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| Prof. Afonso de Castro Los muchos nombres que la vida tiene IntraText CT - Texto |
Esta última parte dessas análises tem por finalidade apresentar a análise de dois poemas como complemento de tudo do que já se afirmou desse texto de linguagem poética. A análise pretende mostrar o poder de dizer conferido ao texto pelo poeta, por outro lado como um poema se identifica com a sua natureza de obra de arte cuja teoria ou explicação está em seu próprio corpo e por sua natureza tem o poder de gerar um texto rico em significação. É próprio da obra de arte ser geradora de vida e, aqui, poderão os dois poemas gerar outras reinvenções da vida a partir da originalidade de cada um. Os desvelamentos do ser que eles inauguraram e fixaram na linguagem poética podem gerar outros desvelamentos, outras leituras da vida a ser reinventada.
1 – “AYÚDAME, CON TU MIRAR DE OJOS
expectantes, a decir lo indecible,
a cifrar en palabras sentimientos
que residen sin patria declarada
y esperaban tu amor para el rescate.
Hasta el rincón del parque compone su postura
para vestirse de oídos y silencio
junto al tuyo por el que accedo a mi alma.”(p. 60)
Esse poema é a síntese de todos os outros poemas, nele estão contidos todo o processo criativo do poeta e toda a sua técnica composicional. Nele também está toda a teoria da arte poética que está como substrato ao texto dando-lhe sustentação e força de significação. Também aí estão manifestos todos os anseios e dificuldades, todos os parâmetros e limites que o poeta encontra e confessa. Também estão expressos os ideais que alimentaram o fazer poético em todo o percurso e que suplica para serem atingidos: “ajuda-me a dizer o indizível e a colocar em palavras os sentimentos sem pátria declarada.”
¬ Em primeiro lugar algumas observações iniciais.
Trata-se do diálogo do poeta com o seu ‘eu lírico’. O poeta encontra nos olhares a expectativa, a força, a cumplicidade para criar, para suscitar a linguagem poética.
O grito de auxílio é para que seu ‘eu lírico’ permaneça como receptáculo, o interlocutor daquilo que ele for capaz de dizer, expressar e criar. É necessário que haja essa relação de ‘eu/tu’ como caráter de ressonância de sua voz para receber/rejeitar como condição para continuar suas tentativas. Para que o poeta possa dizer “o não-dito”, o indizível, o inominado ainda, ele necessita dessa expectativa que o auxilia a pronunciar o encoberto, o indizível.
¬ A palavra segura e retém o dito do poeta, mas ele não pode mais que simplesmente dizê-la. Sabe-se que a palavra é casa do ser e a chancela dos sentimentos, sensações que pairam, que aguardam encontrar o verbo, a palavra para tornarem-se uma interlocução reveladora do mundo dos possíveis. Uma linguagem, mediante a palabra, pode instaurar, sustentar e ser sugestão para novos mundos, sensações e percepções. A palavra poética é portadora de conhecimentos que, por sua vez, têm o poder de suscitar novas leituras da realidade. O ser ganha história e sentido, volta a significar mediante a palavra e/ou a linguagem.
A palavra é a pátria da realidade, do modus vivendi das pessoas e das coisas, permite o entendimento.
A palavra é a morada do ser, onde o ser possível concretiza-se ou se reinventa; o poeta é o demiurgo que chama a palavra para a clareira do ser para sustentar um desvelamento.
A pátria condiciona a vida, a explicitação do viver, assim a realidade perceptível sem pátria, pelo poeta instala-se na palavra com a colaboração de quem a nomeia; de quem nomeia a palavra, dá a função e constituição de pátria para a latência do ser. Ele resgata a possibilidade do ser.
¬ O amor, cantado e celebrado neste poema, é a força que sustenta o poeta para que, em sua peregrinação tenha ímpetos e caminhos inaugurais. Ele dinamiza o ser do poeta para abrir a palavra à realidade ainda incógnita. É o pastor da palavra que busca outras para aumentar o rebanho (FP1), ou o guardador das águas (MB2) de onde brota a vida. A força do amor motiva o poeta a dizer, a nomear as vivências para que o homem não se aprisione e se empobreça.
Ao nomear, ao suscitar as palavras que revelam e indicam novas realidades, os instantes, o ser em seu peregrinar, o poeta desvenda a si mesmo, também tomando consciência de suas potencialidades. Descobre os caminhos que levam a inaugurações fantásticas, é susceptível às descobertas que lhe oferecem, por sua vez, caminhos para outros horizontes. À proporção que o poeta se abre à linguagem, ele oferece novos processos ou caminhos, ele instaura pátrias ou moradas para as novas realidades ou aprofundamentos, sempre tentando dizer o indizível. As potencialidades estão aí, dependem de quem as esperam ou de quem delas se acerca para que elas possam sair do estado de velamento. Elas estão aí e aguardam as palavras que as explicitem, que as coloquem na existência.
O poeta vive do amor de nomear e instaurar novos horizontes, mundos ou linguagens em que outras pessoas, enamorando-se desse caminho descubram também que são capazes de habitar, de ter pátria, de transcender, de ir além para inaugurar o indizível.
O amor resgata o poder da verdade de cada um. Então o amor dinamiza o poeta para transcender, pois ele necessita do outro como referência de seu dizer. Sua arte é o caminho para o próprio processo. O amor o auxilia a entender-se capaz de ir além e dizer, expressar “o não-dito”, de expressar a potência latente que o caminho lhe oferece. É o amor que o impele a pôr-se a caminho rumo ao indizível, para descobrir processos e aproximações. Para resgatar a vida ainda não plenificada, embora antevista e desejada.
Nessa segunda parte o poeta escolhe uma imagem apropriada para preparação do leitor e de si mesmo para um universo cujas armas são diferentes para se atingir a sua fala; aqui o poeta escolheu o parque como lugar de sua “investigação” de adereços necessários para sua habilitação em relação às percepções que lhe estão a mão. Assume um lugar, o parque, onde impera o lúdico, lá é o lugar da diversão e não do trabalho. O estado de diversão é o oposto da funcionalidade que em geral o lugar de trabalho assume; aí o poeta é tomado na totalidade de seu ser para momentos não preparados, fortuitos e agradáveis. No parque nada é determinado a não ser a novidade própria dele, o descompromisso, ali o tempo não corre conforme o relógio, vive-se sem o tempo dos minutos e da funcionalidade deste tempo. No parque vive-se a gratuidade do momento – neste local o momento é a oferta pura do que ainda não se viveu e tudo deve acontecer com prazer mesmo quando deve abrir-se ao medo, ao esforço físico, emocional e mesmo ao desespero, pois tudo converge para o inesperado. Quem se entrega ao mundo do parque vive aquele tempo ainda não vivido, novidade daquele momento; a vida aí se renova a cada instante, pois nada está marcado.
Ir para o parque e vestir-se de ouvidos e silêncio é a condição do poeta para viver a novidade do instante que exige uma só linguagem: não pode haver ruídos. O silêncio favorece a entrega para que o ouvir seja o melhor, para que ele possa se abrir ao fluir do indizível, para descobrir o caminho e a palavra que vem oferecer a guarida ao real.
Se o silêncio permite o ouvir; o contrário, quando se fala, diz o que já foi repatriado, o que já se conquistou. Aqui o silêncio é a condição do ouvir, do perceber a voz, de tudo que se avizinha para ser nomeado e aguarda no silêncio. Quem fala demais não cria espaço , palavra ou possibilidade, fecha todo o seu ser na fala, repete o seu mundo e não está atento para a novidade. O silêncio abre a clareira para o seu dizer, emitir a sua voz com a palavra que sai do íntimo do poeta. Somente quem chega ao silêncio e encontra espaço/palavra pode ser proclamado e exultado. A voz do poeta torna-se, mediante a palabra, a exultação do ser em seu estado generoso de ‘acedência’, revelação e gratuidade.
¬ Comungando o silêncio de seu ser – al tuyo – ele acede a seu mundo profundo, à sua alma. O estado criativo do poeta em diálogo com seu ‘eu lírico’ instaura mundos e descobre o seu mundo, o abismo de si mesmo. E também pode encontrar a palavra/pátria do seu desejo: o amor.
O íntimo do poeta fica dependente deste estado de sugestão – ter a compreensão de um amor que leve a abrir-se para as palavras, para a invenção. O estado poético de enomoramento é fecundo e produtivo, o mundo se enriquece com as palavras que nomeiam, tornam-se pátria para o “não-dito”, para “o que espera” – o mistério da alma, o mistério da existência.
O poeta, por sua vez, somente produz quando está em estado de gratuidade.
Esse poema, de fato, é a poetização de um processo generoso e doloroso, que fez o poeta gritar em seu auxílio por um interlocutor que lhe possibilitasse o diálogo. O processo se poetiza, pois esta é a melhor voz que sai do íntimo do poeta e sai como um grito a seu “eu lírico”, conclamando-o também a encontrar a palavra/pátria para ele, o amor. O poema é um grito lancinante de desejo e de busca do sentido existencial para o que existe de mais íntimo e profundo em seu ser. O ser do poeta geme e espera a exultação deste ser que acontecerá a cada momento em que seu desejo for ativado por uma força consagrante, o amor.
2 – “ERA A LA GRUPA DE UN CABALLO DE TIRO. ERAN
quebrados los caminos, cada trecho más altos
y alejados de casa. Era la vez primera
que ascendía a la cumbre. Eran los ojos vírgenes
ventanas asaltadas cada vez que el espacio
se mudaba de formas y colores y aromas
y sonidos. Era un tensarse el alma como un arco:
el miedo a las escasas e intermitentes voces
con que cantaba el monte apagaba preguntas
ya en los labios, marcaba el ritmo a los respiros
y poco a poco nubes de silencio ocupaban
la escena tomado posesión del aquel momento
único. Era, en la tarde, hora de luz escasa.
Era la tierna edad en su viaje primero
a lo desconocido. Era la boca grande
del misterio que abría lentamente su puerta
con crujidos que tenían en vilo los sentidos.
Y apareció la inmensidad – un simple panorama
visto desde lo alto – con el ropaje de una
visión tan fascinante que arrancó un ¡oh!,
como el primer vagido y por toda palabra.
No ha venido el olvido, hasta el presente,
a empañar el cristal de aquel preciso instante
de asombro emocionado.
Aún arde aquel fuego con leña seca o verde
y vibro de emoción ante un detalle.”(p.65)
Esse poema coroa toda a teoria que se propôs até o presente momento como percurso poético de um texto. Aqui estão retratados os passos de uma descoberta ou de uma entrada no mundo do instante revelador. Acontece a poetização do momento que se manifestou de uma intensidade tão forte e de cuja expressão verifica-se uma das potencialidades mais importantes de um desvelamento: o prolongar-se do instante devido à intensidade comunicada. Impossível abranger e reter em poucas palavras a vida que se manifestou aos borbotões para o ‘eu lírico’ do poeta. Esse poema pode ser visto de várias maneiras. Seu poder de falar ou de dizer é muito grande, presta-se a essas modalidades de encará-lo desde que não se perca de vista a sua capacidade intrínseca de revelar e explicitar o ser.
O centro de todos os sentidos resume-se na afirmação peremptória: “tomado posesión de aquel momento único.” Com poucas palavras a fonte do poema se concentra para depois expor-se em vários canais que comunicam sua potência e suas nuanças.
¬ Há uma espécie de ansiedade por parte do poeta em explicitar todas as partes de um percurso muito louco em que sua visão se abre para situações e proximidades desconhecidas e inimaginadas. Tenta retratar essa experiência para seu “eu”, mas sabe que todas as palavras, apesar de possuirem significado registrado, não terão jamais a capacidade de abranger o que ele quer dizer. Então pode-se concluir com ele que a linguagem apenas indica o percurso de um caminho fantástico, pois confessa com muita
simplicidade, “eran quebrados los caminos, cada trecho más altos y/ alejados de casa.” Não existia pista ou seqüência normal, a própria noção de caminho era quebrada, tentando dizer que percorreu uma estrada, mas diferente das que entendemos por essa palavra. Oferece algumas características, sempre para cima e para longe de suas referências. O poeta sente-se seguro perante um caminho normal e se orienta por sua base de permanência, sua casa. Nesse percurso as referências são outras. Em especial o poeta somente vai poder falar do percurso enquanto ele se constrói ao ser percorrido, ele é e será único.
Mais adiante a fala do poeta torna-se uma confissão apreendida pela sua percepção: “Era la vez primera/ que ascendia a la cumbre.” Para sentir-se neste lugar, teve que sentir uma referência, a vertigem da altura captada pelo olhar que lhe oferece uma visão diferenciada permite ver de outra forma, talvez com uma intensidade e abrangência tão diferentes que lhe permite concluir que estava no ponto mais alto que lhe permitia imaginar. Um olhar e percepção com alcances inimagináveis permitiam-lhe descobrir também como sujeito, um pouco diferente do que tinha permanecido em seu ser até aquele momento. Cumpre aqui a teoria da arte quando afirma que o objeto artístico constrói o sujeito capaz de o olhar e o compreender. Esse estado de estar no topo vai construir o olhar do poeta.
Então ele pode e deve afirmar que nunca tinha visto ou percebido nada antes daquele momento, seus olhos nunca tinham visto algo assim. Confessa: “Eran los ojos vírgenes/ ventanas asaltadas cada vez que el espacio/ se mudaba de formas y colores y aromas/ y sonidos.” Dessa forma seu olhar virgem para esse estado estava pronto para contemplar ou deixar o objeto se revelar da forma e modalidade em que se encontrava. Seus olhos tornaram-se a expressão de seu ser, de sua morada, pois os nomeou como “janelas” para que a beleza e a realidade cambiante da revelação pudesse entrar e morar em seu íntimo. Esse objeto atingia todas as faces ou mediações de seu conhecer, os sentidos de suas percepções, as formas e o espaço ao entendimento, as cores aos olhos, os aromas ao odor, os sons aos ouvidos. Vale lembrar que a realidade que se apresentava a seu ser impregnava-lhe todos os canais que têm acesso ao seu “eu”, seus sentidos estavam modificados também.
Mas e seu espírito, sua alma? Aí sim acontecia a intensidade do momento como revelação e voz que se acessava a seu espírito, à sua alma: “Era un tensarse el alma como un arco:
El miedo a las escasas e intermitentes voces
con que cantaba el monte apagaba preguntas
ya en labios, marcaba el ritmo a los respiros
y poco a poco nubes de silencio ocupaban
la escena tomado posesión del aquel momento/ único.”
Nesses versos estão descritas as passagens que preparam a apreensão do instante. É um caminho a ser percorrido e o poeta confessa todos os seus sobressaltos sem pudor. Em primeiro lugar sente que a extensão da compreensão foge de um estado comum de comando da psique. Alarga-se e prepara-se para o que será oferecido, compara essa expectativa a um retesar da corda de um arco, distendida por uma força para ganhar impulso para uma potência de energia quando apreende ou quando se solta. Assim estava o seu interior, em estado de expansão para apreender o objeto ou ser possuído pela força do objeto. Nesse estado o que habita o interior do poeta aflora, o medo se faz presente, um medo normal da virgindade de seu ser ante uma revelação que lhe foge do controle normal; sempre o poeta possui o domínio de suas faculdades, aqui ele é impelido e conduzido pala vertigem daquela expansão de seu ser, de seu Self. Os sentidos que normalmente organizam as sensações aqui dispõem de poucos sinais, todo o seu ser está tomado por outro modo de percepção, nem sons ou vozes nem raciocínios, nem paradas ou ritmo de orientação. Tudo nesse percurso obedece a outro ritmo. O poeta descreve muito bem o desfecho do caminho ou do processo quando inicia a perceber que o silêncio está em toda parte — ele era a expressão da totalidade daquele instante. Seu ser, o do poeta, estava se expandindo e se unificando para poder captar a entrega daquele instante que se preparava para culminar em sua revelação/entrega ao ser entreaberto do poeta que se aproximava. O medo não mais se dirigia às áreas normais do pavor ou do receio, mas apareceu pela grandeza inesperada que lhe era entregue na gratuidade de um instante eterno, profundo e esplendoroso. Possuído pela intensidade de tudo que era entregue a sua percepção, somente poderia concluir que até aquele momento tudo se reduzia a pouca coisa. Esse instante tornava-se “único”!
A percepção do poeta aconteceu de tal maneira intensa, vertiginosa e com o saber de um renascer, que a sensibilidade de uma criança lhe aflorou como linguagem expressiva do acontecimento; o renascer lhe traz o estado de infante quando a força da vida é quase imediata, sem tempo para seu suceder. O desconhecido já não lhe traz o pavor ou medo, mas as sensações de “tenras idades” em que os tempos e os horizontes não se diferenciam e o todo está em toda parte com a força de sua variabilidade.
Ao final dessa viagem vertiginosa e intensa, fora das distâncias e dos espaços uma abertura fenomenal da vida apresentou-se espantosamente à sua percepção:
“Era la boca grande del mistério
que abria lentamente su puerta
con crujidos que teníam em vilo los sentidos.”
As palavras do poeta concretizam o momento uma vez que ele mesmo percebeu que a realidade do objeto que se apresentava era maior que seu poder de receber, registrar e captar como totalidade. Dessa forma a imagem de que a boca do mistério abria lentamente sua porta é uma expressão muito feliz. Ela expressa a proximidade do ser do poeta com a potencialidade pura que ao se mostrar conferiu a impotência do poeta em registrá-lo, mas somente em admirá-lo; aquilo que se ofereceu como possível ele registrou e guardou expansão de seu ser como casa que suportava receber segundo o seu potencial. O que foi visto por seu ser em estado de vigília ou como ser entreaberto somente foi registrado pela palavra que expressa essa dimensão: o mistério. O poeta sabe de sua existência e de ora em diante é outra pessoa, foi tocado pelo fascínio do inominável, do indizível.
“Y apareció la inmensidad – un simple panorama
visto desde lo alto – con el ropaje de una
visión tan fascinante que arrancó un ¡oh!,
como el primer vagido y por toda palabra.”
Este é o ponto de chegada da grande viagem do poeta ao mundo da potencialidade pura. Em primeiro lugar a visão do todo aparece de um ponto a partir do alto para que seu ângulo de visão tivesse a maior abertura que um olhar humano fosse capaz de abranger. O que irrompe desse ponto de observação e ao final do percurso é a percepção da imensidão, da amplitude jamais sonhada e antevista. Seu ser em estado de abertura e entregue ao conhecimento foi invadido pela imensidão de todas as possibilidades de que a linguagem nunca será capaz de abarcar. A sensação do todo confere ao poeta a dimensão do infinito. Um oh! de admiração foi a voz reveladora de todas as potencialidades que lhe invadiram o interior em extensão e profundidade, pois o mistério não ocupa espaço e nem carece das dimensões dos nossos sentidos para se manifestar. O vagido apreendido da imensidão é uma percepção original do todo que pode ser o supremo, o sublime, o totalizante, a Beleza, a pureza, as expressões máximas do ser em estado de exuberância – como diz Heidegger: a reverência suprema e total do
Um, do que tudo abarca, dá sentido e contém. Ao entrar em contato com o mistério o poeta é o seu porta-voz, ele foi construído para expressar em linguagem poética essa participação que o mistério lhe conferiu. Ele será então o servo do inefável, do indizível, do inominável sempre em estado de tentativa de encontrar nas palavras e nas linguagens as expressões já antevistas quando, num instante, o mistério o invadiu ou ele foi invadido pela imensidão.
O poeta somente pôde ter emitido um oh! de completa intelecção, de inserção no processo e completa absorção, de plenitude – o ser preenchido gemeu de gozo, dor, felicidade,alegria e beatitude. O vagido do ser apreendido pela oferta total, tanto quanto o sujeito comporta e pode sustentar sem desintegrar-se – a plenitude dos sentidos (que tenían en vilo los sentidos) permitiu a comunicação máxima da linguagem inaugurada com o coração/ser repleto de gozo e felicidade.
O contato com o inominável foi tão esplendoroso que ele tocou o “ fascinans et tremens” para não mais se esquecer. Ele foi reconstruído pela força fascinante que o arrebatou. Cada palavra que ele conseguir fazer dizer o mistério, será como o primeiro renovo, o primeiro vagido, no qual tudo se recria. Esse estado de renascer caminha com a palavra original. Ele sente a fascinação deste eterno renovo, deste primeiro toque do mistério que agora é visto em toda parte, principalmente quando ele, o poeta, deixar seu interior abrir-se para a constante oferta que o mistério lhe faz e o fascina para que encontre a linguagem adequada a expressá-lo em sua eterna renovação, em estado constante de indizível espera pelo poeta.
Esta primeira parte do poema poderia ter o título de “A vertiginosa viagem do poeta à profundidade do instante.”
Na segunda parte o poeta se consola porque tinha certo receio de que se esquecesse de toda a voragem de percepção que lhe apresentara como viagem ao mundo em estado de expansão. O esquecimento seria a volta a um estado de inanição e de empobrecimento. Compara sua trajetória à beleza de um cristal genuíno onde tudo é transparente. Ele tem medo de perder o que lhe foi comunicado e confessa-se em estado de “asombro emocionado”. Justamente porque se viu habitado por uma beleza ímpar ainda permanece esse estado de intensa vibração e não quer se desligar desse mundo revelado. Para ele “estar em estado de estarrecimento de emoção” é um resultado de uma entrega
que lhe proporciona um embevecimento pela revelação. Seu ser todo, o seu íntimo mais recôndito reverbera pela verdade anunciada que aparece agora na palavra. Essa jamais poderá mostrar a força e o deslumbramento do processo percorrido, mas indica a beleza da novidade. Sabe ela agora que ser poeta é deixar o ser vibrar e palpitar para lhe revelar uma renovação que provocará em sua alma um oh! de alegria e felicidade.
“Aún arde aquel fuego...” esta é a sina de ora em diante em sua vida, na alma de seu “eu lírico”; ali arde o fogo provocado pela gratuidade alcançada e pela renovação do instante. Ele sabe que a gratuidade da beleza requer somente a abertura e percepção, pois na trajetória para o encontro com o objeto a ser revelado, ele se incendeia dessa beleza, generosidade ofertada no jato da irrupção do ser/beleza quando encontra a casa apropriada e nela vem habitar com sua força original a palavra exata. Após essa inauguração, o poeta somente poderá soltar um “vagido original!”
Para o poeta, o detalhe continua sendo seu caminho para a revelação do todo; o detalhe torna-se a porta pela qual ele acessa a imensidão do ser, a beleza que procura uma casa, a palavra, a linguagem. E o frenesi criativo conclama toda a história do poeta que se entrega à viagem para fazer seu percurso de entrega ao processo de onde a linguagem reterá o fruto, o resultado da iluminação. Esse poema é o resultado de um percurso do poeta, então o seu “eu lírico” está pronto, está edificado também como sujeito. A relação recíproca de entrega proporciona a mútua edificação. O “eu lírico”, unido e sustentado pelo Self histórico – sua história, seu contexto e sua cultura – faz a experiência de se entregar ao devaneio para aprofundar seu ser e encontrar na linguagem a materialização desse processo, da beleza cristalizada, o poema. Esse é o dizer do poeta, por sua vez o poema confessa o ser do poeta.
Conclui-se que esse poema é a voz retumbante do Eu do Poeta CARLOS GARULO ENA que se entregou à palavra. Jamais alguém saberia dele se não fosse a confissão emocionada e vibrante do poema:
“Aún arde aquel fuego con leña seca o verde
y vibro de emoción ante un detalle.”