eu mesmo, na homilia da celebração eucarística conclusiva do Sínodo, propus o exemplo de santos pastores canonizados durante o último século, como testemunho duma graça do Espírito Santo que nunca faltou, e jamais faltará, à Igreja.98 

A história da Igreja, a começar dos Apóstolos, regista um número verdadeiramente grande de pastores, cuja doutrina e santidade são capazes de iluminar e guiar o caminho espiritual dos Bispos também do terceiro milénio. Os gloriosos testemunhos dos grandes pastores dos primeiros séculos da Igreja, dos fundadores das Igrejas particulares, dos confessores da fé e dos mártires, que, em tempos de perseguição, deram a vida por Cristo, permanecem como luminosos pontos de referência que os Bispos do nosso tempo podem fixar para deles tirarem indicações e estímulos para o seu serviço do Evangelho.

Muitos deles foram exemplares sobretudo no exercício da virtude da esperança, quando, em tempos difíceis, reanimaram o seu povo, reconstruíram as igrejas depois de tempos de perseguição e de calamidade, edificaram hospícios para acolher peregrinos e pobres, abriram hospitais para tratar doentes e idosos. Muitos outros Bispos foram guias esclarecidos, que abriram novas sendas para o seu povo. Em tempos difíceis, mantendo o olhar fixo em Cristo crucificado e ressuscitado, nossa esperança, deram respostas positivas e inovadoras aos desafios do momento. No início do terceiro milénio, ainda existem tais pastores, que têm uma história para contar, impregnada de fé ancorada firmemente à Cruz; pastores que sabem individuar as aspirações humanas, assumi-las, purificá-las e interpretá-las à luz do Evangelho e que, por isso mesmo, têm também uma história a construir, juntamente com todo o povo que lhes está confiado.

Cada Igreja particular terá, portanto, o cuidado de celebrar os seus próprios Santos Bispos, recordando também os pastores que, pela vida santa e cheia de luminosos ensinamentos, deixaram especial herança de admiração e afecto no povo; constituem as sentinelas espirituais que, do Céu, guiam o caminho da Igreja peregrina no tempo. Por esta razão também, para que se conserve sempre viva a memória da fidelidade dos Bispos eminentes no exercício do seu ministério, a assembleia sinodal recomendou que as Igrejas particulares ou, segundo o caso, as Conferências Episcopais se esforcem por dar a conhecer aos fiéis a sua figura por meio de biografias actualizadas e, se for o caso, examinem a oportunidade de introduzir a sua causa de canonização.99 

O testemunho duma vida espiritual e apostólica plenamente realizada continua hoje a ser a grande prova da força que o Evangelho possui para transformar as pessoas e as comunidades, fazendo penetrar no mundo e na história a própria santidade de Deus. Também isto é um motivo de esperança, sobretudo para as novas gerações que esperam da Igreja propostas incentivadoras às quais inspirar-se no seu empenho de renovar em Cristo a sociedade do nosso tempo.

 




48  Cf. Propositio 8.



49  Carta ap. Novo millennio ineunte (6 de Janeiro de 2001), 30: AAS 93 (2001), 287.



50  Discurso II, 71: PG 35, 479.



51  Cf. João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte (6 de Janeiro de 2001), 15 e 31: AAS 93 (2001), 276 e 288.



52  N. 5: AAS 94 (2002), 111.



53  Sacramentarium Serapionis, 28: Ed. F. X. Funk, II, 191.



54  João Paulo II, Homilia na Missa de abertura da X Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos (30 de Setembro de 2001), 5: AAS 94 (2002), 111.



55  Código de Direito Canónico, cân. 387; cf. Código dos Cânones das Igrejas Orientais, cân. 197.



56  Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 40.



57  Sermo 340, 1: PL 38, 1483.



58  Cf. Catecismo da Igreja Católica, 1804 e 1839.



59  Cf. Propositio 7.



60  S. Cipriano, De oratione dominica, 23: PL 4, 535; cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 4.



61  Rito da Ordenação do Bispo: Entrega da mitra.



62  Cf. Propositio 7.



63  Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 41.



64  Congr. para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Directório sobre Piedade Popular e Liturgia. Princípios e orientações (17 de Dezembro de 2001), n. 184.



65  Cf. João Paulo II, Carta ap. Rosarium Virginis Mariæ (16 de Outubro de 2002), 43: AAS 95 (2003), 35-36.



66  Cf. Propositio 8.



67  Cf. Paulo VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de Dezembro de 1975), 59: AAS 68 (1976), 50.



68  Carta aos Filadélfios, 5: PG 5, 700.



69  Commentariorum in Isaiam, Prol: PL 24, 17; cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a divina revelação Dei Verbum, 25.



70  Paulo VI, Exort. ap. Marialis cultus (2 de Fevereiro de 1974), 17: AAS 66 (1974), 128.



71  Cf. Santo Agostinho, Sermo 179, 1: PL 38, 966.



72  Homilias sobre o Levítico, VI: PG 12, 474/C.



73  N. 39: AAS 93 (2001), 294.



74  Cf. Pseudo-Dionísio Areopagita, Sobre a Hierarquia Eclesiástica, III: PG 3, 512; S. Tomás de Aquino, Summa theologiæ, II-II, q. 184, a. 5.



75  João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte (6 de Janeiro de 2001), 34: AAS 93 (2001), 290.



76   Summa theologiæ, II-II, q. 17, a. 2.



77  Rito da Ordenação do Bispo: Promessa do eleito.



78  Const. sobre a sagrada liturgia Sacrosanctum Concilium, 84-85.



79  Const. ap. Laudis canticum (1 de Novembro de 1970): AAS 63 (1971), 532.



80  Cf. João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Vita consecrata (25 de Março de 1996), 20-21: AAS 88 (1996), 393-395.



81  João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de Março de 1992), 27: AAS 84 (1992), 701.



82  Cf. n. 28: AAS 84 (1992), 701-703.



83  Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 18.



84  Cf. ibid., 27 e 37.



85  Cf. Propositio 10.



86  Carta a Policarpo, IV: PG 5, 721.



87  Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 8.



88  Cf. Propositio 9.



89  Cf. Carta ap. Novo millennio ineunte (6 de Janeiro de 2001), 49: AAS 93 (2001), 302.



90  Rito da Ordenação do Bispo: Entrega do anel.



91  N. 43: AAS 93 (2001), 296.



92  Homiliæ in Ezechielem, I, 11: PL 76, 908.



93  Acta Ecclesiæ Mediolanensis (Milão 1599), 1178.



94  João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de Março de 1992), 70: AAS 84 (1992), 781.



95  Ibid., 72: o.c., 787.



96  Cf. Propositio 12.



97  Cf. Propositio 13.



98  Cf. n. 6: AAS 94 (2002), 116.



99  Cf. Propositio 11.






Precedente - Sucessivo

Índice | Palavras: Alfabética - Freqüência - Invertidas - Tamanho - Estatísticas | Ajuda | Biblioteca IntraText

IntraText® (V89) Copyright 1996-2007 EuloTech SRL