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| Prof. Afonso de Castro Los muchos nombres que la vida tiene IntraText CT - Texto |
INTRODUÇÃO
As margens contêm e estabelecem territórios passíveis de limites que separam e definem campos do espaço assumido ou considerado. O primeiro traço indica uma abrangência significativa em relação ao que se quer propor ou falar. As margens definem melhor os setores ou áreas a serem tomadas, definem os espaços, o de dentro, do lado principal e o outro espaço, o ‘fora das margens’ como algo próximo mas presente de outra forma.
Em segundo lugar, as margens estabelecem direções e orientações; margens de um rio assumem-se à direita e à esquerda conforme a nascente ou a direção do fluxo do rio; margens de um lago definem-se mais sutilmente sem a precisão do fluxo do rio. Quando as margens passam para a metáfora, indicam tantas possibilidades quantas a imaginação alcança definir. A esquerda ou a direita também estão por todo o espaço metafórico da linguagem. Restringe-se a margem como auxílio da expressão de conceito ou espaço para que o suporte de uma idéia tenha a concretude da linguagem com poder preciso, coerente até da comunicação do escritor ante seu pensamento ou intuição.
Margens no texto “En los márgenes y a mano” têm sentido mais exato, pois estão a indicar limites e partes diferentes. Mais ainda, indicam territórios ou espaços diferentes. Pressupõem o incluído e o espaço externo a seus limites, configuram o que foi abrangido e a parte não inclusa. Da mesma forma, existe o principal e o secundário, o todo assumido, o interior das margens e o espaço ilimitado não incluído. O interior das margens, o principal como um todo está muito bem contido e definido, mas em relação a ele o outro espaço está presente como parte, como lateralidade. De alguma forma a lateralidade é necessária ao todo como possibilidade de entendimento e sentido. Impossível uma delimitação de espaço totalizante não ter referências que lhe mostram a abrangência. Neste texto o todo continua com seu forte indicador de primariedade, de importância, porém o texto vai indicar-lhe a precariedade e denunciar sua auto-suficiência ao interdependência com as margens para que possa encontrar-se como sentido para si e para o que não está contido em si.
Como o autor do texto mostra, “Y a mano”, descobre-se a natureza do espaço que confina o todo em si como unidade ou realidade a se mediante uma intervenção ou diálogo forte e vigoroso. “Y a mano”, expressão de profunda ironia ou de propriedade da intervenção. A mão como exercício subalterno em tempo de espaços também marginais, mostrando que o todo e o principal estão preenchidos por outros sentidos ou
atividades; a mão pode indicar também que seu texto foi esculpido, exigiu um trabalho de desbastar com as ferramentas do carpinteiro o material sobrante para emergir a obra, a imagem desejada — aqui a expressão ou a linguagem precisa para aquele momento. Margens são também uma chave para o caminho poético do autor, o detalhe. Uma linguagem ‘marginal’ e vigorosa que se inclui sorrateiramente no centro do espaço principal. A ironia desta linguagem está em sua forma de definir as margens do todo como inexistentes, tem a função de alargá-las além de seus contornos, levá-las para paragens impensadas pelo todo. De tal maneira a lateralidade tem poder de dizer que o todo mostra-se indigente perante esse universo impensado; o vigor do autor interfere na busca desses horizontes que o principal pede e suplica na ânsia de maior significado de si e de todo o universo que ele tem capacidade de antever.
A tecnologia poderia até ajudar nesse empreendimento, mas o autor prefere que o sentido venha por força de um trabalho que preenche o tempo de uma forma subliminar para tocar a consciência brandamente e desse modo poder ocupar um espaço sem dono, ganhar e estabelecer uma presença que não suscite cobranças ou grandes responsabilidades. O poético, a linguagem poética sabe que seu mundo não combina com o tempo do todo reservado exclusivamente pela categoria da ‘utilidade’, como sustentação da permanência ou mesmo de uma essencialidade imposta e venerada; quem assim exige é a consciência do todo que exerce seu poder apaziguador perante a individualidade do todo, consignando-lhe a dignidade máxima perante ele e seus relacionamentos.
Por outro lado, o texto indica o seu autor e revela os seus espaços e seus anseios. Não se absolutiza o autor por este texto; a indicação do texto permite que se descortine o momento do autor e desta obra. Então o que se afirma restringe-se a esse tempo e a esse espaço, melhor, a esse texto e neste tempo em que o texto foi produzido. Afirmações sobre o autor são desnecessárias, o poeta e o “eu lírico do texto” serão objetos de estudo e de discernimento provenientes do texto.
A referência principal e única sempre será o dizer do texto e seu contexto inerente; não se consideram informações que não tenham raízes no texto e no horizonte de significado instaurado pelo texto. Aqui não se fala do Carlos Garulo Ena, mas do poeta e de seu “eu lírico”. A historicidade do texto referencia e dá contexturas da realidade como tal em tempos registrados pela linguagem; as imagens e as considerações textuais aumentam a confiabilidade textual. Nada aqui é puramente fictício, como tudo é poético e informa o homem e seu universo nos dias iniciais do século XXI.