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| Prof. Afonso de Castro Los muchos nombres que la vida tiene IntraText CT - Texto |
III – A TEMÁTICA PRINCIPAL: O INSTANTE
A fugacidade do instante foi a chave que o poeta encontrou para fixar a sua linguagem. Precisamente o momento que não pode ser dominado ou retido torna-se a recorrência em quase todos os poemas como lugar de se produzir a linguagem poética que pretende reinventá-lo. Esse desafio que o poeta assume tem a feição de se falar do impossível como parte essencial do viver, como referência de sentido para que a vida possa ter uma expressividade concretizada na linguagem que ele poeta consegue produzir.
Intervém nesse trabalho a tentativa de retratar o que o instante pode oferecer de consistente e de coerente.
Para que a linguagem possa retratar o instante, o poeta valeu-se de uma série de recursos que já foram apresentados anteriormente. Aqui somente acrescenta-se um outro meio que viabiliza processos já descritos. Trata-se da contemplação como caminho que facilita a entrega e o despojamento do poeta para que possa captar o dizer do instante. Antes de mais nada, ele se define como um contemplativo apto a receber o dizer daquele instante focalizado.
Outra observação importante sobre o que se entende por instante; certamente que o instante assumido pela seqüência interminável do relógio sempre será o marco originário como base referencial dessa unidade do tempo denominada instante. Em linguagem poética o instante será sempre o instante temporal como registro do tempo e do tempo individualizado no relógio e marcado por uma vivência de qualquer pessoa. Aqui o instante também marcará uma unidade poética geradora de um sentido significativo, independentemente de sua duração cronológica. Assim a imagem que irrompe na mente do poeta chega num instante, mas o ato de sua irrupção não tem o poder de ser apreendido em toda a sua extensão e complexidade num átimo de tempo, pede o tempo da percepção do poeta para transformar uma amplitude em linguagem poética, bem concreta e que requer mais que um átimo para se concretizar.
O instante nesse texto poético é a unidade mediante a qual o poeta pode expressar a magnitude de uma imagem que pode ter um alcance imenso e exigir muitas palavras para captar todas as nuanças de possibilidade de sentido. De diversas modalidades aparece o instante nos poemas; como metáfora ele expressa o dizer do poeta com a
intencionalidade pretendida. Podem ser instantes cronológicos, podem ser o momento de um encontro, podem ser o instante de um olhar, um espaço focalizado, uma palavra ou frase.
Descobrir a beleza e a força de sentido de que eles são portadores é percorrer o caminho do poeta que oferece na linguagem o seu dom maior: a reinvenção da vida a partir daquele instante escolhido.
1 - O instante existencial
Nem sempre a categoria que se quer para o instante é pura ou ele tem as características especiais para tal denominação; então as classificações aqui apresentadas valem mais para a interpretação do texto poético que para a denominação em si.
Para isso valem os processos utilizados pelo poeta para expressar e compor a sua linguagem, que se vale de uma expressão mais direta e no tempo presente. Qualquer verso pode ser tomado como interpretação do presente ou daquele momento.
Em primeiro lugar o poeta se julga perante a existência: “Clamores infinitos e insistentes/ reclaman la presencia. No sabemos cómo salir al paso/ por no dejar a solas nuestra casa.”(p.28) Sentir-se chamado a um potencial latente e presente, implorando por um dizer é a constatação do poeta ao voltar-se para si. Ao mesmo tempo não tem sabido ir ao encontro dessas solicitações do tempo em que se mantém em si consistente e consciente, confessa simplesmente que ainda não aprendeu a arte da generosidade, de entregar-se sem reserva ao que é pedido, ao que quer aceder à linguagem. Para isto requer uma capacidade de entrega sem reservas. Temos nesse particular a filosofia de Heidegger para explicar tal postura, quando para ele o ser necessita da palavra para encontrar sua casa e somente o poeta tem o poder da palavra. Aquele que se dispõe haverá de ser casa para dar linguagem poética a tanta revelação do ser que se lança ao mundo.
Assim quando o poeta acede à linguagem, ele pode registrar o instante como um percurso da vida: “...yo me quedo con toda/ esa serena atmósfera de instante/ de arte, de plenitud de los instantes.”(p.43) Essa confissão oferece a relação processual do poeta com o momento para torná-lo significativo e artístico, vale dizer, portador de um significado novo e de um conhecimento vital. A arte é o caminho percorrido pelo poeta para poder expressar a vitalidade do instante, o mistério da vida consagrado pela palavra.
O poeta nem sempre pode dominar o processo poético como uma massa a ser moldada, assim vê, pois que o momento poético é muito fugaz, rápido, mas muito intenso de vida e de significado, gerando assim a angústia da palavra exata para revelá-lo. Para o poeta:
“Sospecho que es un huésped pasajero
que tiene por oficio la maldita
costumbre de llegar y marcharse
sin que nadie acierte a poseerlo.”(p.49)
Essa é a batalha do poeta em relação à sua perspectiva de construção do texto poético. O instante carregado de sentido vem e retorna sem deixar-se possuir em sua totalidade, o que sempre será angustiante para o poeta. Mas a intimidade do poeta com seu vigor e sua presença pode muito bem resultar numa linguagem muito alta poeticamente e no poeta a vida se renova:
“Ya presente su ausencia, de su paso
quedaron huellas, de un raro perfume:
memoria y deseo se avivan y se mezclan.”(p.49)
Conclui-se que se tiver havido uma real entrega do poeta ao momento criador, ele se renovará em seu ‘eu lírico’, habilitando-se para uma legitimação da vida que se expressou em sua linguagem poética.
O instante poderia ser também uma presença difícil de se fixar ou definir, sendo todavia tentador o desejo de presenciar uma entrega total de um estado antevisto e desejado:
“aquel fruto salvaje en su estado más puro,
que siempre se escurría mas sin huir del todo
para morder sin piedad las carnes del deseo.”(p.44)
Nestes versos acontece a confissão do poeta quanto à força e à fugacidade do instante que se mostra fugidio e não está completamente disponível ao poeta. Mesmo assim ele suscita impulsos incomuns, embora sempre fugaz como afirma o poeta: “Quiero medir tu vida y se me escapa./ Siempre ya es más, que fluye siempre.”(p.16) Assim a vida em seu eterno fluir não permanece idêntica, quando o poeta quer retê-la, o momento, o instante já não mais existe. Afirma em outro verso que se pode viver a expectativa do instante, mas não fixá-lo: “que a la espera del alba ya se vive.”(p.17) Para ele o desejo tem a capacidade de antecipar o instante, mas o que importa é a vida presente: “-los que estamos/ ya vivos hace tiempo si es ponerse/ a vivir ! de uma vez!”(p.20)
O instante revelador da vida pode também mostrar sua tragicidade:
“Me parecía estar, como otras veces,
en la cima de aquel orgullo enhiesto
que exhibía el poder como un símbolo.
...............
con su estremecimiento por cuchillo
de fuego y humo y acero y horror”(p.22)
Este instante proporcionou ao poeta a contemplação da tragédia, do poder de destruição do homem, que não aprendeu ainda as lições antigas, concluiu o poeta.
O instante pode ser intenso e agradável, muito significativo ou agudo por mostrar a dor de que a vida pode ser portadora. Mas não deixa de ser revelador:
“Quieres que me distraiga de tu ausencia
Que las luces de mi día se enciendan
........................ Pero el vacío es cruel,
pues tú has ido sin mediar palabra.”(p.34)
A indigência do poeta fica muito exposta nestes versos que proclamam sua dependência do interlocutor ou de seu ‘eu lírico’ ou de seu ser querido. Perante a vida todos podem lhe causar esta abertura cruel de deixá-lo à mercê de um vazio sem sentido, pois a dor de estar vivendo sem um sentido que lhe proporcione uma “animação ou entusiasmo” a partir de dentro, do seu íntimo, é, no mínimo convocar a dor para gritar sua intensidade ou sua presença. Dessa forma o instante pode decretar a qualidade da vida revelada pela palavra e oferecer ao ‘eu lírico’ do poeta a realização de seus anseios vitais.
Esta categoria de partida da linguagem poética proporciona ao poeta uma gama de sugestões oriundas da força das imagens ou das metáforas empregadas. Também pode-se afirmar que uma expressão artística pode gerar outras descobertas por força de sua dinamicidade perante a vida. Quando o poeta se entrega à sugestão da linguagem, outras reentrâncias do ser apresentam-se como complementaridade das expressões, como explicitação do todo que se arquiteta para a composição de um sentido também completo dentro daquele horizonte aberto.
Dessa forma o poeta proclama com toda a simplicidade essa característica ao afirmar:
“UNO PIENSA QUE YA ENCIERRAN SUS OJOS
el arte del porqué porque los abre.
los objetos, personas y paisajes,
periódicos e historias sin haber
alcanzado a dar con el secreto
de un simple detalle, intérprete
Y es precisamente en la manera
tan serena de contemplar las cosas
que se enciende la leña nunca ardida.”(p.32)
A sugestão que este poema oferece ao ‘eu lírico’ do poeta é que o aprendizado da contemplação não é tão simples, não basta estar com os olhos abertos para poder ver. Um olhar que seja capaz de compreender a presença reveladora da arte é mais complexo e intenso do que o simples ver e saber como as coisas existem; a grande sugestão do poema é que se deve aprender a olhar para compreender a verdade da arte presente dentro do universo contemplado. Essa sugestão de aprendizado da contemplação, de o olhar ir além da mera materialidade, mas atingindo a finalidade revelada em um dizer portador de uma novidade da e para a vida, é seguida por uma oferta generosa de um caminho para a entrega do “eu” ao momento, ao instante revelador de profundidade do ser que se oferece pela linguagem. É necessário encontrar ou “a dar con el secreto/ de un simple detalle, intérprete/ feliz de um entero universo.” Este é o caminho oferecido, encontrar o segredo de um detalhe, pois ele é o intérprete feliz de um universo inteiro. A contemplação do detalhe é o caminho proposto para se aceder ao segredo da vida do todo. Aprender a ver e a olhar para deixar-se pertencer à verdade que a arte revela para a vida do “Eu lírico”. Esse caminho pede um tempo de entrega e de posse para se encontrar o segredo desse detalhe, permanece ao poeta a oportunidade de a surpresa lhe tornar mais feliz a vida. E nese processo está em jogo também a felicidade proposta pela riqueza da linguagem que deve ser uma conseqüência do poder da linguagem ou do universo contemplado.
A conclusão do poema confirma o ensinamento: pelo modo sereno de se entregar na contemplação das coisas é que se pode “incendiar o que nunca brilhou”; o que se
encontra em estado de espera para nascer para a vida aguarda a mão ou a entrega do poeta para lhe dar, mediante a linguagem, ou mediante seu poder de nomear para passar para a concretude da vida, para se pôr em ato. Para ele, o poeta atualiza as virtualidades do ser reinventando-o .
Esse poema sugere uma postura para que o seu leitor possa atualizar as virtualidades que a vida lhe oferece. Essas virtualidades encontram-se em estado de espera — se o poeta encontra o caminho e o caminho pode ser a sugestão oferecida por esse poema — elas serão concretizadas em linguagens, reinventando o ser de quem as lançou ao mundo ou de quem as soube contemplar.
Em outro poema, o poeta sugere ao leitor: “Va llegando la hora de olvidar lo aprendido/ y de aprender a vivir de lo vivido....”(p.33) Essa sugestão tem a finalidade de exortar o leitor a abrir espaços interiores para modificações, para olhar o passado com outros olhos, para , enfim, não se aprisionar por uma modalidade de olhar que se teve no passado, pois a vida flui e nem sempre os cenários se repetem. Tudo não deixa de ser expressões da mesma vida que pode ser reinventada e renovada.
Da mesma forma, o poeta sugere uma vivência tão significativa ao leitor quando fala da amizade, renomeando-a:
“La amistad solo es digna de su nombre
de pila si, discreta, se asoma a vuestras vidas
y espeja sin retoques la sugestiva fuerza
y el aliento que habitan en vosotros.”(p.35)
Canta o poeta para seu interlocutor que a verdadeira amizade deverá suscitar a beleza interior que existe em cada um; a arte e a força interior de cada pessoa deve dinamizar a vida e fazê-la florescer. Uma amizade real levará sempre, no dizer do poeta, a descobertas de recursos latentes que podem ser acessados pela entrega e capacidade de contemplação.
Pertinente a seu propósito, o poeta dialoga com o seu ‘eu lírico’ tentando mostrar o que uma linguagem artística pode encerrar como oferta de renovação da vida. A inquirição acontece com a finalidade de revelar e mostrar a vida em sua novidade, mas não descuida de exigir abertura e entrega para poder receber a novidade da vida oferecida:
“Me pregunto si sabéis dónde estamos.
Me pregunto si donde estamos es
casa para encontrar cuanto buscamos.
Leo, en el fulgor de la mirada, la respuesta.”(p.55)
A identidade perante a vida pressupõe o mínimo de consciência perante um possível desejo que dinamize as aberturas necessárias para que a vida possa se reinventar pela linguagem que brota das pessoas em sua peregrinação, em sua viagem ou em seu estado de busca de maior profundidade. São estas as condições que o poeta pede como caminho para que a arte revele e aprofunde a vida que se quer palpitante. Em primeiro lugar é preciso saber onde se está e se queremos algo de novo, fruto de um desejo revelador da abertura do sujeito em profundidade. Quando essas condições ocorrem, a vida se revela e se renova nas pessoas, o resultado vem na felicidade de quem sabe constatar e ler essa renovação: “Leo, en el fulgor de la mirada, la respuesta!” A alegria expressa muito bem a satisfação de uma vida renovada. A linguagem do poeta testemunha essa possibilidade já concretizada.
A linguagem poética sugere o caminho e constata a presença dos impulsos, da dínamis vital construindo o mundo possível, ou mesmo a felicidade aponta para a reinvenção da vida.
3 - As grandes metáforas do instante
A proposta do texto poético é clara ao sugerir uma nova visão do mundo a partir da arte da palavra. Essa leva para um aprofundamento da vida os leitores que se aventurarem a percorrer o caminho por ela apontado. Também o texto usa de expressões, linguagens ou imagens como metáforas aglutinadoras dos significados e do sentido que o texto instaura e aponta como perspectiva de uma vida que se renova, apesar de tudo. A linguagem poética acontece através da força de significar destas palavras ou imagens que trazem a reinterpretação do viver. Também o poeta se coloca como intérprete mediante a linguagem para apresentar a novidade que lhe estiver ao alcance nesta peregrinação pela linguagem e pelo mundo das sugestões.
A primeira exortação do poeta para que seu leitor se inteire do mundo por ele apresentado é:
“!Limpia de tu camino las estatuas
de sal!
...............................
Decidirse a mirar hacia adelante
es privilegio sólo de quien vivió intensamente.”(p.51)
Esta é a condição essencial que o poeta indica para quem quer aceitar o sentido que a linguagem poética oferece, uma decisão de não se deixar aprisionar pelo já estatuído, pelo já pensado e sabido, pelo seguro do passado; exige que a pessoa se disponha a aceder ao significado que a linguagem poética apresenta com uma perspectiva de que a vida aí apresentada terá em seu ser a casa de sua palavra, de suas atitudes. Enfim, a mensagem será para uma vida organizada e apresentada com um horizonte de futuro, de alcance maior que o pequeno mundo já organizado. É necessário uma decisão de ir adiante, para frente.
Uma outra fonte de significação do texto poético não podia deixar de ser a palavra; a palavra expressiva da intensidade da vida é a ponte entre o vivido e a novidade instaurada pelo poeta. Ela instaura e apresenta ao leitor a transfiguração da vida pretendida pelo poeta e codificada pela linguagem. A palavra traz a vida em estado de doação e entrega, espera ser acolhida. O poeta exorta:
“Tantas palabras no alumbradas nunca
por tu boca, en dique seco ancladas.
...............................
Una a una, recostando a su lado
Aquel significado tan suyo e indescifrable
..........................
Y, por fin, sospecharon que la fuerza del verbo
Se fragua y se adereza en los silencios.”
Estas palavras que se afirmam em estado de espera, que nunca foram iluminadas por um Self que as aceite e as jogue na luz, através de uma aceitação no íntimo de um leitor, vão desfilando em estado de oferta e de acolhida para que, segundo o poeta, adquiram a força e a energia desejadas pela aceitação de alguém que, em silêncio vá organizando sua linguagem, vá enriquecendo o seu lastro vital , nas intensidades dos silêncios não estéreis, mas fecundos que adornam a linguagem ao conferir-lhe também a renovação da vida. Esse silêncio se torna a metáfora do nascimento, da reflexão, da assunção da vida restaurada pela palavra que chegou e foi assumida.
A palavra enquanto expressa a vida, indica também todos os limites e aguarda o instante para ser proferida e concretizada em sua potencialidade. Assim o poeta expressa esse poder da palavra:
“Frente al café que nos declara
aquella parte de ti que ahora evocas
con emoción como mejor, como distinta,
para tu buena imagen y consuelo
si disipó de ti irremediablemente.
De ella sólo quedan recuerdos, como ausentes
fragancias en bellísimos frascos de cristal.
¿Es por eso que quieres alumbrarla en un verbo?
¿qué se haga carne y habite entre nosotros?,
¿y que esa carne sea tu única palabra?
Tal vez a ser y a gozar, como a morir, se aprenda
a base de múltiples momentos y costumbres,
sin nostalgia posible. Tal vez así morir
non sea mucho más imperfecto que vivir.”(p.61)
A palavra poética confessa que não se pode viver somente o que já tinha sido conquistado uma vez; o estado definitivo não alcançado propõe a questão da perfeição ou de horizontes melhores que espelhem a vida em plenitude ou a partir da ambigüidade desse tempo referencial.
Confessa o poeta que é necessário ultrapassar o tempo das recordações e não se iludir com as conquistas que ocorreram e lhe tragam as lembranças desse estado sonhado “al revés”, de tanta recordação, o passado passe a habitar até os sonhos. A luta do poeta é para que uma palavra original desencadeie um processo de vida que seja inaugural. A confissão do poeta a seu ‘eu lírico’ parte para um estado de ânimo que questiona a vida em suas amplas abrangências, a ponto de confundirem-se os extremos, o viver e o morrer. Lança uma perspectiva de que talvez seja possível encarar a vida e suas alegrias, seus percalços e momentos intensos, mas tudo sem “nostalgia posible”. Essa deve ser para o poeta o máximo de ilusão, a saudade do passado como fonte inspiradora da vida.
A imagem evocada como boa para si, como consolação para seu ‘eu lírico’, desencadeia um processo de desestabilização, pois nada se propõe como definitivo, distinto ou acabado. Não há consolação, o poeta deve peregrinar desconsolado em busca de suas raízes antevistas ou mesmo dissipadas, permanecendo uma possibilidade remota que deve ser nomeada como uma saudade que revela o ideal não atingido ou engrandece a vida e a intensidade de um encontro pleno. O poeta deve aceder ao sonho de seu desejo,
a uma plenitude antevista, porém presa à Palavra. O sonho pode acessar o desejo dessa realidade, pode aproximar e compor, num devaneio, a imagem ideal ou próxima para que uma palavra o detenha.
Infelizmente tudo está vazio e a ausência é o caminho do poeta, ele é o peregrino para o universo futuro de uma saudade, da busca e da vontade de ir para o possível e acessível em si. O poeta caminha e peregrina para visitar o mundo ausente/presente. A luta ou o peregrinar do poeta tem por objetivo encontrar o nome, a palavra, o verbo que seja a casa para a realidade da imagem devaneada.
Seria muito pedir a poeticidade da suprema Imagem, do supremo-amor que buscasse sua casa terrestre, o seu corpo, carne e espírito para trazer a beleza do meu ser no corpo e na alma pela sua presença encarnada. Possa também encontrar o seu ‘eu’ assumido em relação à suprema Imagem que assumiu a palavra do Corpo, uma linguagem concreta do corpo e cultura, dos limites e das grandezas, da ambigüidade e da reinvenção, como a fragrância da mulher que Lhe ungiu os pés e foi a palavra que reinventou aquele encontro, tornando-o matriz.
O poeta da Imagem Suprema é uma Palavra suprema no corpo mortal que se torna supremo. A carne é palavra máxima para a redenção do desejo do Pai; assim Cristo é a invenção, a poesia suprema que peregrina pelo mundo para que os poetas, dentro de suas possibilidades, reinventem não só a sua carne, mas o mundo de que a palavra/carne é a expressão e realidade máximas.
Uma vez proclamada a palavra única, o mundo instaurado por ela se firma como definitivo, eterno e eternamente generoso e vário para os outros mundos, os nossos, os “Eus” que não se eternizam. Enquanto peregrinos, constroem sua palavra poética quase definitiva. Segundo Heidegger, a palavra encerrará a construção, convocará a realidade como definitiva somente pela morte, como acabamento e entrega total da palavra que se abriu para uma realidade que a habitará para sempre, pois então plenificou-se.
Enquanto tal fato não ocorrer, o poeta peregrina e convoca as palavras para as suas evocações, para que elas não se percam. Assim viver e morrer é a condição do poeta que sempre deve estar conivente com a linguagem. A cada nomeação morre-se para o passado e a cada invenção a palavra traz a vida. É preciso saber morrer para aceder à linguagem do novo, pois o instante já passou. O viver/morrer do poeta traz a cruz do limite e da imperfeição. A linguagem poética tem na perfeição a sua morte enquanto retrata o definitivo, o “não-renovável”.
A imperfeição inserida no ser permite sua invenção e renovação; a linguagem concretiza essas possibilidades e mostra o instante real ou idealizado, não importa; o que vale é que seja novo, poético, capaz de abrir um novo mundo para que a vida se reinvente na imperfeição.
Para encerrar a apresentação deste item, “As grandes metáforas do instante”, devem ser apontadas aqui duas imagens: a do palácio de Taj Mahal como esplendor da inventividade e do mistério do amor e a do “Jardin de arena em Kyoto”, como exemplo de amplitude de significação. Essas duas imagens concretizaram o sentido inaugurado pela linguagem poética em níveis de profundidade que a vida tem conhecido tão poucas vezes. Esses dois poemas resumem com simplicidade o poder de significar e instaurar das imagens ou das metáforas. A vida perante elas vê-se mais ampliada e engrandecida.