|
OS LEIGOS
Um
grupo de catorze leigos, homens e mulheres, de todas as partes do mundo,
convidados pelo Irmão Charles, Superior Geral, residiu em nossa Casa
Generalícia por alguns dias do Capítulo. Tanto na assembléia quanto nas comissões
especiais, partilharam suas idéias com os Capitulares acerca das relações entre
Irmãos e Leigos, no que concerne à espiritualidade e ao apostolado. Deixaram
uma mensagem aos Irmãos.
A
respeito da solidariedade entre Irmãos e Leigos, o XIX Capítulo Geral adotou
estas duas proposições:
1. O XIX
Capítulo Geral reafirma a vontade dos Capitulares de partilhar, cada vez mais,
sua espiritualidade e missão, com os leigos.
Pede
ao Irmão Superior Geral e a seu Conselho que convidem os Irmãos e as
comunidades do Instituto a continuarem a progredir nesse caminho de comunhão.
2. O XIX
Capítulo Geral reconhece que o Projeto de Vida do Movimento Champagnat da
Família Marista oferece caminho seguro aos leigos que querem viver a
espiritualidade marista.
Pede
ao Irmão Superior Geral e a seu Conselho que favoreçam o desenvolvimento e a
autonomia do Movimento, especialmente encorajando a formação de seus membros e
a comunhão entre as fraternidades.
Leigos e Irmãos juntos na missão
Irmão
Charles Howard
Primavera
e mudança
O
Papa João Paulo II insiste em que, apesar dos muitos fatores negativos que
possam levar ao pessimismo, podemos encarar o mundo de hoje como se Deus
estivesse preparando uma grande primavera para a Cristandade, sendo já
evidentes os primeiros sinais.
Para
mim, um dos sinais mais nítidos de esperança dessa nova primavera é a visão
mais clara que temos da natureza da Igreja: a Igreja Comunhão missionária, a
Igreja Povo de Deus, no seio do qual há muitos ministérios, variados carismas e
diversas funções, mas todos unidos como discípulos de Cristo e testemunhas de
sua Ressurreição, comprometidos em seguir a mesma caminhada de amor, de
esperança e de serviço aos outros, no Espírito, continuando a missão de Jesus.
A
maioria de nós está bem familiarizada com aquilo que denominamos conceito
pré-conciliar de leigo, conceito que não mudou muito em alguns lugares.
Conforme esse conceito, a difusão do Reino de Deus era confiada, em primeiro
lugar, aos padres e, depois, aos religiosos: homens e mulheres. Quando muito,
esperava-se dos leigos que a recebessem e a pusessem em prática, embora, é
verdade, alguns fossem chamados a ajudar o clero e os religiosos, mas, em geral,
não eram considerados pessoas significantes na missão da Igreja.
Hoje
nos alegramos por vivermos numa época em que a Igreja está retornando a uma
percepção mais clara de si própria, como comunhão de leigos, religiosos e
padres, cada qual chamado à santidade e à missão. Nossas gerações são
convidadas a construir esse novo modelo de Igreja, em que as pessoas são
encorajadas, ajudadas e formadas para darem sentido a sua vida. Somos chamados
a nos auxiliar e complementar mutuamente, valorizando-nos e promovendo-nos na
vocação de cada um, em colaboração e comunhão.
Sinto-me
inclinado a concordar com o bispo filipino Claver, S. J., que esse conceito de
comunhão missionária de leigos, religiosos e padres juntos é a idéia mais
revolucionária do Vaticano II. E é importante notar que essa visão mais clara
de Igreja foi apresentada antes da falta de padres, que se tornou evidente em
muitos países. Todos devemos insistir no fato de que os leigos são chamados a
desempenhar plenamente seu papel na Igreja, devido a sua vocação batismal, e
não por causa da escassez de padres e religiosos.
Convite
especial
Alegra-me
o fato de que as duas maiores Congregações de Irmãos decidissem,
independentemente, sem consulta prévia, convidar colaboradores leigos para seu
Capítulo Geral, e isso no mesmo ano. É um passo sem precedentes nos anais dos
Capítulos de Institutos religiosos, mas é totalmente justo e oportuno:
* Não
somos clérigos.
*
Somos felizes em chamar-nos Irmãos e, se tomarmos a sério a designação, ela tem
implicações profundas em nosso relacionamento com os outros membros da Igreja.
*
Somos Maristas, e Maria, Mãe da Igreja, esteve presente no nascimento da
Igreja, quando os Apóstolos foram enviados em missão. Esteve presente no
nascimento daquela comunhão, que é a Igreja, e deve ter estado presente no
significativo desenvolvimento dessa mesma Igreja.
Comunhão
Devemos
trabalhar juntos para desenvolver a consciência eclesial, o sentido de pertença
ao mistério da Igreja como Comunhão. A oração de Jesus, na última Ceia: "a
fim de que todos sejam um" (Jo 17, 21) é programa de vida e de ação para
todos nós, e fará parte da liturgia do sábado próximo.
A
palavra "comunhão" se enraíza na presença, em todos nós, de
Cristo vivo, por meio de seu Espírito. Isso implica relacionamento de féamor,
lealdade, igualdade, participação e colaboração. Implica em tratar-nos
mutuamente com respeito e justiça. Implica em compartilhar, para que seja mais
efetiva nossa missão comum de serviço.
Ocasionalmente,
se tem a impressão de que a motivação para animar os leigos equivale, mais ou
menos, à da empresa comercial que trata bem os empregados para que estes
colaborem e sejam mais produtivos. Seria grosseira compreensão do que seja
Comunhão.
Caros
amigos, espero que todos nós sintamos que aqui somos chamados a colaborar, no
sentido forte de Igreja, de comunhão. Isso não acontecerá por um toque de
varinha mágica: significará cooperação prática, muito diálogo e discernimento
juntos, estruturas participativas, se quisermos continuar a crescer como
autênticos parceiros na missão. Essas estruturas participativas não devem ser
apenas meio de organização, mas meios poderosos para criar Igreja de comunhão.
A esse respeito, podemos muito bem empregar as palavras de nossas
Constituições: "A obediência, em comunidade, requer de cada um o
desenvolvimento do espírito de comunhão e fidelidade interior às moções do
Espírito Santo" (C 41). Acredito que isso se aplique igualmente à colaboração
com outros membros da Igreja, inclusive os leigos.
Não
podemos esquecer que a construção de comunidade, desenvolvendo a comunhão,
implica a vontade de aceitar as imperfeições dos outros e reconhecer que a
consolidação da comunhão nem sempre é fácil. Somos todos pecadores!
Rezemos
para que a Igreja continue a libertar-se e a produzir preciosos frutos com a
rica variedade de vocações, carismas, trabalhos e responsabilidades. Sentirá
mais fortemente suas responsabilidades para obedecer ao mandamento de Cristo: "Ide
por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura" (Mc 16, 15).
Espiritualidade
Esse
sentido de comunhão a que a Igreja nos chama tem evidentes implicações no tipo
de espiritualidade para hoje. Não seria necessário insistir nesse ponto, mas o
tocarei brevemente.
*
Implica espiritualidade de envolvimento, e não espiritualidade particular.
Acarreta disposição de colocar-se a serviço dos outros, solidariedade profunda
com os necessitados e sofredores e com as aspirações dos homens e das mulheres.
*
Implica espiritualidade missionária, reconhecendo a alegria e a
responsabilidade de ser cristão, de ser chamado a transmitir a Boa Nova, de
qualquer forma que seja o apelo para isso, talvez como missionário, leigo ou religioso,
etc.
* No
mundo secularizado de hoje, um aspecto vital de nossa espiritualidade é o da
presença e do testemunho, de modo muito discreto: sermos, no mundo, os arautos
da importância da dimensão transcendental de nossa vida.
Protagonistas
Na
recente reunião dos Bispos da América Latina, em Santo Domingo, os leigos foram
chamados a ser protagonistas na divulgação do Evangelho. Todos temos bastante
idade e sabedoria para compreender que esse desafio enfrentará muitas
dificuldades, mas espero que nossos corações se rejubilem, porque esse desafio
foi lançado claramente aos leigos. E para isso, deve se poder contar com o
apoio, a colaboração, a partilha de recursos dos outros grupos da Igreja, do
nosso inclusive. Façamos tudo o que pudermos para ajudar os leigos a aceitarem
o desafio de serem protagonistas na missão da Igreja.
Irmãos,
lanço-lhes apelo veemente, para que apóiem fortemente essa partilha de
recursos. Esses recursos são de vários tipos: experiência, perícia, tradição e,
por vezes, financeiros. Fomos tantas vezes beneficiários do apoio e da
colaboração dos leigos. Agora, sejamos generosos em ajudá-los em tudo o que
pudermos, para que, juntos, possamos ser mais eficientes em nossa comunhão
missionária.
Partilhar
nossa espiritualidade
Uma
das grandes alegrias de nosso tempo é o fato de haver muitos leigos desejosos
de partilhar de nossa espiritualidade, nossa espiritualidade cristã, é claro,
mas marcada pelo carisma de Champagnat. Acredito que isso seja um enorme
potencial para o futuro, e que os próximos anos serão importantes para
esse crescimento. Ao dizer isso não me refiro apenas ao Movimento
Champagnat, mas a todos os grupos e pessoas que desejam partilhar de nosso
carisma, de muitas maneiras.
O
carisma de um Instituto não pertence exclusivamente a esse Instituto. Os
carismas são para a Igreja e pertencem à Igreja. Somos herdeiros do carisma de
Marcelino e, até certo ponto, guardiães, mas o fato de sermos capazes de partilhá-lo
é uma alegria e uma responsabilidade. Como falei tantas vezes, os leigos, ao se
tornarem mais familiares com ele, nos revelarão novas facetas do carisma e
poderão vivê-lo mais plenamente. Não é partilha unilateral. Numa comunhão, é
óbvio que precisamos um do outro, e os Irmãos necessitam dos leigos.
A
partilha espiritual com eles revelará novas profundidades para nossa vocação de
Irmãos. Ao atingirmos o ponto em que nossos colaboradores se vejam eles
próprios co-responsáveis pela herança do carisma de Marcelino, então poderemos
cantar um sonoro Aleluia!".
Vocações
Todos
compartilhamos nossa vocação cristã, o que implica mútuo encorajamento,
conforme os diversos dons e apelos individuais. Não consideramos um apelo
superior a outro, mas animamos a todos. Tendo isso em mente, conclamo a todos
vocês, nesta importante reunião, para trabalharmos pelas vocações: leigas,
religiosas, sacerdotais. Vocês, caros amigos, poderão ter sido reticentes em
trabalhar pela vocação para Irmãos, mas aqui lhes peço, solenemente, que nos
ajudem nesse ponto, assim como nós nos comprometemos em ajudá-los a viverem
plenamente a sua vocação. Sabem que a vocação de Irmão, na Igreja, nem sempre é
bem-compreendida. Contamos com vocês, como gente capaz de ver além dessa
dificuldade, para que percebam aquilo que realmente constitui o coração de
nossa vocação de Irmãos.
Acredito
que o encorajamento recíproco em nossa vocação, produzirá outras formas de
associação, inclusive que mais leigos se apresentem voluntariamente em nossas
missões, em comunidades mistas (já existem algumas) e, naturalmente, no
Movimento Champagnat da Família Marista.
Maria
Em
sua Exortação Apostólica "Vocação e Missão dos Fiéis Leigos na Igreja e
no Mundo", o Papa João Paulo II concluiu com uma bela oração a Maria,
Mãe de Cristo e Mãe da Igreja. Valer-nos-emos dessa oração, como parte da
liturgia de sábado, mas permitam-me concluir estas breves reflexões com um
trecho dessa oração. Creio que poderíamos cantar o Magníficat, no final destas
linhas.
Ó
Virgem Santíssima,
Mãe
de Cristo e Mãe da Igreja,
com
alegria e admiração nos unimos ao teu Magníficat,
ao
teu canto de amor reconhecido.
Deus
nos chamou pelo nome
para
vivermos em comunhão de amor e de santidade com Ele
e
para estarmos fraternalmente unidos na grande família dos filhos de Deus,
enviados a irradiar a luz de Cristo
e a
comunicar o fogo do Espírito,
em
todo o mundo,
por
meio de nossa vida evangélica.
Virgem
do Magníficat,
enche
os nossos corações
de
gratidão e de entusiasmo
por
essa vocação e por essa missão.
Magníficat
Mensagem
aos Irmãos pelos leigos
convidados ao XIX Capítulo Geral
"Não
fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para
irdes e produzirdes fruto e para que o vosso fruto permaneça." (Jo 15, 16)
Chegamos
com nossas experiências, culturas e formações diversas. Cada um de nós foi
movido, de forma simples, pelo espírito de Marcelino Champagnat. Aceitamos o
convite de trabalhar com vocês. No decorrer deste Capítulo, oficializamos essa
missão comum. Eis a mensagem que desejamos partilhar com vocês.
Fortaleçam
o Movimento Champagnat da Família Marista. Façam com que sua identidade seja
reconhecida na Igreja universal. Ajudem-nos a promover esse Movimento em cada
Província Marista, através do empenho de cada Irmão.
No
seu papel de formadores, ajudem-nos a despertar e a fortalecer nossa vocação de
leigos. Partilhem conosco o que Jesus e Maria representam para vocês.
Ensinem-nos a construir um mundo justo. Façam crescer em nós o desejo de
evangelizar.
Mantenham
presença junto às nossas famílias, para auxiliar-nos a responder à nossa
vocação cristã. Sejam, por toda a parte, fonte de inspiração, de renascimento e
energia para nossas famílias.
O
espírito marista nas escolas é fundamental e precisa ser vivido em todos os
níveis da comunidade educativa. Sejam criativos e desenvolvam novas formas de
presença, particularmente agora que diminui o número de Irmãos.
Mostrem-se
convictos de que ser Irmão Marista, religioso na Igreja, é opção que os deixa
felizes.
Como
Champagnat, estejam abertos e disponíveis aos outros, tenham sensibilidade em
relação aos carentes, sejam modelares no respeito a cada irmão e irmã que
encontrarem, especialmente os mais pobres. Vocês demonstram simplicidade no
relacionamento conosco; procurem demonstrá-la também na sua vida material, nas
suas casas e atividades. É uma dimensão fundamental da fidelidade a Jesus, cuja
vida foi marcada pela pobreza e opção preferencial pelos pobres.
Abram
as portas de suas comunidades. Nós queremos partcipar da riqueza de sua vida
comunitária, do espírito e do carisma marista. Vocês confirmam a esperança para
continuarmos nossa vocação na Igreja. Precisamos vê-los não somente na ação —
no seu apostolado — mas também conhecê-los no que são no seu espírito de
Irmãozinhos de Maria.
Vocês
são chamados a permanecer fiéis às atitudes de Maria, particularmente nas
culturas onde elas não são apreciadas. Sejam audazes, conforme o espírito de
Champagnat. Lembrem-nos que Jesus tem amor especial a cada um. Ensinem-nos a
ter espírito comunitário. Assistam-nos quando começamos a formar comunidades,
especialmente no Movimento Champagnat da Família Marista.
Vocês
são gente de muita esperança. Sua presença testemunha o amor de Cristo por nós.
Falamos com vocês de nossas dificuldades, esperanças e alegrias na experiência
de nossa vida marista. Permitam que os escutemos e que nos unamos na construção
de seus planos e sonhos. Queremos também que falem conosco de suas expectativas
e temores.
Este
Capítulo é um começo espetacular, um apelo a partilhar uma história comum. Não
sabemos aonde nos levará essa colaboração. Sabemos que, para muitos, essa
caminhada não será fácil. Mas saibam que vocês não estão sozinhos. Com vocês
estão as orações de cada um de nós e dos milhares de leigos que representamos.
Nossa
confiança está em Jesus, Esperança de todos.
A
Jesus por Maria.
Roma, 2 de outubro de 1993.
Algumas
perguntas para uso pessoal e comunitário:
1. — Evoque, sem
detalhes, as formas de colaboração com os leigos, vividas pessoal ou
comunitariamente: no trabalho, nas amizades, nas responsabilidades, no
apostolado, na espiritualidade...
2. — Que sentimentos
lhe provoca a carta-mensagem que os leigos dirigiram aos Irmãos, no Capítulo?
3. — Em nível
espiritual e apostólico, o que lhe parece mais estimulante na mensagem do Ir.
Charles: "Leigos e Irmãos juntos em missão"?
4. — Sobre que
pontos você se sente chamado a progredir, no tocante à colaboração com os
leigos?
Oração:
— Com
base nos dois textos, partilhe alguma prece de intercessão, de
louvor ou de pedido de perdão.
—
Rezar juntos a Oração marial, no final do texto do Ir. Charles.
—
Concluir com o Magníficat ou outro canto apropriado.
|