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Carta a Toda a Ordem dos Frades Menores
Em nome da altíssima Trindade e santa Unidade,
do Pai, do Filho e do Espírito
A todos os
reverendos e amados Irmãos, a Frei A., ministro geral da Ordem dos Frades
Menores, e aos outros ministros gerais que virão depois dele e a todos em
Cristo humildes ministros, custódios e sacerdotes desta fraternidade e a todos
os Irmãos simples e obedientes, aos primeiros e aos últimos, Frei Francisco,
homem insignificante e fraco, vosso pequenino servo, saúda naquele que nos
remiu e nos lavou em seu preciosíssimo sangue (Ap 1,5) - quando ouvirdes o seu
nome, adorai-o com temor e respeito profundamente prostrados por terra - o
Senhor Jesus Cristo, cujo nome é "Filho do Altíssimo", bendito por
toda a eternidade. Amém.
Ouvi, Senhores
filhos e Irmãos meus, e escutai com vossos ouvidos minhas palavras (At 2,14).
Inclinai o ouvido ( Is 55,3 ) de vosso coração e obedecei à voz do Filho de
Deus. Observai os seus mandamentos com todo o vosso coração e segui os seus
conselhos de toda vossa alma.
"Louvai-o,
porque é bom" (Sl 135,1), e "exaltai-o pelas vossas obras" (Tb
13,4). Pois para isto Ele vos mandou pelo mundo universo, para dardes
testemunho de sua voz, por vossas palavras e vossas obras, e fazerdes saber a
todos que ninguém é Todo-Poderoso senão Ele (Tb 13,4). Perseverai na disciplina
e santa obediência (Hb 12,7) e cumpri o que lhe prometestes com generoso e
firme propósito.
"Deus
nosso Senhor convosco se porta como para com seus filhos" (Hb 12,7).
Rogo-vos pois, a vós todos, meus Irmãos, beijando-vos os pés, e com toda a
caridade de que sou capaz, que manifesteis toda reverência e toda honra que ao
santíssimo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, no qual foram pacificadas todas
as coisas, assim as da terra como as do céu, e reconciliadas com o Deus
onipotente (Cl 1,20).
Peço ainda no
Senhor a todos os meus Irmãos sacerdotes, os que São, vierem a ser ou desejarem
ser sacerdotes do Altíssimo, que, ao celebrar a missa, ofereçam o verdadeiro
sacrifico do santíssimo corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo,
pessoalmente puros, com disposição sincera, com reverência e com santa e pura
o, jamais levados por qualquer interesse terreno nem por temor ou consideração
de qualquer pessoa "como quem procura agradar aos homens" (Cl 3,22).
Seja antes
todo vosso querer, na medida que vos ajudar a graça do Onipotente, ordenado
para Deus, desejando assim agradar unicamente a Ele, o supremo Senhor, porque
só Ele opera ali como for do seu agrado. Pois - como Ele mesmo diz: "Fazei
isto em memória de mim" (Lc 22,19) - quem proceder de outra maneira
torna-se outro Judas traidor e faz-se réu do corpo e sangue do Senhor (lCor
11,27).
Lembrai-vos,
Irmãos meus sacerdotes, que está escrito na lei de Moisés que quem a
transgredia, nem que fosse só em coisas exteriores, morria sem dó por
"Quanto maior e mais terrível castigo merece padecer aquele que pisa aos
pés o Filho de Deus e tem em conta de profano o sangue do testamento pelo qual
foi santificado, e insulta a graça do Espírito" (Hb 10,28-29 )!
Pois quando o
homem, segundo diz o Apóstolo, não discernindo nem distinguindo de outros
alimentos e obras o santo pão de Cristo, o come indignamente ou, sendo digno, o
come sem o reto espírito e em atitude inconveniente, profana e calca aos pés o
Cordeiro de Deus. Porquanto diz o Senhor pelo Profeta: "Maldito aquele que
faz com negligência a obra do Senhor" (Jr 48,10).
E condena na
verdade os sacerdotes que não quiserem tomar isto a peito, dizendo:
"Amaldiçoarei as vossas bênçãos!" (Ml 2,2). Escutai, Irmãos meus: se
honramos tanto a bem-aventurada Virgem Maria, como convém, por haver trazido em
seu santíssimo seio o Filho de Deus; se o bemaventurado [João] Batista
estremeceu e não ousou tocar a cabeça sagrada de seu Deus; se se presta culto
ao sepulcro onde ele repousou por algum tempo, que santidade, que justiça, que
dignidade não deve ter aquele que toca com as mãos, recebe na boca e no coração
e distribui aos outros o Senhor, que já não vem para morrer, como outrora, mas
há de viver na glória por toda a eternidade, e "a quem os anjos desejam
contemplar" (lPd 1,12)! Considerai a vossa dignidade, Irmãos sacerdotes, e
"sede santos porque Ele é santo" (Lv 11,44)!
E assim como o
Senhor Deus vos honrou acima de todos, por causa desse mistério, assim vós,
mais que todos, amai-o, reverenciai-o, honrai-o! É uma grande desgraça e uma
lamentável fraqueza se vós, tendo-o assim presente, ainda vos preocupais com
qualquer outra coisa no mundo inteiro. Pasme o homem todo, estremeça a terra
inteira, rejubile o céu em altas vozes quando, sobre o altar, estiver nas mãos
do sacerdote o Cristo, Filho de Deus vivo! O grandeza maravilhosa, ó admirável
condescendência! O humildade sublime, ó humilde sublimidade! O Senhor do
universo, Deus e Filho de Deus, se humilha a ponto de se esconder, para nosso
bem, na modesta aparência do pão. Vede, Irmãos, que
humildade a de Deus! Derramai ante Ele os vossos corações (Sl 61,9)!
Humilhai-vos para que Ele vos exalte (lPd 5,6)! Portanto, nada de vós retenhais
para vós mesmos, para que totalmente vos receba quem totalmente se vos dá!
Advirto ainda
os meus Irmãos e exorto-os no Senhor que, nos lugares onde moram, seja
celebrada uma só missa por dia, segundo a forma da santa Igreja. E se houver vá
rios sacerdotes no lugar, contente-se um sacerdote, por amor à caridade, com
ouvir a missa do outro. Porquanto o Senhor Jesus Cristo satisfaz os presentes e
ausentes, quando dignos.
Embora a gente
o veja presente em diversos lugares, Ele permanece todavia indivisível, sem
sofrer alteração alguma, e opera em toda parte conforme lhe apraz, como Uno com
o Senhor Deus Pai e o Santo Espírito Paráclito, por toda a eternidade. E porque
"aquele que é de Deus ouve as palavras de Deus" (Jo 8,37), devemos
por isto, nos que mais especialmente estamos incumbidos do culto divino, não
somente escutar e executar o que Deus comunica, mas ainda cuidar bem dos vasos
sagrados e dos demais objetos usados no culto divino e que contém suas santas
palavras. Com isto nos compenetramos mais de como é grande nosso Criador e de quanto
dependemos d'Ele.
Advirto por
isso a todos os meus Irmãos e os confirmo em Cristo, a que, onde quer que
encontrem palavras de Deus escritas, tratem-nas com todo o respeito possível e,
quanto depender deles, se elas não estiverem bem guardadas ou jazerem dispersas
em lugares inconvenientes, recolham-nas e as reponham em lugar decente,
honrando o Senhor nas suas palavras que pronunciou.
Pois muitas
coisas São santificadas pelas palavras de Deus (lTm 4,5), e é em virtude das
palavras de Cristo que é confeccionado o Sacramento do Altar. Confesso enfim
todos os meus pecados a Deus Pai e Filho e Espírito Santo, à bem-aventurada
Virgem Maria, a todos os santos do céu e da terra, a Frei H[elias], ministro
geral de nossa Ordem, e a todos os outros meus Irmãos benditos.
Tenho pecado
em muitos pontos por grave culpa minha, especialmente porque não tenho
observado a Regra que prometi ao Senhor observar, nem rezado o ofício conforme
o prescreve a Regra, seja por negligência, seja por causa de minha enfermidade
ou porque sou um homem ignorante e pouco ilustrado. Rogo, pois, insistentemente
ao ministro geral Frei H[elias], meu senhor, que faça observar a Regra por
todos inviolavelmente, e que os clérigos digam o ofício divino com devoção
diante de Deus, atendendo não tanto à harmonia da voz mas antes à sua
concordância com o espírito, de modo que a voz se una ao espírito, e o espírito
se harmonize com Deus. Assim eles podem agradar a Deus pela pureza do coração e
não lisonjear os ouvidos do povo pela delícia da voz.
Quanto a mim
prometo observar rigorosamente estes pontos, à medida que o Senhor me der sua
graça, e quero que os Irmãos que estão comigo o observem no ofício divino e nos
demais exercícios regulares.
Mas aqueles
Irmãos que o não quiserem observar, não os considerarei nem como católicos nem
como Irmãos: nem quero vê-los nem falar-lhes, enquanto não mudarem de atitude.
Digo o mesmo
de todos aqueles que andam vagueando pelo mundo sem se importar com a
disciplina da Regra; pois Nosso Senhor Jesus Cristo entregou sua vida a fim de
não faltar à obediência Eu, Frei Francisco, homem inútil e indigna criatura de
Deus nosso Senhor, digo no Senhor Jesus Cristo a Frei H[elias], ministro de
toda a nossa Ordem, e a todos os ministros gerais que vierem após ele, e aos demais
custódios e guardiães dos Irmãos, que agora o São e o serão no futuro, que
guardem consigo este escrito, ponham-no em prática e o conservem
cuidadosamente.
E peço-lhes
preservar solicitamente o que nele está escrito, fazendo observá-lo mais
zelosamente ainda, com o beneplácito de Deus onipotente, agora e sempre, até o
fim do mundo.
Abençoados
sejais pelo Senhor vós que isto fizerdes, e o Senhor esteja convosco
eternamente.
Oração: Eterno
Deus onipotente, justo e misericordioso, concedei-nos a nós míseros praticar
por vossa causa o que reconhecermos ser a vossa vontade e querer sempre o que
vos agrade, a fim de que, interiormente purificados, iluminados e abrasados
pelo fogo do Espírito Santo, possamos seguir as pegadas de vosso Filho, Nosso
Senhor Jesus Cristo, e por vossa graça unicamente chegar até vós, ó Altíssimo,
que em Trindade perfeita e unidade simples viveis e reinais na glória como Deus
onipotente por toda a eternidade.
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