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3.4. Maternidade da Igreja
A certeza de que a Igreja pode carregar o
peso do pecado dos seus filhos por força da solidariedade existente entre eles
no tempo e no espaço, graças à sua incorporação em Cristo e à obra do Espírito
Santo, é expressa de modo particularmente eficaz pela ideia de "Igreja
Mãe" (Mater ecclesia), que "na concepção protopatrística é o conceito
central de todo o anseio cristão":28 a Igreja - afirma o Vaticano
II -, "pela fiel recepção da Palavra de Deus, torna-se ela própria mãe
pois que pela pregação e o baptismo gera, para vida nova e imortal, os filhos
concebidos por acção do Espírito Santo e nascidos de Deus" (LG 64). À
vastíssima tradição de que estas ideias são eco, dá voz, p. ex., St. Agostinho
com as seguintes palavras: "Esta mãe santa digna de veneração, a Igreja, é
igual a Maria: ela dá à luz e é virgem, dela vós nascestes e ela gera Cristo,
pois vós sois os membros de Cristo."29 S. Cipriano de Cartago
afirma claramente: "Não pode ter Deus por pai quem não tem a Igreja como
mãe."30 E Paulino de Nola canta, deste modo, a maternidade da
Igreja: "Como mãe recebe a semente da Palavra eterna, traz os povos no
seio e dá-os à luz."31
Segundo esta perspectiva, a Igreja
realiza-se continuamente no intercâmbio e na comunicação do Espírito, dos
crentes uns aos outros, como ambiente gerador de fé e santidade na comunhão
fraterna, na unanimidade orante, na participação solidária da Cruz, no
testemunho comum. Por força desta comunicação vital cada baptizado pode ser
considerado, ao mesmo tempo, filho da Igreja, enquanto gerado nela para a vida
divina, e Igreja Mãe, enquanto coopera com a sua fé e caridade a gerar novos
filhos para Deus: é tanto mais Igreja Mãe quanto maior for a sua santidade, e
mais ardente o esforço de comunicar aos outros o dom recebido. Por outro lado,
não deixa de ser filho da Igreja o baptizado que, devido ao pecado, se separe
dela pelo coração; ele poderá sempre de novo aceder às fontes da graça e
remover o peso que a sua culpa faz carregar à inteira comunidade da Igreja Mãe.
Esta, por sua vez, como verdadeira mãe, não poderá deixar de ser ferida pelo
pecado dos seus filhos de hoje como dos de ontem, continuando sempre a amá-los,
a ponto de carregar, em todos os tempos, o peso produzido pelos seus pecados:
enquanto tal, a Igreja aparece ao Pai como Mãe das dores, não só por causa das
perseguições de fora, mas sobretudo pelas traições, as quedas, os atrasos e as
corrupções dos seus filhos.
A santidade e o pecado na Igreja
reflectem-se, assim, nos seus efeitos sobre toda a Igreja, mesmo se é convicção
da fé que a santidade é mais forte que o pecado enquanto fruto da graça divina;
disso são prova luminosa as figuras dos santos, reconhecidos como modelo e
ajuda para todos! Entre a graça e o pecado não existe paralelismo, nem uma
espécie de simetria ou de relação dialéctica; a influência do mal não poderá
nunca vencer a força da graça e a irradiação do bem, mesmo o mais escondido!
Neste sentido, a Igreja reconhece-se existencialmente santa nos seus santos;
mas, ao mesmo tempo que se regozija desta santidade e dela sente o benefício,
não deixa de se confessar pecadora, não como sujeito do pecado mas enquanto
assume com solidariedade materna o peso das culpas dos seus filhos, para
cooperar na sua superação pela via da penitência e da novidade de vida. Por isso,
a Igreja santa sente o dever "de lastimar profundamente as fraquezas de
tantos filhos seus que lhe deturparam o rosto, impedindo-a de reflectir
plenamente a imagem do seu Senhor crucificado, testemunha insuperável de amor
paciente e de humilde mansidão" (TMA 35).
Isto pode ser feito de modo particular por
quem, pelo seu carisma e ministério, exprima da forma mais densa a comunhão do
povo de Deus: em nome das Igrejas locais poderão dar voz a eventuais confissões
de culpa e pedidos de perdão os respectivos pastores; em nome de toda a Igreja,
una no tempo e no espaço, poderá pronunciar-se aquele que exerce o ministério
universal de unidade, o Bispo da Igreja "que preside no
amor",32 o Papa. Eis porque é particularmente significativo que tenha
vindo dele próprio o convite a que "a Igreja tome a seu cargo, com a mais
viva consciência, o pecado dos seus filhos" e reconheça a necessidade de
"emenda, invocando com força o perdão de Cristo" (TMA 34).
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