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| Prof. Afonso de Castro Los muchos nombres que la vida tiene IntraText CT - Texto |
A linguagem poética tem características próprias e não se confundo normalmente com poesia em sua forma clássica, tradicional. Não se trata de mostrar que a linguagem poética está sujeita a uma série interminável de normas estruturais que determinam por nomes consagrados o que seja um verso ou uma estrofe. Também existe linguagem poética que se expressa dentro desses moldes estruturais; existem poemas belíssimos e consagrados que foram compostos dentro das regras rígidas dos gêneros ou estruturas apropriadas aos versos, estrofes, cantos e rimas, por exemplo. Essas afirmações valem para as línguas que compõem o cânone da nossa cultura ocidental e mesmo oriental para alguns idiomas.
Aqui se entende a poeticidade do texto inicialmente por sua intencionalidade e por seu gênero. Porém de nada adiantaria ter a intenção e até apresentar um texto com características genéricas do lirismo se a natureza própria da linguagem não convencesse de que sua natureza é poética em si e não somente por força de uma vontade. Pode existir até alguma expressão que se diga, intencionalmente poética por imperativo de uma vontade. Tal expressão perdurará enquanto a força dessa vontade se mantiver em seu raio de poder de conferir significado, mas certamente não terá consistência por muito tempo. Conclui-se que a poeticidade de um texto possui prerrogativas próprias que se atribuem como sustentação de sua natureza ou como expressão de sua potencialidade. Em outras palavras, a linguagem poética diz poeticamente porque somente dessa forma é que ela pode existir e significar.
1 - A forma – linguagem e modalidades
O texto de EN LOS MÁRGINES Y A MANO é poético porque é portador das características do gênero poético. Estas características lhe dão suporte para a força de seu dizer. Além de ser um texto intencional, se significar para além da linguagem como registro, exerce esse poder desde seu contexto e sua forma. O contexto está presente de acordo com sua natureza poética, com a intenção clara de sustentar o sentido para o qual a linguagem conclamou-o a estar presente e conviver com essa palavra convocada para aquele sentido e para aquela significação. Como as palavras não aparecem em seu estado de expressão registrada no dicionário, a linguagem – palavra e contexto (som, lugar, circunstâncias, apropriações) – busca uma forma original de produzir sentido.
Nesse particular é que se expressa o ser poético do texto. É realmente um processo metafórico em que o texto se vê imerso para expressar o sentido e o significado desejados. Quando esse processo obtém o máximo em linguagem, a beleza aí registrada torna-se matriz.
Algumas expressões do texto:
“Y, por fin, sospecharon que la fuerza del verbo
se fragua y se adereza en los silencios”(p.48)
Esses versos concluem um poema que se reporta ao próprio dizer poético a partir das palavras. Eles expressam e dizem que o poema tem esse processo composicional ou ainda que algumas palavras devem ser malhadas e enfeitadas no silêncio. O que se pode concluir que o trabalho do poeta é duro, pois depende de fogo e malho para fazer a palavra dizer o que ele pretende fora de seu sentido de dicionário; de outra forma conclui que o silêncio é bom para que as palavras possam se enfeitar a partir da intencionalidade do poeta ou de como elas se oferecem para o sentido. Aqui se manifesta a contraditoriedade do linguajar poético, o silêncio não possui a força do fogo nem as belezas do fogo ou das pedras preciosas. No entanto o poeta cria o seu modo de produzir a linguagem poética, no trabalho duro do silêncio. Uma linguagem portadora de um sentido e significado contrários aos significados comuns desses termos. Então o trabalho do poeta é segurar a linguagem no silêncio até que ela se deixe moldar, deixe o seu sentido e se enfeite para outro significado. Esses versos têm como início de poema a afirmação: “TANTAS PALABRAS NO ALUMBRADAS NUNCA”. Constata o poeta que palavras são palavras empobrecidas e que somente o processo poético pode iluminá-las. Nesse poema, o poeta poetiza o processo e traz a teoria poética de si mesmo enquanto linguagem poética.
Em outros versos:
“Quien me quiera entender – y quisiera
yo mismo – sabrá de un irremediable embarcarse
en inexistente, tal vez em lo imposible,
hasta hacer de cada dia um excusa
A intervenção do poeta traz o impossível para a linguagem como caminho de um sentido perquirido e desejado. Ultrapassar o sentido faz parte dessa linguagem que, uma vez inaugurada, abre um caminho mesmo que seja feito de impossibilidade aparente ou impossibilidade de um linguajar comum. Aqui a linguagem apresenta o “Eu lírico” em
estado de completa entrega ao caminho da linguagem como perspectiva de ir adiante em seu viver. Somente a linguagem pode lhe oferecer essa possibilidade, desculpar-se para viver com o sentido que a linguagem lhe desvendou. As forças vitais aglutinam-se na linguagem como caminho possível para o sentido do instante, da vida.
Outro exemplo de linguagem eficiente do poeta:
“Clamores infinitos e insistentes
A poeticidade desses versos insiste na pequenez do “Eu lírico” do poeta que não consegue ser suporte para os clamores antevistos e pressentidos. A linguagem reveladora aponta para seu interior como ressonância de um horizonte maior que se esforça por encontrar o caminho exato de sua linguagem. O poeta somente retrata a sua presença sem definir o seu estado ou o seu saber daquele momento. É impelido para ser o mediador desta vida que preme por uma linguagem condizente. Nem sempre ele, seu “Eu lírico” saberá encontrar a palavra exata para expressar esses clamores. Mesmo que isso não aconteça, revela a presença da força vital, de um campo que é maior que sua percepção individualizadora atual.
Essa linguagem poética tem a forma que o poeta lhe conferiu; contextualizada em verso livre exibe seu aspecto de invenção da vida na liberdade e na força de seu sentido. É verdade que a estrutura dos versos é mínima, mas suficiente para lhe conferir harmonia e sonoridade. As estrofes dos vários poemas têm a estrutura escolhida para indicar a cadência e a força do poema.
Afirma-se que a linguagem poética constitui-se em arte quando atinge o nível de expressar a beleza, ou ainda, para ser considerada linguagem poética, traz em si a expressão da beleza. Como a beleza é um arquétipo, seu campo é inesgotável. Conforme a força da linguagem, ela concede uma expressividade concernente à abrangência que foi capaz de manifestar. Inesgotável, mas de fácil acesso para quem deseja até ela se aproximar ou abrir espaço para sua manifestação. Aliás, a beleza carece de linguagens renovadoras para que seu potencial contextualize e adquira a força da comunicação ou revelação da profundidade que os interlocutores estejam aptos a captar o sentido.
Um “Eu poético” é constituído pelo conjunto de linguagens que o sustenta como aporte ao belo que acessou e quer comunicar. Assim a beleza torna-se generosa e abundante para quem se dispuser a descobrir o seu percurso de entrega.
No texto existem muitas expressões e versos que atingem um ponto ápice no conjunto de todos os poemas como expressão do belo; o “Eu lírico” do poeta conseguiu aprofundar a vida pelas expressões máximas de beleza em seu dizer. Os atuais parâmetros da arte poética, margeiam-se pela amplitude e profundidade com que o dizer do poeta seja capaz de expressar a vida como objeto de entendimento ou de vivência. As intensidades, os novos horizontes inaugurados, as profundidades atingidas são, no texto, as referências que caracterizam o texto como poético, ou artístico. Por outro lado, como expressão vital, a simplicidade torna-se outra maneira de expressar a arte desde que consiga destacar na linguagem a referência proposta como um dizer capaz de reinventar a vida ou o momento.
Existem muitos excertos dos diversos poemas que mereceriam destaque por terem atingido um grau inusitado de expressividade poética ou de arte. Neles a beleza está em forma de excesso de sentido e de simplicidade. Impossível não reconhecer que eles dão o tom e a qualidade ao corpo de todo o texto, do poeta e da expressividade do “Eu lírico” que os vive. Alguns escolhidos ou detectados podem ilustrar todas as afirmações teóricas referendadas acima.
-“caricias y gestos son mi modo de hablar”(p.8)
-“Desde mi propio límite, asilado
tras el vuelo sutil de unas palabras”(p.8)
-“Mas cuando otro buen día jugamos al regreso,
vienen cantando en nuestros ojos
los muchos nombres que la vida tiene”(p.13)
Nesses três conjuntos estão claras algumas confissões do poeta ou de seu ‘eu lírico’, cuja simplicidade atrai e engrandece os momentos contemplados. Tornam-se expressões únicas que encantam por sua manifestação vital. A exposição do poeta constitui-se em momentos de aprofundamentos para qualquer interlocutor que os entender, o que não será difícil. Ao mesmo tempo, manifestam esses versos a beleza da vida do poeta em estado de espreita e de entrega aos movimentos das dinâmicas que o impelem. Cada verso aí torna-se um novo nome da vida que ele acedeu e traz a seu interlocutor. Eles, por sua vez, qualificam a linguagem poética de tal forma que todos os interlocutores que
se aproximarem dele desarmados terão seus estados dinamizados pela força dinâmica da beleza de que eles são portadores.
Em alguns versos a força composicional atingiu uma expressividade singular que merece ser destacada independentemente da temática abordada. Sem dúvida que o campo da significação também indica a capacidade de abrangência, mas a capacidade de indicar a beleza expressa independe da abrangência. Assim:
-“Y es precisamente en la manera
tan serena de contemplar las cosas
que se enciende la leña nunca ardida.(p.32)
-“Va llegando la hora de olvidar lo aprendido
y de aprender a vivir de lo vivido.(p.33)
-“Navigando indigente en un mar de sospechas.”(p.29)
-“Que las luces de mi día se enciendan
Em todos esses versos aparece a vida em sua simplicidade e aprofundamentos, ao mesmo tempo inauguram a beleza transformada em sabedoria para uma liberdade proposta e sonhada. Trata-se de uma liberdade perante a oferta da vida que se posiciona para a abertura com simplicidade. Em todos eles as possibilidades são propostas concretamente para o ‘eu lírico’ como aprofundamento e consistência. No primeiro conjunto, aparece a combinação da serenidade e do olhar contraposto com uma dinamização transformadora, “queimar a lenha”, suscitar uma expressão vital jamais pensada. Assim apontam para a vida em expectativa.
Contrapõe o segundo conjunto o que se aprendeu somente como alimento da memória e não modalidades de desenvolvimento das possibilidades da vida, o saber poético inaugura possibilidades vitais. A outra afirmação contempla o ‘eu lírico do poeta’ em estado de indigência, enquanto a suspeita não lhe permitir a realidade comprovada transformar-se em expressão de vida aprofundada. A suspeita como tática combina pouco com as expressões artístico-poéticas. Da mesma forma, os últimos versos apontam para uma consistência do poeta perante si mesmo. Ele, promotor de seu estado de vida e de compreensão do mundo que se apresenta para sua vida. Ou dependendo do contexto, podem indicar que os caminhos, dependendo de um bom interlocutor, possam ser assumidos pelo poeta com simplicidade. Esses versos, na simplicidade de suas palavras concretizam a beleza que obedece ao preceito platônico assumido por Santo Tomás: “Bonum est difusivum sui”
A simplicidade não impede que a beleza se concretize em palavras reveladoras de um horizonte vital maior, mais harmônico e expressivo. O texto possui momentos altos que propõem um sentido intenso e contextualizam a vida indicada ou situações vitais reinterpretadas como percebeu o “eu lírico do poeta”.
Por criação poética entende-se aqui um pressuposto do poeta que admite e expressa seu direcionamento e sua perspectiva, valendo-se de uma postura dialógica essencial antes que um constatar de raciocínio. Tende mais a ater-se ao processo que ao enunciado. Para que o processo finalize em expressões reveladoras, um diálogo hipotético é estabelecido com um “Tu” sempre presente e próximo. Sempre acenou-se aqui ao “Eu lírico do poeta” com interveniente do diálogo; pode-se aventar a hipótese de um interlocutor ser o poeta consigo mesmo incluindo o Self como receptáculo concretizado no ‘eu lírico’. Dessa forma o poeta pode interpelar constantemente a si mesmo como primeiro sujeito das afirmações e da linguagem. Engrandecido, o poeta homenageia o belo retratado pela linguagem interpelando o ‘eu lírico, ou melhor, incitando-o, inquirindo-o pelos processos para maiores aberturas propostas e incluídas nas palavras que reinauguram seu mundo. Em geral os poemas retratam esse procedimento do poeta em relação ao ‘eu-lírico’.
Assim esse processo acontece em:
“TUS OJOS LLEVAN TODAVÍA A CUESTAS
las huellas de un amor recién cumplido.
Y en esa transparencia de tu cuerpo
exhibes tu vivir como un trofeo
aunque te cruja el alma insatisfecha.
!Despierta ya de un sueño tantas veces
frecuentado!”(p.26)
Nesse poema aparece bem nítida a interpelação do poeta a um tu, a que denominamos de seu “eu lírico” com receptáculo de suas descobertas e das invenções trazidas pela linguagem. A apóstrofe é forte e veemente em relação ao ‘tu’ interlocutor do poeta para uma tomada de posição ante o processo que se deseja revelador. O grau de interpelação
atinge a exortação como abandono de uma posição para maiores aberturas anunciadas, e aqui para uma unidade vital maior que possibilite uma integração do corpo e da alma.
Assim neste outro poema, apresenta-se a interpelação intencional ao ‘tu’:
“— NI LA PASIÓN CON EL FUEGO ENCENDIDO,
conseguía atrapar y fijar aquella imagen,
aquel fruto salvaje en su estado más puro,
que siempre se escurría mas sin huir del todo
para morder sin piedad las carnes del deseo.
No es que todas las cruces tengan forma
de cruz, con un inri clavado en su cabeza.”(.44)
Nesse poema a forma de interlocução aparece no início do poema onde o travessão indica a fala do poeta para o seu ‘tu’ que, sendo próximo, escuta o desabafo ou a confissão. Aliás, uma confissão à entrega verdadeira para uma conquista que se considere “pra valer”; parece como uma acusação diante de uma falta de decisão, pois ele deseja que sua verdade tenha um élan tão forte que possa “morder sin piedad las carnes del deseo.”
O maior número de poemas do texto apresenta esse processo de interpelação do “tu” ou do ‘eu lírico’ do poeta como metodologia de expressão de uma linguagem encarnada, com nervuras e emoções, com desejos e vitalidades latentes prestes a passarem para estados vibrantes. A força do poeta acontece na intensidade das interpelações que assumem a intensidade de uma descoberta e do pesar de a não ter visto ou vivido ainda. Esse estado de negação para o seu ‘eu lírico’ torna a linguagem e o poema apaixonantes.