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6.1. Finalidades pastorais
Entre as múltiplas finalidades pastorais do
reconhecimento dos erros do passado, podem salientar-se as seguintes:
- em primeiro lugar, estes actos tendem à purificação
da memória que, como foi dito, é o processo de renovada avaliação do
passado, capaz de uma não desprezível incidência no presente, pois os pecados
passados fazem, com frequência, ainda sentir o seu peso e permanecem também
hoje como outras tantas tentações. Sobretudo se amadurecida no diálogo e na
paciente procura da reciprocidade com quem se possa sentir ofendido por acontecimentos
ou palavras do passado, a remoção da memória pessoal e colectiva de todas as
causas de possível ressentimento pelo mal sofrido e de toda a influência
negativa daquele facto, pode contribuir para fazer crescer a comunidade
eclesial em santidade, pela via da reconciliação e da paz na obediência à
Verdade.
"Reconhecer as fraquezas de ontem -
sublinha o Papa - é acto de lealdade e coragem que ajuda a reforçar a nossa fé,
tornando-nos atentos e prontos para enfrentar as tentações e dificuldades de hoje."
(TMA 33) É exactamente com tal fim que a memória da culpa deve abranger todas
as possíveis faltas cometidas, mesmo se apenas algumas são hoje mais
frequentemente mencionadas. De qualquer modo, nunca se pode esquecer também o
preço pago por tantos cristãos pela sua fidelidade ao Evangelho e ao serviço do
próximo na caridade.48
- Uma segunda finalidade pastoral,
estreitamente ligada à anterior, pode ser reconhecida na promoção da perene reforma
do povo de Deus: "se, em vista das circunstâncias das coisas e dos
tempos houve deficiências, quer na moral, quer na disciplina eclesiástica, quer
também no modo de enunciar a doutrina - modo que deve cuidadosamente
distinguir-se do próprio depósito da fé - tudo seja recta e devidamente
restaurado no momento oportuno" (UR 6).49 Todos os baptizados são
chamados a "examinar a sua fidelidade à vontade de Cristo acerca da Igreja
e, na medida da necessidade, empreender com vigor a obra de renovação e
reforma" (UR 4: opus renovationis nec non reformationis). O critério da
verdadeira reforma e da autêntica renovação só pode ser a fidelidade à vontade
de Deus respeitante ao Seu povo,50 que supõe um esforço sincero por
libertar-se de tudo o que afasta dela, quer se trate de culpas presentes quer
diga respeito a heranças do passado.
- Uma ulterior finalidade pode ser vista no testemunho
que, desse modo, a Igreja dá do Deus da misericórdia e da Sua Verdade que
liberta e salva, a partir da experiência que d'Ele fez e faz na história; e no serviço
que, desse modo, presta nos confrontos da humanidade para contribuir à
superação dos males presentes. João Paulo II afirma que "um sério exame de
consciência foi desejado por numerosos cardeais e bispos, principalmente sobre
a Igreja de hoje. No limiar do novo milénio, os cristãos devem pôr-se
humildemente diante do Senhor, interrogando-se sobre as responsabilidades
que lhes cabem também nos males do nosso tempo" (TMA 36), e para
contribuir, por consequência, ao seu superamento na obediência ao esplendor da
Verdade salvífica.
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