|
Carta
aos Fiéis II (1221)
Prefácio:
Aqui começa a
carta de admoestação e exortação de nosso venerável Pai São Francisco.
Em nome do
Senhor: do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
A todos os cristãos que vivem religiosamente, clérigos e leigos, homens e
mulheres, a todos os que habitam no mundo universo, Frei Francisco, de todos
servo e vassalo, saúda com reverente dedicação e deseja a verdadeira paz do céu
e sincera caridade no Senhor.
Sendo servo de todos, a todos devo servir as odoríferas
palavras de meu Senhor.
Por isso, considerando que não posso visitar a cada um em
particular, por causa da enfermidade e debilidade do meu corpo, fiz o propósito
de comunicar-vos por meio das presentes letras e de mensageiros as palavras de
Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Palavra do Pai, bem como as palavras do
Espírito Santo, que São "espírito e vida" (Jo 6,63).
Capítulo I
- da Palavra ao Pai
Esta Palavra
do Pai, tão digna, tão santa e tão gloriosa, o altíssimo Pai a enviou do céu,
por seu arcanjo São Gabriel, ao seio da Santa Virgem Maria, de cujo seio
recebeu a verdadeira carne da nossa humanidade e fragilidade.
E, "sendo
rico" (2Cor 8,9) acima de toda medida, preferiu todavia escolher, com sua
bem-aventurada Mãe, a vida de pobreza.
Na véspera de
sua paixão celebrou a Páscoa com os seus discípulos e, "tomando o pão, deu
graças e benzeu-o, dizendo: 'Tomai e comei: este é o meu corpo'. E tomando o
cálice, disse: 'Este é o meu sangue do Novo Testamento, que por vós e por
muitos ser derramado para remissão dos pecados'" (cf. Mt 26,26; Lc 22,19).
Em seguida
orou ao Pai e disse: "Pai, se for possível, passa de mim este cálice"
(Mt 26,39). E seu suor se tornou como gotas de sangue que corre para a terra
(Lc 22,44). Abandonou porém sua vontade na vontade do Pai e disse: "Pai,
faça-se a tua vontade, não se faça como eu quero senão como tu queres" (Mt
26,42.39).
Ora a vontade
do Pai era que seu bendito Filho glorioso que nos havia dado e o qual por nós
nascera, se oferecesse a si mesmo por seu próprio sangue como oferenda de
sacrifício sobre o altar da cruz, não para si mesmo, "por quem foram
feitas todas as coisas" (Jo 1,3), mas em expiação de nossos pecados,
legando-nos um exemplo para que seguíssemos as suas pegadas (cf . lPd 2,21). 14
E Ele quer que todos sejamos salvos por Ele e o recebamos de coração puro e
corpo casto.
Mas
infelizmente São poucos os que o recebem e por Ele querem ser salvos, embora
seja suave o seu jugo e leve o seu fardo (Mt 11,30).
Em Observar os Mandamentos de Deus
Os que não querem provar "como é doce o Senhor"
(Sl 33,9) e "amam mais as trevas do que a luz" (Jo 3,19), porque não
querem cumprir os mandamentos de Deus, É deles que foi dito pelo Profeta:
"Malditos os que se afastam dos vossos mandamentos" (Sl 118,21).
E quão ditosos e benditos São ao contrário os que amam o
Senhor e procedem como o Senhor mesmo diz no Evangelho: "Amar s o Senhor,
teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, e amar s o teu próximo
como a ti mesmo" (Mt 22,37.39).
Capítulo
III - Do Amor de Deus e de Como Adorar a Deus
Amemos, pois,
a Deus e adoremo-lo com o coração e espírito puros, porque Ele mesmo exigiu
isto acima de tudo, dizendo: "Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai
pois todo aquele que o adorar deve adorá-lo em espírito e verdade" (Jo
4,23-24). E queremos oferecer-lhe os nossos louvores e preces de dia e de
noite, dizendo: "Pai nosso que estais nos céus", pois "é preciso
orar em todo o tempo e não desfalecer" (Lc 18,1 ) .
Capítulo IV
- Que Devemos Confessar Os Nossos Pecados Aos Sacerdotes
Todos devemos
confessar os nossos pecados ao sacerdote e é dele que recebemos o corpo e o
sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pois quem não comer a sua carne e não
beber o seu sangue não pode entrar no reino de Deus (cf. Jo 6,54). É preciso,
no entanto, que se coma e beba dignamente, porquanto, quem o receber indignamente,
"come e bebe a sua própria condenação porque não discerne o corpo do
Senhor" (lCor 11,29).
Façamos, além
disso, "dignos frutos de penitência" (Lc 3,8). E amemos o nosso
próximo como a nós mesmos. E se alguém não quiser ou não puder amá-lo como a si
mesmo, ao menos não lhe faça algum mal, mas o bem.
- Como
aqueles que receberam o poder para isso devem julgar os outros
Os que estão
investidos do poder de julgar os outros exerçam o cargo de juiz com piedade
assim como eles mesmos esperam obter do Senhor a misericórdia. "Porque sem
misericórdia ser julgado quem não fez misericórdia" (Tg 2,13). Sejamos
pois caridosos e humildes e façamos esmola porque esta lava a alma das manchas
do pecado (Tb 4,11).
Os homens
enfim perdem tudo o que deixam neste mundo. Mas levam consigo o fruto da
caridade e as esmolas que tiverem feito e o Senhor lhes dar por elas o prêmio e
recompensa condigna.
Capítulo VI
- Do Jejum dos Vícios e dos Alimentos
Devemos também
jejuar e abster-nos dos vícios e pecados (Eclo 3,32) bem como do excesso no
comer e no beber e devemos ser católicos.
Visitemos
também freqüentemente as igrejas e honremos e respeitemos os clérigos, não
tanto por sua pessoa - se forem pecadores - mas sobretudo por causa do seu
ministério em que nos administram o santíssimo corpo e sangue de Nosso Senhor
Jesus Cristo que sacrificam sobre o altar, recebem e repartem aos outros. E
estejamos todos firmemente convencidos de que ninguém pode salvar-se a não ser
pelas santas palavras e pelo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os clérigos
proferem, anunciam essas palavras e ministram o sacramento.
Só eles estão autorizados a exercer esse ministério, mais
ninguém. Especialmente,
porém, os religiosos, tendo renunciado ao mundo, estão obrigados a fazer mais e
coisas maiores, sem, entretanto, omitir as outras (Lc 11,42). Devemos odiar
nossos corpos com os seus vícios e pecados, porque diz o Senhor no Evangelho:
"Todos os vícios e pecados procedem do coração" (Mt 15,18-19).
Capítulo
VII - Como Devemos Amar os Nossos Inimigos e Fazer-Lhes o Bem
Devemos amar
os nossos inimigos e fazer bem aos que nos odeiam (Lc 6,27).
Devemos observar os preceitos e conselhos de Nosso Senhor
Jesus Cristo.
Devemos também renunciar a nós mesmos e submeter os nossos corpos ao jugo da
servidão e da santa obediência, como cada um prometeu ao Senhor.
Capítulo
VIII - Que Aquele Em Cujas Mãos Foi Depositada A Obediência, Seja Como O Menor
E ninguém seja
obrigado sob obediência a obedecer num assunto que implique culpa ou pecado.
Aquele em cujas mãos foi depositada a obediência e quem vale como o maior, seja
como o menor (Lc 22,26) e o servo dos outros Irmãos. E manifeste e pratique
para com os seus Irmãos tal misericórdia como gostaria que lhe fosse feita se
ele próprio estivesse em idêntica situação. Nem se irrite contra qualquer Irmão
se este tiver cometido um erro, mas antes admoeste-o e o suporte com toda
paciência e humildade.
-
Que ano devemos ser sábios segundo a carne Não devemos ser sábios e
prudentes segundo a carne (cf. lCor 1,26), mas antes sejamos simples, humildes
e puros. E mantenhamos nossos corpos em opróbrio e desprezo, pois somos por
nossa própria culpa míseros e cheios de podridão, asquerosos e vermes, segundo
diz o Senhor pelo Profeta: "Eu sou um verme, já não sou homem, o opr Nunca
devemos aspirar a sobrepor-nos aos outros, mas antes sejamos por amor de Deus
os servos e "súditos de toda criatura humana" ( lPd 2,13 ). E todos
os homens e mulheres que assim agirem e perseverarem até o fim verão
"repousar sobre si o Espírito do Senhor" ( Is 11,2 ), e Ele fará
neles sua morada permanente (Jo 14,23), e eles serão filhos do Pai celestial
(Mt 5,45), cujas obras fazem.
E eles São
esposos, Irmãos e Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo ( cf. Mt 12,48- 50). Somos
esposos, quando a alma crente está unida a Jesus Cristo pelo Espírito Santo.
Somos seus Irmãos, quando fazemos a vontade de seu Pai,
que está nos céus (Mt 12,50).
Somos suas Mães, se com amor e consciência pura e sincera o trazemos em nosso
coração e nosso seio e o damos à luz por obras santas que sirvam de luminoso
exemplo aos outros (cf. Mt 5,16).
Como é
honroso e santo ter no céu um Pai!
Como é santo, consolador e deleitável ter no céu um esposo!
Como é santo, e como é querido, agradável, aprazível, humilde, tranqüilizador,
doce, amorável e sobre todas as coisas desejável ter um tal Irmão que entregou
sua vida por suas ovelhas (Jo 10,15) e por nós orou ao Pai, dizendo: "Pai
santo, guarda em teu nome os que me deste. Pai, todos quantos no mundo me
deste, eram teus, mas tu nos deste. E as palavras que me deste eu lhas dei a
eles e receberam-nas e ficaram sabendo que em verdade saí de ti e acreditaram
que tu me enviaste. Rogo por eles, n -os e santifica-os.
Também eu por
causa deles me santifico a mim mesmo, para que eles sejam santificados para a
união, como nós somos um. E quero, Pai, que, onde eu estiver, estejam eles
comigo, para que vejam a minha glória no teu Reino" (Jo 17,11-22).
- Que
devemos tributar louvores a deus
61 A Ele,
pois, que tanto sofreu por nós e tanto bem nos fez e ainda fará no futuro -
todas as criaturas que há no céu e sobre a terra e no mar e nos abismos, rendam
a Deus louvor, glória, honra e bênção (Ap 5,13), porque Ele é nossa força e
nosso vigor, e que só Ele é bom (Lc 18,19), só Ele o Altíssimo, só Ele
onipotente, admirável, glorioso, só Ele digno de louvor e glorificação por toda
a eternidade sem fim. Amém.
Capítulo XI
- Da Penitência e do Corpo de Cristo
Mas todos
aqueles que não vivem em espírito de penitência, nem recebem o corpo e sangue
de Nosso Senhor Jesus Cristo, e que praticam vícios e cometem pecados, e que
vivem segundo suas m s concupiscências e desejos perversos, e que não cumprem o
que prometeram e com o seu corpo servem ao mundo, porque se deixaram ludibriar
por suas concupiscências carnais, pelos cuidados e solicitudes deste mundo,
pelo demônio, cujos filhos São e cujas obras praticam: cegos São eles, porque
não São capazes de enxergar a verdadeira luz, Nosso Senhor Jesus Cristo.
A sabedoria
espiritual não na possuem porque não trazem dentro de si o Filho de Deus, que ,
a verdadeira sabedoria do Pai. E é deles que se diz: "Sua sabedoria foi
devorada" (Sl 106,27). Só enxergam, conhecem, sabem e praticam o mal e
perdem deliberadamente suas almas. Reparai, ó cegos, iludidos por nossos
inimigos - isto é: pela carne, pelo mundo e - que é agradável ao corpo praticar
o pecado, e amargo servir a Deus, porque todos os vícios e pecados procedem do
coração do homem, como diz o Evangelho (Mt 15,19). E nada tendes de bom, nem
neste mundo nem no futuro. Julgais gozar por longo tempo as vaidades deste
mundo, mas estais logrados, porque vir o dia e a hora na qual não pensais, e
que de todo desconheceis.
Capítulo
XII - Do Enfermo Que Não Gosta De Fazer Penitência
Adoece o
corpo, a morte avança, chegam os parentes e amigos e dizem: "Põe tuas
coisas em ordem". Vede como sua mulher, seus filhos, os parentes, os
amigos andam fingindo que choram. Levantando os olhos e vendo-os chorar, ele
move-se de falsa compaixão , reflete no seu íntimo e diz: "Vede, minha
alma e meu corpo e tudo o que é meu É verdadeiramente maldito tal homem que
deposita e entrega em mãos assim sua alma e seu corpo e tudo o que possui. Daí
falar o Senhor pelo Profeta: "Maldito o homem que confia noutro
homem" (Jr 17,5). E logo mandam vir o padre. O padre diz-lhe: "Você
quer fazer penitência por seus pecados?" Responde: "Quero".
"Você está disposto, na medida do possível, a pagar, com os seus bens, as
reparar os logros e enganos que cometeu contra outros?" Retruca ele:
"Não". Diz o padre: "Por que não?" E ele responde:
"Porque entreguei tudo às mãos dos parentes e amigos". E começa a
perder a fala e assim morre o infeliz. Saibam todos: Onde e como quer que um
homem venha a morrer em pecado mortal sem a devida reparando - e ele pôde fazer
penitência mas a não fez - o diabo lhe arranca a alma do corpo sob tal angústia
e medo que ninguém é capaz de conhecer senão quem no experimenta em sua própria
pele. E todos os talentos e poderes e ciências e sabedorias que "julgava
possuir ser-lheão tirados" (Lc 8,18). E tem de deixar os seus bens para os
parentes e amigos e estes se apoderam deles e os distribuem entre si, e dirão
mais tarde: "Maldita seja a sua alma, porque ele poderia ter dado e ganho
para nós muito mais e o não fez". O corpo comem-no os vermes.
E assim ele
perde a alma e o corpo neste mundo passageiro, e ir para o inferno, onde ser
atormentado para sempre.
Em nome do
Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. A vós rogo e conjuro eu, Frei
Francisco, vosso mínimo servo, pelo amor que é Deus (lJo 4,16), e desejando
beijar-vos os pés, que recebais estas e outras palavras de Nosso Senhor Jesus
Cristo com humildade e amor e as pratiqueis de boa vontade e com perfeição.
E todos
aqueles homens e mulheres que as receberem de boa mente e as entenderem e
mandarem uma cópia a outros - se perseverarem até o fim (Mt 10,22), que os
abençoe o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Amém.
|